
Em 1989, o Brasil vivia um cenário de crise econômica, inflação sufocante, desgaste político e profunda descrença nas figuras tradicionais do poder. Foi nesse ambiente que surgiu Fernando Collor de Mello: jovem, vindo de um partido pequeno e carregando um discurso duro contra os privilégios da velha política.
Na época, muita gente riu.
Diziam que ele não tinha estrutura, não tinha máquina partidária e não tinha apoio suficiente para chegar tão longe. Mas Collor possuía algo talvez ainda mais poderoso: narrativa.
O famoso discurso contra os “marajás” não era apenas uma proposta administrativa. Era um símbolo. Ele entendeu antes dos outros que o brasileiro não buscava apenas propostas técnicas. Buscava alguém que transmitisse ruptura.
Décadas depois, o Brasil volta a atravessar um período de desgaste institucional, fadiga política e crescente desconfiança nas estruturas tradicionais de poder. Escândalos de corrupção atingem governos, partidos, diferentes ideologias e até setores do próprio Judiciário, aprofundando a sensação de descrédito que domina parte da população.
Nesse cenário, surge uma pergunta inevitável:
estaria nascendo um novo fenômeno político fora das estruturas tradicionais?
Seria Renan Santos apenas mais um influenciador político da internet… ou o reflexo de uma nova geração cansada da polarização e da velha política?
Vale lembrar que Renan Santos não surgiu apenas das redes sociais. Foi um dos fundadores do Movimento Brasil Livre, movimento que ganhou projeção nacional ao liderar manifestações, marchas e mobilizações populares que marcaram uma geração e tiveram papel importante no processo de impeachment de Dilma Rousseff. Anos depois, participou também da construção do Partido Missão.
Talvez a questão mais interessante nem seja apenas se ele pode vencer uma eleição presidencial. Talvez seja entender como certas lideranças conseguem crescer mesmo sem a estrutura tradicional da política brasileira.
Porque outsiders raramente começam sendo levados a sério.
Primeiro são vistos como improváveis.
Depois passam a ser tratados como ameaça.
E, em alguns casos, acabam se tornando fenômenos políticos difíceis de ignorar.
Foi assim com Fernando Collor de Mello.
Foi assim com Jair Bolsonaro.
Foi assim com Javier Milei e Nayib Bukele.
E, em certos momentos, anos depois, também com Enéas Carneiro (in memoriam) um político frequentemente tratado de forma caricata por sua aparência, pelo estilo acelerado de fala e pelo pouco tempo de televisão que possuía. Durante anos, muitos enxergaram apenas a figura folclórica. Com o tempo, porém, parte da população passou a revisitar seus discursos e enxergar ali ideias que consideravam avançadas para sua época.
Talvez porque figuras fora do sistema quase nunca sejam compreendidas imediatamente.
O ponto mais curioso é que o principal eleitorado de Renan Santos hoje parece vir justamente dos mais jovens especialmente daqueles entre 16 e 25 anos.
Uma geração que cresceu assistindo à polarização entre PT e bolsonarismo dominar praticamente todo o debate político nacional.
Filhos de lulistas.
Filhos de bolsonaristas.
Jovens que cresceram ouvindo promessas de mudança vindas de lados opostos, mas que agora começam a demonstrar cansaço com a repetição do mesmo conflito político e de desgaste institucional.
Talvez seja exatamente aí que esteja o fator mais subestimado dessa movimentação.
Porque enquanto parte da velha política ainda conversa com o passado, esse novo público parece olhar para frente. Uma geração que fala sobre tecnologia, produtividade, economia, segurança, influência internacional e que deseja enxergar o Brasil entre as maiores potências do planeta.
Até aqui, Renan Santos foi um dos poucos nomes fora da polarização tradicional a apresentar um plano de governo estruturado, denominado de “Livro Amarelo”, trazendo propostas econômicas, institucionais e pautas consideradas polêmicas, mas organizadas dentro de uma estratégia clara de posicionamento político.
Concordando ou não com suas ideias, existe um ponto impossível de ignorar: há uma parcela crescente da juventude querendo discutir projeto de país, e não apenas reviver disputas políticas do passado.
Isso garante vitória eleitoral?
Não necessariamente.
Mas revela algo importante: existe uma demanda reprimida por renovação política, especialmente entre os mais jovens.
Porque, no fim, movimentos políticos relevantes quase nunca começam gigantes.
Eles começam desacreditados.
Começam sendo tratados como improváveis.
Começam fora das estruturas tradicionais.
Até o momento em que deixam de parecer impossíveis.
Talvez o crescimento de figuras outsiders não seja a causa da crise política brasileira.
Talvez seja apenas a consequência natural de um país cansado:
- da corrupção recorrente;
- das promessas recicladas;
- dos mesmos sobrenomes;
- dos acordos de bastidores;
- e da sensação constante de que nada realmente muda.
No fim, talvez a grande pergunta não seja se o Brasil viverá exatamente um novo “efeito Collor”.
Talvez a pergunta correta seja:
o sistema político brasileiro está percebendo, cedo o suficiente, o tamanho do desgaste que existe hoje na população?
Porque a história mostra que, quando o desgaste popular encontra alguém capaz de transformar insatisfação em narrativa, o improvável pode se tornar competitivo muito mais rápido do que parece.
Por: Thiago Viana Borges