A Câmara de Vereadores de Ilhéus anunciou que concederá o Título de Cidadão Ilheense a Jorge Amado Neto, neto do escritor Jorge Amado e descendente de uma das famílias mais associadas à identidade cultural da cidade.
Segundo a justificativa apresentada pelo Legislativo Municipal, a homenagem reconhece o vínculo histórico da família Amado com Ilhéus e a atuação de Jorge Amado Neto na preservação do legado de seu avô.
Mas a decisão levanta uma reflexão inevitável.
O que deve pesar mais na concessão de uma das mais importantes honrarias do município?
O legado herdado?
Ou os serviços efetivamente prestados à cidade?
Antes de qualquer coisa, é preciso deixar algo claro.
Não existe Ilhéus sem Jorge Amado.
A cidade foi imortalizada em suas páginas.
Foi apresentada ao Brasil e ao mundo por meio de suas histórias, seus personagens e suas paisagens.
Milhares de turistas visitam Ilhéus todos os anos motivados por uma obra literária construída por um homem que transformou a cidade em patrimônio cultural universal.
Isso é inegável.
Mas a homenagem anunciada não é para Jorge Amado.
É para seu neto.
E é justamente nesse ponto que nasce o debate.
Se a justificativa para a homenagem está na preservação do legado do escritor, cabe uma pergunta que muitos ilheenses certamente gostariam de fazer:
O legado de Jorge Amado está realmente preservado em Ilhéus?
Durante anos, a própria Casa de Jorge Amado enfrentou problemas estruturais, infiltrações e dificuldades de manutenção.
Diversos espaços culturais ligados à memória do escritor passaram por períodos de abandono ou falta de investimentos adequados.
A cidade que serviu de inspiração para algumas das obras mais importantes da literatura brasileira ainda convive com enormes desafios na área cultural.
Talvez o exemplo mais simbólico seja a situação da leitura pública.
Num município eternizado por um dos maiores escritores do século XX, a discussão sobre bibliotecas, incentivo à leitura e formação de novos leitores raramente ocupa o centro do debate político.
E isso deveria nos envergonhar.
Se Jorge Amado transformou livros em pontes para o mundo, por que tantas crianças ilheenses ainda possuem acesso limitado ao universo da leitura?
Por que não existe uma grande mobilização permanente em defesa da literatura local?
Por que não há um grande projeto regional capaz de aproximar jovens da obra daquele que levou o nome de Ilhéus para dezenas de países?
Essas perguntas não são dirigidas apenas à família Amado.
São dirigidas à Prefeitura.
À Câmara.
Ao empresariado.
À sociedade civil.
E também ao homenageado.
Talvez essa homenagem represente uma oportunidade histórica.
Uma oportunidade para transformar simbolismo em compromisso.
Imagine o impacto de Jorge Amado Neto assumir publicamente a defesa da revitalização da biblioteca pública municipal.
Imagine liderar uma campanha permanente de incentivo à leitura.
Imagine mobilizar instituições públicas e privadas para recuperar espaços culturais ligados à memória de Jorge Amado.
Imagine criar um programa literário voltado para crianças e adolescentes da rede pública.
Isso deixaria um legado concreto.
Um legado capaz de dialogar diretamente com a história de seu avô.
Afinal, a maior homenagem que alguém pode receber não é um diploma.
É a capacidade de transformar a realidade de uma comunidade.
Jorge Amado deu a Ilhéus projeção mundial.
Agora surge uma pergunta legítima:
O que os herdeiros desse legado podem devolver à cidade que ajudou a construir essa história?
Talvez a resposta valha mais do que qualquer título honorífico.
OLHAR PÚBLICO
“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges
Gestor Público Aposentado • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator • Consultor Político

