Por décadas, Ilhéus foi sinônimo de riqueza.
A terra eternizada por Jorge Amado, palco da era dourada do cacau e referência econômica para todo o Brasil, viu sua história ser construída sobre uma das maiores riquezas agrícolas do país. Houve um tempo em que a região cacaueira movimentava fortunas, gerava empregos e transformava o sul da Bahia em uma potência econômica.
Mas o tempo passou.
A crise da vassoura-de-bruxa atingiu em cheio a principal atividade econômica da região. Fazendas quebraram, famílias perderam patrimônio e a economia local jamais voltou a ter a mesma força de outrora.
Hoje, mais de três décadas depois, uma pergunta permanece sem resposta:
Qual é o verdadeiro projeto econômico de Ilhéus para o futuro?
A cidade continua sendo uma das mais belas do Brasil. Possui praias paradisíacas, patrimônio histórico, relevância cultural, um porto estratégico e está inserida em projetos importantes como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e o Porto Sul.
Mas beleza, por si só, não gera empregos suficientes.
Turismo é importante. Fundamental, inclusive.
Mas uma cidade não pode depender exclusivamente do turismo para sobreviver.
Basta passar a temporada de verão para perceber a realidade. Hotéis lotados, restaurantes movimentados, cabanas cheias e comerciantes comemorando o aumento das vendas.
Entretanto, quando a alta estação termina, o cenário muda drasticamente.
Pousadas ficam vazias.
Restaurantes reduzem equipes.
Comércios diminuem estoques.
Empresários enfrentam dificuldades para manter funcionários.
A economia desacelera.
A verdade é que muitos estabelecimentos sobrevivem durante alguns meses para enfrentar um longo período de baixa movimentação.
Enquanto isso, Itabuna segue crescendo.
Separadas por apenas 30 quilômetros, as duas cidades apresentam realidades econômicas bastante diferentes.
Itabuna tornou-se o principal polo comercial do sul da Bahia.
Quem precisa comprar móveis, eletrodomésticos, máquinas agrícolas, veículos, peças automotivas, equipamentos para pecuária, materiais de construção ou produtos especializados frequentemente acaba atravessando a rodovia em busca de mais opções e melhores preços.
A explicação é simples.
Existe concorrência.
Existe variedade.
Existe oferta.
Existe disputa pelo consumidor.
O cliente consegue pesquisar, comparar e negociar.
Em Ilhéus, muitos consumidores reclamam justamente da falta dessas opções. Em diversos segmentos, poucas empresas dominam o mercado local, reduzindo a concorrência e limitando as alternativas disponíveis.
O resultado é conhecido por todos.
O dinheiro sai de Ilhéus.
O consumo acontece em outra cidade.
Os empregos são gerados em outro município.
A arrecadação cresce em outro lugar.
E a economia local perde força.
Mas existe um desafio ainda maior surgindo no horizonte.
A revolução digital.
Se antes o comércio local disputava clientes com Itabuna, hoje ele concorre com gigantes globais.
Amazon.
Mercado Livre.
Shopee.
AliExpress.
Shein.
Magalu.
Centenas de plataformas oferecem praticamente tudo o que o consumidor procura.
Roupas.
Calçados.
Perfumes.
Eletrônicos.
Medicamentos.
Produtos de higiene.
Peças automotivas.
Ferramentas.
Itens para casa.
Tudo isso com preços competitivos, cupons de desconto, cashback, parcelamentos facilitados e entrega na porta de casa.
Muitas vezes em poucos dias.
O consumidor moderno não precisa mais sair de casa para comprar.
Basta alguns cliques.
E essa mudança de comportamento está transformando profundamente a economia mundial.
O comércio físico deixou de competir apenas com a loja da esquina.
Agora disputa mercado com empresas que operam em escala global.
A pergunta é inevitável:
Como o comércio ilheense pretende sobreviver nesse novo cenário?
A resposta certamente não está em reclamar da internet.
A transformação digital é irreversível.
O desafio é adaptação.
Experiência de compra.
Atendimento diferenciado.
Logística eficiente.
Marketing digital.
Presença online.
Integração entre loja física e virtual.
Esses fatores serão cada vez mais decisivos.
Mas existe outra discussão que precisa ser enfrentada.
A questão industrial.
Ilhéus já recebeu importantes investimentos industriais no passado. Muitas empresas chegaram atraídas por incentivos fiscais e benefícios governamentais.
Entretanto, após o término de alguns programas de incentivo, várias delas encerraram suas atividades ou transferiram operações para outras regiões.
O Polo Industrial do Iguape, que já representou uma esperança de diversificação econômica, hoje está longe de atingir todo o potencial que poderia oferecer.
Sem indústria forte, sem produção local significativa e sem ampliação consistente do setor de serviços, a cidade continua excessivamente dependente do turismo e do setor público.
E isso representa um risco.
Uma economia saudável precisa de equilíbrio.
Precisa gerar emprego durante os doze meses do ano.
Precisa atrair investimentos permanentes.
Precisa criar oportunidades para os jovens.
Precisa incentivar inovação.
Precisa fortalecer o empreendedorismo.
Muito se fala sobre a construção de um shopping center em Ilhéus.
Mas talvez a pergunta anterior seja ainda mais importante:
Existe demanda econômica suficiente para sustentar um grande centro comercial?
Sem geração consistente de renda, sem fortalecimento do setor produtivo e sem expansão da atividade empresarial, corre-se o risco de construir estruturas que enfrentem dificuldades para se manter ao longo do tempo.
O verdadeiro debate talvez não seja apenas sobre construir um shopping.
Mas sobre construir uma economia.
Uma economia capaz de atrair novas indústrias.
Capaz de aproveitar a chegada da FIOL e do Porto Sul.
Capaz de transformar logística em desenvolvimento.
Capaz de converter potencial em realidade.
Ilhéus possui localização privilegiada.
Possui belezas naturais únicas.
Possui tradição histórica.
Possui relevância cultural.
Possui um dos litorais mais belos do país.
O que falta não é potencial.
O que falta é uma estratégia de longo prazo.
O século XXI já começou.
A economia digital avança em velocidade impressionante.
A inteligência artificial está transformando mercados.
O comércio eletrônico cresce ano após ano.
E as cidades que não se adaptarem correm o risco de assistir ao desenvolvimento acontecer apenas pela janela.
Ilhéus merece mais.
Merece voltar a ser protagonista.
Merece gerar empregos de qualidade.
Merece criar oportunidades para seus jovens.
Merece construir uma economia forte, diversificada e preparada para o futuro.
A grande questão é:
Estamos preparados para fazer as mudanças necessárias ou continuaremos apostando todas as fichas apenas na próxima temporada de verão?

OLHAR PÚBLICO
“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges
Gestor Público Aposentado • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator • Consultor Político

