Ministério Público de São Paulo aponta possível participação de Marcos Roberto Cebola e Silva na estruturação da entidade; investigação relaciona organização a um suposto “Setor de Reivindicações” da facção
O advogado Marcos Roberto Cebola e Silva, que ganhou notoriedade nacional ao defender publicamente a influenciadora e advogada Deolane Bezerra nas redes sociais, está no radar do Ministério Público de São Paulo por sua suposta ligação com a ONG Pacto Social & Carcerário, entidade investigada por possível atuação em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC).
A informação ganhou repercussão nesta segunda-feira (24) a partir de novos detalhes da investigação conduzida pelo Ministério Público paulista. Segundo o MPSP, Cebola teria participado da estruturação da entidade e aparece em elementos reunidos durante a investigação que apura a atuação da ONG.
A apuração, contudo, não significa que o advogado tenha sido condenado por integrar o PCC. O que existe é uma investigação sobre sua relação com uma organização que, segundo o Ministério Público e decisões judiciais relacionadas ao caso, teria sido utilizada para atender interesses da facção criminosa.
ONG entrou no radar do Ministério Público
A Pacto Social & Carcerário foi criada com o objetivo declarado de atuar em defesa de presos e pessoas egressas do sistema penitenciário.
A entidade, entretanto, tornou-se alvo da Operação Scream Fake, deflagrada em janeiro de 2025 pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo.
Segundo as investigações, a ONG teria funcionado como uma estrutura utilizada pelo PCC para desenvolver ações relacionadas ao sistema prisional. O Ministério Público identificou aquilo que chamou de “Setor de Reivindicações”, que teria utilizado ações judiciais, manifestações e denúncias de supostas violações de direitos para atender interesses da organização criminosa.
A investigação teve origem em materiais encontrados após a apreensão de cartões de memória e manuscritos relacionados à atuação de integrantes da facção dentro do sistema penitenciário.
Advogado aparece em elementos da investigação
De acordo com informações divulgadas nesta segunda-feira, documentos, depoimentos e uma fotografia analisada durante o processo são apontados como elementos que reforçam a linha investigativa sobre a proximidade de Cebola com a ONG.
Uma fonte policial citada na apuração jornalística aponta o advogado como possível articulador da entidade.
O próprio advogado teria reconhecido sua presença em uma fotografia de uma reunião analisada pelos investigadores. A existência dessa fotografia, porém, não constitui isoladamente prova de participação em organização criminosa.
A investigação busca estabelecer qual teria sido efetivamente o papel de Cebola na estrutura da ONG e se sua atuação ultrapassou a atividade profissional de advocacia.
Dirigentes da ONG foram condenados
O caso ganhou um capítulo importante em maio de 2026.
A Justiça de São Paulo condenou Luciene Neves Ferreira, presidente da Pacto Social & Carcerário, e Geraldo Sales da Costa, vice-presidente da entidade e marido de Luciene, por associação criminosa.
Na mesma sentença, o advogado Renan Bortoletto, que atuava para a ONG, também foi condenado.
Segundo o Ministério Público, a entidade teria prestado serviços aos interesses do PCC e mantido comunicação com integrantes da organização criminosa. A investigação apontou ainda a existência de diferentes núcleos de atuação da facção, incluindo áreas relacionadas a advogados, saúde, finanças e reivindicações.
Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo também registra a conclusão apresentada pelo Ministério Público de que Luciene e Geraldo seriam os principais articuladores da ONG e que a entidade teria sido utilizada pela facção para encobrir determinadas ações sob a justificativa de defesa dos direitos dos presos.
O que isso tem a ver com Deolane?
A relação que chama atenção no episódio é justamente a atuação de Cebola na defesa pública de Deolane Bezerra.
O advogado ganhou visibilidade ao questionar, nas redes sociais, aspectos da investigação que levou à prisão da influenciadora durante a Operação Vérnix, que apura suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC.
A própria Operação Vérnix levou Deolane à prisão em maio de 2026. Em junho, a Justiça recebeu a denúncia do Ministério Público e tornou Deolane e outros investigados réus por organização criminosa e lavagem de dinheiro.
O Ministério Público sustenta que Deolane teria desempenhado papel relevante na movimentação e ocultação de recursos atribuídos à organização criminosa. A defesa nega as acusações.
É fundamental, entretanto, não misturar os dois episódios: a investigação envolvendo Cebola e a ONG Pacto Social & Carcerário é um caso distinto da ação penal contra Deolane.
Até o momento, a existência de uma relação profissional ou pública entre a influenciadora e o advogado não demonstra, por si só, qualquer participação de Deolane nos fatos atribuídos à ONG.
Operação Scream Fake
A investigação contra a ONG começou a partir de elementos encontrados no sistema penitenciário paulista.
A Polícia Civil e o Ministério Público identificaram uma estrutura que, segundo a investigação, teria utilizado a entidade para desenvolver ações de interesse do PCC.
A operação recebeu o nome de Scream Fake, em referência à suspeita de utilização da ONG para disseminação de acusações consideradas falsas contra agentes públicos e autoridades do sistema penitenciário.
Em janeiro de 2025, foram cumpridos mandados de prisão e de busca e apreensão em diferentes cidades de São Paulo e também no Paraná. Entre os alvos estavam dirigentes da ONG e advogados. As atividades da entidade foram suspensas por determinação judicial.
Um ponto que merece atenção
O caso expõe uma questão particularmente delicada: a fronteira entre a legítima atuação da advocacia e a eventual utilização de estruturas jurídicas para favorecer organizações criminosas.
O exercício da advocacia é protegido pela Constituição e pelo Estatuto da Advocacia. Advogar para uma pessoa investigada ou acusada de crime, portanto, não constitui irregularidade.
O problema jurídico surge quando, segundo a acusação, o profissional deixa de exercer exclusivamente a defesa técnica e passa a colaborar conscientemente com atividades criminosas.
É justamente essa distinção que precisa ser observada no caso de Cebola.
A investigação deverá esclarecer se sua relação com a Pacto Social & Carcerário foi exclusivamente profissional ou se teria existido participação consciente na estrutura atribuída ao PCC.
Defesa e presunção de inocência
O Portal Vilela 24hs ressalta que investigação não equivale a condenação.
Marcos Roberto Cebola e Silva não deve ser apresentado como integrante do PCC sem uma decisão judicial que estabeleça essa condição.
As informações divulgadas nesta reportagem correspondem às acusações, elementos investigativos e decisões judiciais disponíveis até o momento.
O caso permanece sob análise das autoridades competentes, e eventuais responsabilidades individuais deverão ser definidas pelo Poder Judiciário, com observância do contraditório e da ampla defesa.
O Portal Vilela 24hs continuará acompanhando os desdobramentos da investigação.
