OLHAR PÚBLICO
Apesar da experiência acumulada e da longa trajetória política, Lula chega a uma eventual reeleição enfraquecido. Não pelo peso da idade, mas pelo desgaste provocado pelos anos de governo, pelos fracassos acumulados, pelas promessas não cumpridas e por uma realidade econômica que já não pode ser escondida: o Brasil está profundamente endividado, pressionado por juros elevados, baixa capacidade de investimento e uma população cansada de pagar mais impostos sem receber serviços públicos compatíveis.
O país que Lula pretende governar novamente não é o mesmo de seus primeiros mandatos. A sociedade mudou, o eleitorado se tornou mais exigente e a polarização deixou de ser suficiente para sustentar qualquer projeto político. O lulismo ainda conserva uma base expressiva, especialmente no Nordeste, mas perdeu força em regiões estratégicas e já não consegue se apresentar como uma alternativa naturalmente majoritária.
O primeiro turno das eleições de 2026 confirmou essa transformação. Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, contra 53.876.617 votos de Luiz Inácio Lula da Silva, ou 45,16%. A diferença foi de 2.227.651 votos, uma vantagem concreta, embora insuficiente para definir o resultado. O segundo turno existe porque o país continua dividido e porque 1,87 ponto percentual ainda pode ser revertido.
Os números presidenciais, porém, revelam apenas parte do movimento. Flávio foi o mais votado em 14 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula venceu em 12. A direita consolidou sua força no Sul, no Centro-Oeste e em parcelas importantes do Sudeste e do Norte. O Nordeste permaneceu como principal reduto lulista, mas já não é suficiente para garantir, sozinho, a vitória nacional.
São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram decisivos para a vantagem bolsonarista. Flávio também venceu em 2.906 municípios, contra 2.663 de Lula, e conquistou 714 cidades que haviam dado maioria ao petista em 2022. O dado demonstra mais do que a preservação do voto bolsonarista: revela expansão territorial e consolidação de uma direita com presença nacional.
A esquerda precisa abandonar a tentativa de interpretar o Brasil de 2026 com a geografia política de 2002, 2006 ou 2018. O país mudou. A direita deixou de ser apenas uma reação ao PT ou a Jair Bolsonaro. Ocupou espaços no Congresso, formou lideranças estaduais, ampliou sua presença institucional e criou uma identidade eleitoral que já não depende exclusivamente do ex-presidente.
O PL elegeu 121 deputados federais e se tornou a maior bancada da Câmara, enquanto a federação PT-PCdoB-PV ficou com 88 parlamentares. No Senado, o PL conquistou 19 das 54 vagas em disputa e chegará a 2027 com 28 senadores. Nos governos estaduais, elegeu cinco governadores no primeiro turno — Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima. O PT venceu na Bahia, no Ceará e no Piauí. O Republicanos conquistou São Paulo e Minas Gerais.
Esse resultado não representa uma hegemonia absoluta da direita. Lula ainda reúne mais de 53 milhões de votos, venceu todo o Nordeste, além de Pará e Amazonas, e mantém uma estrutura nacional que nenhuma outra liderança de esquerda construiu nas últimas décadas. O PT continua relevante, mas encolheu. O lulismo permanece competitivo, embora já não pareça majoritário fora de seu cinturão tradicional.
A diferença entre direita eleitoral e bolsonarismo também precisa ser reconhecida. O eleitor não escolheu apenas o PL. Republicanos, PSD, PP, União e outras legendas de centro-direita também foram fortalecidos. Isso indica a existência de uma direita institucionalizada, presente em praticamente todos os níveis de poder e capaz de sobreviver independentemente da família Bolsonaro.
Agora começa a eleição decisiva.
No primeiro turno, Lula e Flávio não se enfrentaram em debate televisivo. No segundo, terão de apresentar respostas concretas sobre economia, segurança, corrupção, Previdência, saúde, emprego, responsabilidade fiscal, Supremo Tribunal Federal, relações internacionais e o papel do Brasil diante das grandes potências. Band e Record programaram debates para 11 de outubro, e a Globo marcou o seu para 23 de outubro, dois dias antes da votação.
Flávio chega com a vantagem dos números, mas também terá de explicar sua relação com Daniel Vorcaro e o caso Banco Master. A imprensa informou que o senador solicitou recursos ao banqueiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro e que parte expressiva do valor teria sido paga. Flávio nega irregularidades e afirma tratar-se de uma relação privada. A questão política é objetiva: quem exige rigor contra adversários precisa aceitar o mesmo rigor quando as perguntas chegam à própria porta.
O governo Lula enfrenta cobrança semelhante no caso dos descontos indevidos no INSS. Não basta afirmar que a fraude foi descoberta e investigada. A sociedade precisa saber como o esquema prosperou, quem falhou na fiscalização, quem se beneficiou e por que os controles permitiram que aposentados fossem lesados. A Polícia Federal indiciou dezenas de pessoas, e auditorias da CGU identificaram falhas graves, inclusive em contratos de crédito consignado. O governo pode reivindicar o mérito das investigações, mas ainda precisa explicar por que o Estado não impediu o golpe.
A oposição, por sua vez, não pode transformar o INSS em argumento absoluto contra Lula e tratar qualquer questionamento sobre Vorcaro como perseguição. A regra deve ser a mesma para todos: se há corrupção, investigue-se; se há crime, puna-se; se há apenas uma relação privada legítima, explique-se. A democracia perde credibilidade quando investigação é considerada prova contra o adversário e perseguição quando alcança um aliado.
O próximo presidente governará sob tensão permanente entre Executivo, Congresso, Supremo Tribunal Federal, Ministério Público, órgãos de controle e grupos organizados nas redes sociais. A confiança pública dependerá de transparência, investigação independente e respeito às instituições.
Há ainda uma decisão de enorme impacto: o próximo presidente poderá nomear quatro ministros do Supremo Tribunal Federal ao longo do mandato. A eleição influenciará não apenas a economia e as políticas sociais, mas também a composição da Corte e temas como liberdade de expressão, segurança pública, direitos fundamentais, processos políticos e equilíbrio entre os Poderes. Os candidatos precisam dizer quais critérios pretendem adotar nessas escolhas.
O comportamento dos mercados após o primeiro turno também merece atenção. A Bolsa subiu, e setores ligados à infraestrutura, bancos e estatais reagiram positivamente. A Faria Lima parece ter identificado um candidato preferencial ou uma perspectiva de governo mais favorável aos seus interesses. Mas a alta da Bolsa não significa aprovação popular nem prosperidade garantida. O mercado reage a expectativas, juros, câmbio, risco fiscal e reformas. O próximo presidente terá de transformar euforia financeira em crescimento, emprego, investimento produtivo e melhoria concreta da vida cotidiana.
A questão central, entretanto, vai além dos nomes de Lula e Flávio: quem apresentará um projeto real de soberania nacional?
Flávio mantém relação política evidente com Donald Trump e com o campo conservador americano. Lula ampliou a aproximação estratégica com a China e o Sul Global. Nenhuma dessas relações é, por si só, crime ou traição. O Brasil precisa negociar com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou e qualquer potência capaz de contribuir para seus interesses. O problema surge quando a política externa deixa de servir ao país e passa a funcionar como extensão da disputa ideológica interna.
Se Flávio pretende uma aproximação privilegiada com Washington, deverá explicar quais interesses brasileiros serão preservados e quais serão os limites dessa parceria. Se Lula deseja aprofundar a relação com Pequim, terá de apresentar os ganhos econômicos, tecnológicos e estratégicos, além de esclarecer onde termina a cooperação e começa a dependência. Entreguismo não deixa de ser entreguismo apenas porque muda a bandeira do parceiro comercial.
O debate sobre interferência estrangeira também precisa ser tratado com seriedade. A Abin alertou para riscos de influência americana nas eleições de 2026, e autoridades brasileiras levaram a interlocutores europeus informações sobre suposta interferência americana e russa. Há antecedentes históricos de interferência externa em eleições brasileiras. Mas investigar influência é diferente de afirmar manipulação sem provas. Até o momento, acusações específicas de uma operação da CIA em favor de Flávio não foram acompanhadas de evidências públicas capazes de sustentar essa conclusão.
Se Flávio for eleito, a situação jurídica de Jair Bolsonaro e dos presos relacionados aos atos de 8 de janeiro estará entre os temas mais sensíveis do novo governo. O debate sobre perdão presidencial, indulto e anistia já está posto, mas qualquer medida deverá respeitar a Constituição, as decisões judiciais e o Estado de Direito. Não se pode tratar como fato consumado aquilo que ainda depende de decisões políticas e jurídicas, embora seja impossível ignorar que a anistia se tornou parte central da disputa eleitoral.
O candidato do PL também conta com a movimentação do Centrão, que já calcula as possibilidades e busca saber quem oferecerá mais ministérios, emendas, influência e controle da máquina pública. O PT, pressionado pelo desgaste e pelo risco de derrota, poderá ser levado a negociar para preservar espaços de poder e reduzir o custo político das investigações. Em Brasília, discursos de confronto frequentemente terminam em acordos de bastidores.
Essa lógica não é nova. O país já assistiu a acordos que resultaram na soltura de Lula, na acomodação de interesses e no enfraquecimento de investigações envolvendo diferentes grupos políticos. É preciso separar análise política de acusação criminal: não se pode afirmar crime sem prova, mas é legítimo perguntar por que alguns escândalos avançam enquanto outros desaparecem quando os envolvidos se tornam úteis às alianças de ocasião.
Os votos de Cury, Renan, Caiado e Zema também não pertencem aos candidatos derrotados. Pertencem aos eleitores. Cury e Renan não declararam apoio; o PSD liberou suas bases; Zema declarou voto em Flávio; Caiado anunciou que deverá fazer o mesmo. Ainda assim, não existe transferência automática de votos. Uma recomendação de liderança pode influenciar, mas não controla a urna.
O eleitorado também puniu antigas lideranças, ex-ministros, aliados históricos e nomes que pareciam ter lugar garantido no Congresso. A mensagem é clara: cargo anterior, notoriedade e proximidade com o poder já não asseguram sobrevivência eleitoral.
Há, portanto, uma eleição dentro da eleição. Flávio precisa provar que sua vantagem é maior do que a rejeição ao PT. Lula precisa demonstrar que sua força supera a nostalgia de seus governos e que ainda possui um projeto capaz de enfrentar o endividamento, o baixo crescimento e a perda de confiança da população.
Lula chega enfraquecido porque sua experiência já não basta para compensar o desgaste acumulado. O país está mais endividado, mais desconfiado e menos disposto a aceitar promessas sem resultados. A idade não é o problema central. O problema é a distância entre o discurso de reconstrução e a realidade de um Estado caro, endividado e incapaz de entregar serviços públicos à altura da carga tributária que impõe.
Flávio, por sua vez, terá de convencer o centro de que não será apenas a continuidade do bolsonarismo familiar. Precisará demonstrar capacidade de governar além da guerra cultural, apresentar uma agenda econômica viável e explicar como pretende reduzir a dívida, recuperar investimentos e pacificar as instituições.
O primeiro turno não elegeu Flávio Bolsonaro, mas produziu uma vantagem política expressiva. A direita ganhou território, Congresso, governos estaduais e influência. A esquerda preservou um núcleo poderoso, mas perdeu espaço em regiões e municípios antes menos permeáveis ao bolsonarismo. O Brasil que emerge das urnas é mais conservador, fragmentado e menos disposto a entregar cheque em branco a qualquer campo.
Agora, os candidatos terão de responder sobre Banco Master, Vorcaro, INSS, corrupção, economia, segurança, STF, China, Estados Unidos, soberania, dívida pública, saúde, emprego, anistia e instituições. O eleitor não precisa escolher entre caricaturas produzidas pelas redes sociais, mas entre dois projetos de poder.
A pergunta é simples e inevitável: quem está preparado para governar o Brasil real — e não apenas o país imaginado por sua militância?
O segundo turno não será decidido por quem gritar mais alto, mas por quem conseguir explicar melhor o que fará com o poder que está pedindo.
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Thiago Viana Borges é Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
