Acordo com a Serra Verde coloca a mina Pela Ema, em Minaçu, no centro da disputa global por minerais estratégicos e da tentativa americana de reduzir a dependência da China
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira (24) um investimento de US$ 750 milhões para garantir o fornecimento de terras raras produzidas pela Serra Verde, em Goiás. A iniciativa coloca uma das principais operações brasileiras de minerais estratégicos no centro da disputa internacional pela segurança das cadeias de suprimentos utilizadas pela indústria tecnológica, aeroespacial e de defesa.
O anúncio foi feito pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos, por meio da Economic Defense Unit, em parceria com o escritório responsável pela política da base industrial de defesa. Os recursos serão destinados à estrutura financeira responsável por viabilizar um acordo de fornecimento (offtake) dos carbonatos mistos de terras raras produzidos no projeto Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás.
O investimento de US$ 750 milhões integra uma estrutura financeira mais ampla de US$ 1,55 bilhão. Além do aporte do governo americano, o modelo prevê uma linha de crédito de até US$ 500 milhões de uma instituição financeira e um compromisso do governo dos Estados Unidos de adquirir pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras ao longo de cinco anos.
Minerais estratégicos para a indústria militar
A importância do acordo está nos elementos produzidos pela Serra Verde. A operação de Goiás é capaz de fornecer, em escala comercial, quatro terras raras consideradas fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Esses materiais são utilizados em tecnologias que dependem de alta capacidade magnética e estabilidade térmica. Segundo o próprio Departamento de Guerra americano, os ímãs de neodímio-ferro-boro são empregados em componentes de sistemas militares avançados, incluindo caças, submarinos nucleares, satélites, mísseis guiados, navios de combate e drones.
O F-35 Lightning II também está inserido nessa cadeia tecnológica. Informações divulgadas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos indicam que o sistema de armas do caça emprega uma quantidade significativa de ímãs permanentes de terras raras.
Por isso, a operação em Goiás ganhou importância que vai muito além do mercado de mineração. Para Washington, garantir o acesso a esses minerais significa reduzir riscos para a própria indústria de defesa.
Goiás ganha importância na disputa contra a China
O movimento americano também está diretamente relacionado à dependência mundial da China no setor de terras raras.
O governo de Goiás informa que a Serra Verde é atualmente a única operação de extração comercial em larga escala de terras raras em funcionamento no Brasil, com produção de até 5 mil toneladas anuais dos óxidos de disprósio, térbio, neodímio e praseodímio.
A relevância estratégica da mina está justamente na combinação desses quatro elementos.
Segundo o governo goiano, a matéria-prima produzida atualmente em Minaçu é enviada para a China para processamento. A intenção declarada pelas autoridades estaduais é mudar esse cenário e fazer com que etapas de maior valor agregado, como separação, metalização, produção de ligas e fabricação de ímãs permanentes, também sejam realizadas em Goiás.
O próprio Estado já firmou, em março de 2026, um acordo de cooperação com os Estados Unidos voltado ao desenvolvimento de pesquisa, capacitação e processamento de minerais críticos e terras raras em território goiano.
Operação americana ainda não significa conclusão da aquisição
Outro ponto que merece atenção é que a USA Rare Earth anunciou em abril um acordo para adquirir 100% da Serra Verde por aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A transação, porém, ainda depende da conclusão das condições previstas no negócio. A empresa informou que espera concluir a operação após a reunião extraordinária de acionistas marcada para 28 de agosto de 2026.
Com a conclusão, a USA Rare Earth deverá assumir o controle da mina Pela Ema e integrar a operação brasileira a uma cadeia internacional que pretende abranger mineração, processamento, separação, produção de metais e fabricação de ímãs.
A própria empresa afirma que a aquisição permitirá controlar uma cadeia de fornecimento de terras raras entre Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.
O que está em jogo para o Brasil
O episódio evidencia uma oportunidade econômica relevante, mas também levanta uma questão estratégica para o Brasil: exportar apenas o minério ou desenvolver uma cadeia industrial capaz de capturar uma parcela maior do valor produzido?
Goiás possui uma posição privilegiada nesse mercado. O Ministério de Minas e Energia estima investimentos de aproximadamente R$ 4,6 bilhões em projetos de terras raras no estado, com previsão de geração de cerca de 500 empregos.
O desafio, portanto, não está apenas em aumentar a extração. Está em impedir que o Brasil permaneça restrito à condição de fornecedor de matéria-prima enquanto países estrangeiros concentram as etapas mais sofisticadas e lucrativas da cadeia.
Para os Estados Unidos, as terras raras de Goiás representam uma alternativa estratégica à dependência chinesa. Para o Brasil, representam a possibilidade de transformar uma riqueza mineral em tecnologia, indústria, empregos qualificados e soberania econômica.
A disputa pelas terras raras de Goiás mostra que o subsolo brasileiro passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante na geopolítica mundial — e que a verdadeira disputa não será apenas por quem extrai o minério, mas por quem dominará a tecnologia e a indústria construída a partir dele.
Portal Vilela 24hs — Informação com responsabilidade, contexto e apuração.
Fontes: Departamento de Guerra dos Estados Unidos; USA Rare Earth; Governo de Goiás; Ministério de Minas e Energia; Forças Armadas dos Estados Unidos.
