Ilhéus está doente.
A cidade que já figurou entre as mais importantes economias do Brasil durante os tempos áureos do cacau hoje convive com uma realidade cruel, marcada pelo medo, pela violência e pela sensação crescente de abandono. Enquanto cartões-postais continuam estampando campanhas turísticas e discursos oficiais celebram investimentos futuros, a população enfrenta diariamente uma guerra silenciosa que se alastra pelos bairros, pelas periferias e, cada vez mais, pelo centro urbano.
A pergunta que muitos ilheenses fazem é simples: quem realmente controla determinados territórios da cidade?
Em diversas comunidades, a presença do Estado parece insuficiente diante do avanço das facções criminosas. O tráfico deixou de ser apenas um comércio ilegal de drogas para se transformar em uma estrutura paralela de poder. Em alguns locais, criminosos impõem regras, determinam punições e exercem influência sobre a rotina de moradores aterrorizados. O chamado “tribunal do crime” deixou de ser uma expressão distante dos noticiários nacionais para se tornar uma realidade comentada diariamente nos blogs policiais da região.
São julgamentos clandestinos, sem defesa, sem direitos e sem justiça. A sentença quase sempre é a mesma: morte.
Enquanto isso, mulheres continuam sendo vítimas de violência doméstica e feminicídio. Crianças e adolescentes seguem expostos a abusos sexuais que chocam a sociedade. Famílias inteiras vivem cercadas por uma sensação permanente de insegurança.
O mais preocupante é que a violência parece ter sido normalizada.
Quando um homicídio deixa de causar indignação coletiva e passa a ser tratado apenas como mais uma notícia do dia, algo profundamente errado está acontecendo.
A Bahia aparece há anos entre os estados mais violentos do Brasil. Mesmo reconhecendo os esforços de muitos policiais que arriscam suas vidas diariamente, é impossível ignorar que os resultados ainda estão muito aquém do que a população espera. A expansão do crime organizado demonstra que as estratégias adotadas até aqui não têm sido suficientes para conter um problema que cresce em complexidade e ousadia.
A criminalidade evoluiu.
O combate a ela também precisa evoluir.
Cidades que investiram fortemente em videomonitoramento, inteligência artificial, integração de bancos de dados, drones de vigilância, reconhecimento de placas e câmeras corporais apresentaram avanços significativos na prevenção e elucidação de crimes. O Brasil possui exemplos concretos de municípios que reduziram índices de roubos e aumentaram a capacidade de investigação por meio da tecnologia.
Por que Ilhéus ainda não possui uma rede robusta de monitoramento urbano capaz de auxiliar as forças de segurança?
Por que áreas conhecidas pelo alto índice de criminalidade continuam sem cobertura adequada?
Por que a população precisa recorrer a imagens de celulares e câmeras particulares para tentar esclarecer crimes que deveriam estar sendo monitorados pelo poder público?
As perguntas aumentam. As respostas nem sempre aparecem.
Casos de repercussão nacional reforçam essa sensação. O brutal assassinato das três mulheres encontradas mortas em Ilhéus gerou revolta, mobilizou a imprensa brasileira e colocou a cidade sob os holofotes do país. A pressão popular foi enorme. A sociedade exigiu respostas. Mas ainda hoje persistem dúvidas e debates entre moradores sobre diversos aspectos daquele episódio que chocou a região.
A confiança da população não se constrói apenas com prisões. Ela depende de investigações sólidas, transparência e credibilidade institucional.
E o futuro?
Ilhéus está prestes a receber investimentos bilionários ligados ao Porto Sul, à Ferrovia de Integração Oeste-Leste e à expansão logística da região. São projetos capazes de transformar profundamente a economia local.
Mas existe um alerta que não pode ser ignorado.
O progresso sem planejamento também pode ampliar desafios sociais. Novos empreendimentos atraem milhares de pessoas em busca de oportunidades. Quando faltam empregos, habitação e infraestrutura, surgem ocupações irregulares, bolsões de pobreza e ambientes propícios ao recrutamento pelo crime organizado.
Não basta construir portos e ferrovias.
É preciso construir segurança.
É preciso construir oportunidades.
É preciso construir esperança.
Estamos em um período em que novamente se discutem projetos políticos, promessas eleitorais e planos de governo. O cidadão precisa decidir se continuará aceitando discursos prontos ou se passará a cobrar resultados concretos.
A violência não tem partido.
A bala perdida não escolhe ideologia.
O crime organizado não pergunta em quem a vítima votou.
O problema da segurança pública precisa deixar de ser tratado como tema secundário e passar a ocupar o centro do debate nacional.
Ilhéus se aproxima dos seus 500 anos de história.
Uma cidade com tamanha importância cultural, econômica e turística não pode aceitar como destino a convivência permanente com o medo.
O povo ilheense merece mais do que estatísticas.
Merece mais do que promessas.
Merece mais do que discursos.
Merece voltar a viver em uma cidade onde crianças possam brincar nas ruas, comerciantes possam trabalhar sem medo, turistas possam circular com tranquilidade e famílias possam sonhar com um futuro melhor.
A esperança ainda existe.
Mas ela exige coragem para enfrentar a realidade, reconhecer os erros e exigir mudanças antes que a violência se torne a única autoridade respeitada em partes da cidade.
por: Thiago Viana Borges
Sobre o autor:
Thiago Viana Borges é gestor público aposentado, professor formado em Letras Vernáculas e Inglês pela Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC), editor, redator e consultor político. Articulista dedicado aos debates sobre políticas pública, cidadania, desenvolvimento regional e responsabilidade social.

