Citar filósofo grego é um dos truques mais antigos de quem pretende encerrar uma discussão sem necessariamente vencê-la.
O nome grande produz aquele segundo de hesitação em que ninguém sabe se está discordando do argumento ou do morto.
Na sessão do Supremo Tribunal Federal de 15 de setembro, Flávio Dino recorreu a Aristóteles pelo menos quatro vezes.
Em determinado momento, depois de um embate com o presidente da Corte, Edson Fachin, Dino explicou a própria ironia dizendo que ela serviria para “descontrair o ambiente” e atribuiu a ideia a Aristóteles.
É justamente aí que começa a parte curiosa.
Porque Aristóteles, na Ética a Nicômaco, não apresenta a ironia simplesmente como uma ferramenta para tornar um ambiente mais descontraído.
Ao tratar da relação entre verdade, exagero e dissimulação, o filósofo distingue a veracidade da eironeia, associada àquele que se apresenta de maneira diferente do que é, e da alazoneia, ligada à jactância, à ostentação e à pretensão.
A ironia aristotélica é muito mais sofisticada.
E muito menos conveniente para uma frase de efeito.
Mas existe uma sutileza ainda maior.
Ironia, em Aristóteles, não é sinônimo de piada.
O filósofo trata também da espirituosidade, da brincadeira e do humor. E faz uma distinção que parece ter sido esquecida no plenário do Supremo.
De um lado, está o homem espirituoso, aquele que sabe brincar de maneira adequada, no momento adequado e sem transformar a graça em excesso.
Do outro, está o bufão.
E o bufão é justamente aquele que transforma a necessidade de fazer rir em um comportamento excessivo.
Ele não sabe parar.
Não porque Aristóteles fosse contra o humor.
Muito pelo contrário.
O problema, para o filósofo, está no excesso.
E essa distinção é importante porque coloca ironia, humor, espirituosidade e deboche em lugares diferentes.
Colocar tudo no mesmo saco — ironia, humor e descontração — é justamente simplificar aquilo que Aristóteles fazia questão de distinguir.
Talvez por isso a cena do Supremo tenha produzido uma ironia involuntária.
Fachin havia chamado a atenção de Dino porque o ministro tentara intervir diretamente na fala de outro colega.
Dino sustentava que o Regimento permitia o aparte por quem estivesse com a palavra.
O próprio desenrolar da sessão mostrou que a questão era mais complexa do que a primeira reprimenda presidencial sugeria.
Mais tarde, porém, Dino voltou ao assunto.
Só que voltou de maneira deliberadamente irônica.
Dirigindo-se a Fachin, pediu autorização para que outro ministro lhe concedesse o aparte.
Fachin percebeu a provocação.
Dino confirmou que era ironia.
E então veio Aristóteles.
Não foi exatamente um pedido de palavra.
Foi uma maneira sofisticada de dizer ao presidente da Corte:
“Eu avisei que estava certo.”
Tudo perfeitamente legítimo como recurso retórico.
O problema começa quando a retórica passa a ser utilizada como substituta da própria substância.
E aqui Aristóteles volta à cena.
Desta vez, sem precisar ser convocado.
Para Aristóteles, virtude não era aquilo que um homem dizia possuir.
Era aquilo que se tornava hábito.
O caráter se revelava pela repetição dos atos.
A filosofia aristotélica tinha, portanto, uma desconfiança bastante saudável da distância entre aquilo que alguém proclama e aquilo que efetivamente faz.
É uma régua interessante para qualquer pessoa que ocupe uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.
Ainda mais numa sessão como aquela.
O plenário discutia uma questão de ordem relacionada às Petições 16.662 e 16.704, no contexto do caso Banco Master.
O mérito das petições sequer chegou a ser analisado.
A discussão foi suspensa depois do pedido de vista de Dino.
E era justamente por isso que a liturgia importava.
Quando uma Suprema Corte discute a possibilidade de investigação envolvendo um de seus próprios integrantes, cada gesto ganha dimensão institucional.
Cada provocação deixa de ser apenas uma provocação.
Cada ironia passa a ser observada não como conversa de corredor, mas como manifestação de quem exerce uma parcela extraordinária do poder do Estado.
É possível fazer humor.
É possível fazer ironia.
É possível até provocar o presidente da sessão.
Mas existe uma diferença entre espontaneidade e deboche.
Entre ironia e escárnio.
Entre espirituosidade e comportamento de bufão.
E existe, sobretudo, uma diferença entre autoridade intelectual e autoridade emprestada.
Dino não apenas citou Aristóteles.
Ele colocou o filósofo como testemunha da própria performance retórica.
E isso é diferente.
Uma coisa é recorrer a um autor para iluminar uma ideia.
Outra é usar a autoridade de um autor para conferir uma espécie de verniz intelectual àquilo que acabou de ser dito.
O filósofo, nesse caso, deixa de ser argumento.
Vira cenário.
E talvez seja essa a maior ironia daquela sessão.
Aristóteles foi chamado ao plenário para explicar uma piada.
Mas, se estivesse sentado entre os ministros, talvez tivesse mais interesse em observar o comportamento de quem fazia a piada do que a própria piada.
Porque, para Aristóteles, o caráter aparece nos hábitos.
Na maneira como alguém age.
Na maneira como reage.
Na maneira como lida com o contraditório.
Na maneira como utiliza aquilo que lhe foi confiado.
E isso vale especialmente para quem exerce poder.
Não é preciso que um ministro do Supremo seja solene o tempo inteiro.
Não precisa.
Tribunal não é mosteiro.
Ministro não é monge.
Humor faz parte da vida humana.
A ironia também.
Mas até a liberdade de brincar pressupõe uma medida.
E essa palavra — medida — talvez seja uma das mais importantes para compreender Aristóteles.
O excesso também revela.
E, para Aristóteles, tanto o excesso quanto a deficiência podem afastar o homem da virtude.
É aí que aparece o bufão.
O problema do bufão não é fazer rir.
É não saber quando parar.
É transformar o humor em finalidade.
É fazer da graça uma espécie de identidade.
É quando a pessoa já não utiliza a piada.
É a piada que passa a utilizar a pessoa.
E talvez essa seja uma distinção mais útil para compreender a cena do Supremo do que a simples explicação de que a ironia servia para “descontrair o ambiente”.
Porque o ambiente talvez nem precisasse ser descontraído.
O que estava em discussão era uma questão institucional.
E quando o poder institucional é extraordinário, a forma também comunica.
Um aparte comunica.
Uma interrupção comunica.
Uma provocação comunica.
Uma ironia comunica.
E até uma citação filosófica comunica.
Por isso, citar Aristóteles não transforma automaticamente uma fala em aristotélica.
Do mesmo modo que citar a Constituição não transforma automaticamente uma decisão em constitucional.
O texto citado precisa conversar com aquilo que se está fazendo.
E é justamente aí que mora a ironia mais sofisticada dessa história.
Talvez Dino tenha lido Aristóteles.
Talvez tenha lido muito.
O problema é que uma sessão pública não permite examinar a biblioteca de ninguém.
Permite examinar o que cada um faz quando recebe a palavra.
Quando é contrariado.
Quando discorda.
Quando provoca.
E, principalmente, quando possui poder suficiente para fazer prevalecer a própria vontade.
Aí a filosofia deixa de ser citação.
E passa a ser critério.
Aristóteles ensinou que o homem não é definido apenas pelo que afirma ser.
É definido também pelo que pratica reiteradamente.
A virtude se constrói no hábito.
O caráter aparece nos atos.
Quem cita a régua e depois a entorta diante de milhões de espectadores deveria, ao menos, explicar por que a régua ficou torta.
Não porque ministros do Supremo devam abandonar o humor.
Mas porque existe uma diferença entre ser espirituoso e ser um bufão.
Entre fazer uma ironia e transformar a ironia em escudo.
Entre utilizar a inteligência para iluminar um argumento e utilizar a inteligência para vencer uma discussão.
E existe, sobretudo, uma diferença entre citar Aristóteles e pensar aristotelicamente.
A primeira coisa exige memória.
A segunda exige coerência.
Por isso, a recomendação final talvez seja menos uma provocação a Flávio Dino do que uma regra de prudência para qualquer homem público:
antes de citar o filósofo, leia o filósofo.
E, depois de lê-lo, talvez seja prudente prestar atenção à parte mais incômoda da obra.
Porque Aristóteles não estava particularmente interessado naquilo que os homens diziam ser.
Estava interessado naquilo que eles se tornavam por aquilo que repetidamente faziam.
No fim, talvez a pergunta não seja se Flávio Dino nunca leu Aristóteles.
É possível que tenha lido.
A pergunta mais interessante é outra:
Aristóteles chegou ao plenário junto com ele?
Porque citar o filósofo é fácil.
Pensar como o filósofo exige outra coisa.
Exige medida.
Exige hábito.
Exige caráter.
E, principalmente, exige coerência.
O morto não pode se defender.
Mas deixou a obra.
E, às vezes, basta abrir o livro.
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