Após anos de promessas, renegociações, atrasos e cobranças, a Ponte Salvador–Itaparica finalmente entrou na etapa de execução. Projeto estratégico do governo do PT prevê ligação de 12,4 quilômetros sobre a Baía de Todos-os-Santos e impacto sobre mais de 250 municípios baianos
A Ponte Salvador–Itaparica deixou de ser apenas uma promessa de infraestrutura e entrou, em 2026, em uma fase decisiva. Depois de anos de discussões, mudanças contratuais, questionamentos técnicos, dificuldades econômicas e forte cobrança política, o projeto começou a avançar fisicamente e passou a ocupar posição central na agenda do governo da Bahia e do grupo político liderado pelo PT.
O empreendimento prevê uma ponte de 12,4 quilômetros sobre a Baía de Todos-os-Santos, ligando Salvador a Vera Cruz, na Ilha de Itaparica. Segundo o Governo da Bahia, o sistema viário associado à ponte deverá integrar mais de 250 municípios e alcançar cerca de 10 milhões de baianos, transformando a logística e a mobilidade de uma extensa área do estado.
O valor divulgado atualmente para o empreendimento é de aproximadamente R$ 11,6 bilhões, embora documentos de controle e a própria renegociação contratual apresentem diferentes referências financeiras, dependendo da metodologia utilizada. O Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA), por exemplo, registrou no processo de conciliação a redefinição do CAPEX para R$ 10 bilhões.
De promessa a obra
A história recente da ponte ajuda a explicar por que o empreendimento se transformou em um dos assuntos mais sensíveis da política baiana.
O contrato original da Parceria Público-Privada foi assinado em novembro de 2020, após o consórcio formado pelas empresas chinesas CCECC e CCCC vencer o leilão realizado em dezembro de 2019. Entretanto, mudanças nas condições econômicas e outras controvérsias acabaram levando o Estado e a concessionária a uma renegociação mediada pelo TCE-BA.
O processo culminou na assinatura do Primeiro Termo Aditivo em 4 de junho de 2025. A partir dessa data, começou a contar um novo prazo contratual de seis anos para elaboração de projetos, obtenção de licenças e execução das obras. Depois dessa etapa, a concessionária terá mais 29 anos de operação e manutenção do sistema.
Na prática, a renegociação redefiniu o relógio do projeto.
É justamente esse ponto que alimenta parte das críticas políticas: o cronograma anterior deixou de valer depois do aditivo de 2025. O próprio Governo da Bahia informa que a contagem dos prazos foi reiniciada e que o cronograma anterior não representa mais o planejamento vigente.
2026 virou o ano da cobrança
O governo estadual estabeleceu 4 de junho de 2026 como marco para o início das obras das fundações. O cronograma foi apresentado ao TCE-BA em março, com previsão de conclusão em junho de 2031.
Em junho, o empreendimento efetivamente entrou em uma nova fase.
O Governo da Bahia autorizou o início das intervenções em terra no município de Vera Cruz, incluindo estruturas necessárias para a implantação do sistema. Também foram publicados atos ambientais autorizando intervenções relacionadas à execução do empreendimento.
Isso significa que a ponte não está mais apenas no campo dos projetos e anúncios: há uma frente de implantação em andamento.
Mas também significa que começa agora a fase em que o governo será cobrado pelos resultados físicos da obra.
Uma ponte que é, na verdade, um sistema inteiro
O projeto não se resume aos 12,4 quilômetros sobre o mar.
Em Salvador, estão previstos aproximadamente 4 quilômetros de novas estruturas, incluindo viadutos e dois túneis, conectando a ponte à região da Calçada, Água de Meninos, Via Expressa e aos acessos viários existentes.
Na Ilha de Itaparica, o sistema prevê uma nova via expressa de aproximadamente 22 quilômetros, além da duplicação de cerca de 8,8 quilômetros da BA-001, entre Cacha Pregos e a região da Ponte do Funil.
É essa estrutura integrada que dá ao projeto potencial para alterar a dinâmica econômica de diferentes regiões da Bahia.
A expectativa oficial é de geração de milhares de empregos durante a implantação e de impactos sobre logística, turismo, comércio, serviços, indústria e mercado imobiliário.
O peso político da obra
O tamanho da ponte também aumentou seu peso eleitoral.
Para o governo de Jerônimo Rodrigues, a execução do empreendimento representa a oportunidade de transformar uma promessa que atravessou diferentes governos em uma obra concreta. Para o PT baiano, portanto, entregar a ponte dentro do cronograma passou a ter importância que ultrapassa a engenharia: tornou-se também uma demonstração de capacidade administrativa.
A oposição, por sua vez, tem explorado justamente o histórico de atrasos e renegociações.
O pré-candidato ao governo ACM Neto afirmou recentemente que, caso seja eleito, pretende criar uma equipe técnica para analisar a situação da ponte e convocar a concessionária para prestar esclarecimentos sobre aspectos técnicos, jurídicos e econômico-financeiros do projeto.
A disputa revela uma realidade política inevitável: quanto mais dinheiro público, tempo e expectativa popular estiverem envolvidos, maior será a cobrança sobre quem estiver no comando da Bahia quando a obra chegar à fase final.
O verdadeiro desafio começa agora
A inauguração está prevista para junho de 2031. Até lá, porém, o projeto ainda precisará superar uma série de desafios de engenharia, ambientais e de execução.
Reportagens recentes apontaram, por exemplo, que o projeto executivo está sendo desenvolvido por etapas e que a construção enfrenta condições complexas no fundo da Baía de Todos-os-Santos, com profundidades que podem chegar a 60 metros e diferentes características do solo marinho.
O Governo da Bahia afirma que os processos ambientais e de engenharia estão sendo conduzidos dentro do cronograma estabelecido após a renegociação.
O TCE-BA, entretanto, deixou claro que continuará acompanhando o empreendimento devido à sua relevância estratégica e ao potencial impacto sobre as finanças públicas.
Esse talvez seja o ponto mais importante para o cidadão: a discussão deixou de ser apenas se a ponte será construída. Agora, a pergunta é se ela será entregue no prazo, dentro dos parâmetros técnicos e financeiros estabelecidos.
Uma obra que pode redesenhar a Bahia
Se concluída conforme planejado, a Ponte Salvador–Itaparica poderá alterar profundamente a ligação entre a capital, o Recôncavo, o Baixo Sul e outras regiões baianas.
O próprio Governo do Estado classifica o empreendimento como estratégico para mobilidade, logística, turismo e desenvolvimento econômico, com impacto estimado sobre mais de 250 municípios.
Mas a dimensão da promessa aumenta também a dimensão da responsabilidade.
Depois de anos de anúncios, mudanças de cronograma e uma renegociação contratual acompanhada pelo Tribunal de Contas, 2026 representa o momento em que o projeto precisa provar, na prática, que finalmente deixou para trás a fase das promessas.
Para o PT e para o governo Jerônimo Rodrigues, a ponte pode se transformar em uma das maiores marcas administrativas da atual gestão — ou em uma nova fonte de desgaste político caso os prazos, custos e etapas da execução voltem a sofrer alterações.
A obra está em marcha.
Agora, o relógio corre.
E, desta vez, a Bahia estará de olho em cada etapa dos 12,4 quilômetros que prometem mudar a geografia econômica do estado.
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