O avanço do fenômeno El Niño começa a colocar o mercado agrícola brasileiro em estado de atenção. Com previsão de fortalecimento durante os próximos meses, o fenômeno climático pode aumentar os riscos para culturas importantes e contribuir para a pressão sobre os preços de commodities como café, cacau e açúcar.
O alerta ganhou força diante das previsões mais recentes do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), que acompanha a evolução do fenômeno em conjunto com centros meteorológicos internacionais. Segundo a atualização divulgada em agosto, a NOAA estima probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos próximos trimestres. Há ainda 69% de probabilidade de que o episódio esteja entre os mais intensos registrados desde 1950.
O INMET estima que o fenômeno possa persistir até pelo menos março de 2027, elevando a preocupação com o comportamento do clima durante períodos decisivos para diferentes culturas agrícolas.
CLIMA PODE AFETAR DIFERENTES REGIÕES DE FORMAS OPOSTAS
O impacto do El Niño não será uniforme em todo o território brasileiro.
Historicamente, o fenômeno está associado à redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens, menor umidade do solo e problemas relacionados à disponibilidade de água.
Na Região Sul, o comportamento costuma ser inverso, com maior probabilidade de chuvas acima da média e ocorrência de episódios de chuva intensa.
O próprio INMET ressalta, entretanto, que a intensidade do fenômeno não determina automaticamente a intensidade dos impactos em cada localidade. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem no comportamento do clima brasileiro.
CAFÉ ENTRA NO CENTRO DAS PREOCUPAÇÕES
Entre as culturas mais observadas está o café. A produção brasileira depende de condições climáticas adequadas durante diferentes fases do ciclo da planta, e períodos de calor excessivo, estiagem ou chuvas fora de época podem prejudicar a florada e o desenvolvimento dos frutos.
Análises recentes do mercado já apontam preocupação com os efeitos do El Niño sobre a safra brasileira 2026/27, especialmente em regiões produtoras do Sudeste. O risco é ainda maior diante de um cenário internacional de estoques relativamente apertados.
Isso não significa, contudo, que o consumidor verá necessariamente uma alta imediata provocada exclusivamente pelo fenômeno. A formação do preço do café depende também da oferta mundial, estoques, consumo, câmbio e condições das demais regiões produtoras.
CACAU TAMBÉM ESTÁ NO RADAR
O cacau é outro produto que merece atenção.
As cotações internacionais já vêm reagindo às expectativas relacionadas ao clima e às condições de oferta. Análises recentes apontam valorização significativa do cacau desde o início de 2026, em um mercado que acompanha de perto os riscos climáticos nas principais regiões produtoras mundiais.
Para o Brasil, o cenário merece atenção especial porque o sul da Bahia continua sendo uma das principais regiões produtoras de cacau do país.
Em um eventual cenário de irregularidade climática prolongada, problemas de produtividade podem repercutir não apenas sobre os produtores, mas também sobre toda a cadeia do chocolate.
AÇÚCAR TAMBÉM PODE SER AFETADO
O açúcar completa o grupo de commodities sob observação.
Alterações no regime de chuvas e temperaturas podem interferir na produtividade da cana-de-açúcar, embora o impacto varie conforme a região produtora e o estágio de desenvolvimento das lavouras.
A combinação entre clima, produção global, estoques e demanda internacional pode provocar movimentos importantes nos preços futuros.
Por isso, especialistas acompanham não apenas o comportamento do Pacífico, mas também as condições das principais regiões produtoras do mundo.
RISCO PARA O AGRO VAI ALÉM DOS PREÇOS
O problema para o produtor não se limita à possibilidade de commodities mais caras.
Um evento climático forte pode provocar redução de produtividade, aumento dos custos de produção, necessidade de replantio, problemas fitossanitários e maior dificuldade de planejamento.
O Cemaden já havia alertado, em nota técnica sobre o El Niño 2026/2027, que os modelos climáticos indicavam possibilidade de um episódio de forte intensidade, embora ressaltasse a existência de incerteza elevada nas previsões de longo prazo.
Essa ressalva continua sendo fundamental: previsão climática de longo prazo trabalha com probabilidades e cenários, não com certezas absolutas.
BRASIL TERÁ DE REFORÇAR A GESTÃO DE RISCO
O cenário climático ocorre justamente quando o Governo Federal apresenta o Plano Safra 2026/2027, que prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, incluindo recursos para custeio, comercialização, investimentos, irrigação, armazenagem, inovação e instrumentos de gestão de risco.
A chegada de um possível El Niño muito forte torna essas ferramentas ainda mais relevantes.
Para o produtor, a questão deixa de ser apenas quanto poderá ganhar com uma eventual valorização das commodities. É preciso considerar também quanto poderá perder caso o clima comprometa a produtividade.
O desafio de 2027, portanto, poderá ser menos uma questão de preço e mais uma questão de gestão de risco climático.
O ALERTA PARA O SUL DA BAHIA
Para a Bahia, o cenário merece atenção especial. O INMET aponta tendência histórica de redução das chuvas em áreas do Nordeste durante episódios de El Niño.
No sul da Bahia, onde o cacau possui enorme importância econômica, qualquer alteração relevante no regime de chuvas deve ser acompanhada de perto pelos produtores.
Ainda não é possível afirmar que o El Niño provocará perdas específicas na cacauicultura baiana em 2027. Mas o risco climático já está colocado e exige planejamento.
O El Niño não determina sozinho o preço do café, do cacau ou do açúcar. Mas, diante da possibilidade de um dos episódios mais fortes das últimas décadas, o clima voltou a ser uma variável que o agronegócio brasileiro não poderá ignorar.
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