Cremeb afirma que médicos relatam até cinco meses de atraso nos pagamentos e sobrecarga nas escalas; Sesab contesta e garante que assistência no maior hospital público da Bahia segue funcionando normalmente
A saúde pública da Bahia enfrenta um novo episódio de tensão. Vinte e cinco cirurgiões-gerais do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), em Salvador, comunicaram ao Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) a decisão de deixar, de forma programada, as escalas da unidade.
Segundo o Cremeb, o grupo afirma estar há cinco meses sem receber pelos serviços prestados. A denúncia foi formalizada em reunião realizada na segunda-feira (17), quando os médicos, representados por sua advogada, procuraram o conselho em busca de apoio institucional.
O caso ganhou dimensão porque o Hospital Geral Roberto Santos é uma das principais referências da rede pública de saúde da Bahia, atendendo pacientes do SUS em procedimentos de média e alta complexidade.
O Cremeb confirmou oficialmente o recebimento da denúncia e informou que encaminhou o caso à Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e ao Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA).
Médicos relatam cinco meses sem pagamento
De acordo com o relato apresentado ao Cremeb, os atrasos nos pagamentos chegaram a cinco meses.
Os profissionais também apontaram problemas relacionados à composição das equipes. Segundo o conselho, houve um desfalque progressivo nas escalas de plantão, provocado pela saída de outros médicos, o que teria aumentado a carga de trabalho dos profissionais que permaneceram na unidade.
Outro ponto apresentado pelos cirurgiões foi a defasagem da remuneração diante da complexidade dos procedimentos realizados no Hospital Roberto Santos.
Para o Cremeb, o problema ultrapassa a questão trabalhista ou financeira, porque uma redução no número de médicos disponíveis pode comprometer a capacidade de atendimento de uma unidade essencial para usuários do SUS.
Cremeb alerta para risco de desassistência
O conselheiro José Abelardo de Meneses, diretor do Departamento de Defesa das Prerrogativas do Médico (DEPMED) do Cremeb, classificou a situação como preocupante.
Segundo o conselho, o aumento da inadimplência de honorários médicos pode atingir não apenas os profissionais, mas também os pacientes que dependem da rede pública.
A entidade afirma que é necessário que gestores e autoridades cumpram as obrigações relacionadas aos serviços já prestados e encontrem uma solução para evitar que o problema resulte em descontinuidade da assistência.
O Cremeb informou ainda que os médicos já haviam procurado a administração do hospital em diferentes oportunidades para tentar solucionar as questões relacionadas aos pagamentos e às escalas, mas, segundo os profissionais, não houve solução efetiva até o momento.
Sesab nega crise e afirma que atendimento está garantido
A versão apresentada pela Secretaria da Saúde do Estado da Bahia é diferente.
Em posicionamento oficial, a Sesab afirmou que não houve solicitação formal de desligamento coletivo de médicos do Hospital Geral Roberto Santos e garantiu que as escalas permanecem organizadas para assegurar a continuidade do atendimento.
A secretaria também declarou que não houve interrupção dos serviços e que a assistência aos pacientes permanece garantida.
Sobre os pagamentos, a Sesab afirma que os valores devidos aos profissionais estão sendo realizados dentro dos prazos estabelecidos nos contratos, contrapondo-se diretamente à informação apresentada ao Cremeb pelos médicos, que relatam cinco meses sem remuneração.
Governo diz que reajuste de 30% já foi concedido
A Sesab também informou que uma das reivindicações dos profissionais — o reajuste dos valores dos plantões — já teria sido atendida.
Segundo a secretaria, houve acréscimo de 30% na remuneração dos plantões.
A pasta afirmou ainda que todos os esclarecimentos referentes ao caso foram encaminhados formalmente ao Cremeb.
Duas versões, um problema que precisa ser esclarecido
O episódio apresenta, portanto, duas versões oficiais que ainda não foram conciliadas.
De um lado, o Cremeb registra formalmente a denúncia de 25 cirurgiões, que relatam cinco meses sem receber, redução das equipes e sobrecarga de trabalho.
De outro, a Sesab nega que exista desligamento coletivo formalizado, afirma que as escalas estão mantidas e garante que os pagamentos estão ocorrendo dentro dos prazos contratuais.
A divergência é relevante porque não se trata apenas de uma discussão entre médicos e administração.
O ponto central é saber se existe ou não risco concreto de redução da capacidade assistencial de um dos principais hospitais públicos da Bahia.
Por isso, o encaminhamento do caso ao Ministério Público ganha importância.
Ministério Público também foi acionado
O Cremeb informou que, após receber a denúncia, encaminhou ofícios ao subsecretário da Saúde da Bahia, Paulo Barbosa, ao superintendente da Superintendência de Atenção Integral à Saúde (SAIS), Karlos Figueredo, e ao Ministério Público da Bahia.
O objetivo é buscar esclarecimentos e providências diante dos relatos apresentados pelos profissionais.
Até o momento, o ponto de maior divergência permanece sendo a situação financeira dos médicos: enquanto o Cremeb registra a informação de cinco meses de inadimplência, a Sesab afirma que os pagamentos estão sendo realizados conforme os contratos.
“Colapso” é uma conclusão que ainda precisa ser comprovada
O episódio é grave e merece acompanhamento, mas há uma diferença importante entre uma crise localizada em uma unidade hospitalar e um colapso de todo o sistema de saúde baiano.
Os fatos confirmados até agora demonstram uma situação de conflito envolvendo 25 cirurgiões, pagamentos, escalas e condições de trabalho no Hospital Roberto Santos.
Ainda não há, nas informações oficiais disponíveis, comprovação de que o sistema estadual de saúde tenha entrado em colapso ou que o Hospital Roberto Santos tenha interrompido suas atividades.
Por outro lado, seria igualmente precipitado minimizar o episódio. Se 25 cirurgiões efetivamente deixarem as escalas e não houver reposição adequada, a consequência poderá ser uma redução da capacidade de atendimento, especialmente em uma unidade que recebe pacientes de diferentes regiões do Estado.
É justamente essa possibilidade que precisa ser esclarecida pelas autoridades.
O que está em jogo
O caso coloca três questões sobre a mesa:
1. Os médicos estão ou não há cinco meses sem receber?
A resposta precisa ser demonstrada documentalmente a partir dos contratos, notas fiscais, medições e comprovantes de pagamento.
2. Existe ou não desligamento programado das escalas?
O Cremeb afirma que recebeu formalmente essa comunicação dos profissionais, enquanto a Sesab diz não ter recebido solicitação formal de desligamento coletivo.
3. As escalas conseguem manter a capacidade atual de atendimento?
Essa é talvez a questão mais importante para o cidadão. Independentemente da disputa administrativa, o usuário do SUS precisa saber se haverá alteração no atendimento.
Uma crise que não pode ser tratada apenas como disputa política
A saúde pública não pode ser transformada em uma disputa de narrativas.
Se os médicos estão sem receber, o Estado precisa explicar por quê e apresentar um cronograma de regularização.
Se os pagamentos estão efetivamente em dia, como afirma a Sesab, é necessário demonstrar documentalmente essa situação e esclarecer a origem da divergência apresentada ao Cremeb.
E, acima de tudo, se existe risco de redução das equipes, a população precisa ser informada sobre quais medidas estão sendo adotadas para impedir prejuízos aos pacientes.
O Hospital Roberto Santos não é apenas mais uma unidade hospitalar. Para milhares de baianos, ele representa a porta de entrada para procedimentos que muitas vezes não estão disponíveis em suas cidades.
Por isso, qualquer ameaça à capacidade de atendimento do HGRS precisa ser tratada com máxima transparência, independentemente de quem esteja certo na disputa administrativa.
Portal Vilela 24hs acompanha o caso
O Portal Vilela 24hs acompanhará os próximos passos do caso, especialmente os esclarecimentos que poderão ser apresentados pela Sesab, pelo Cremeb e pelo Ministério Público da Bahia.
Até aqui, o que está oficialmente documentado é a existência da denúncia apresentada pelos 25 cirurgiões ao Cremeb e a contestação da Sesab quanto à existência de desligamento coletivo e de pagamentos em atraso.
A população baiana merece respostas objetivas — e os pacientes do Hospital Roberto Santos, mais do que qualquer discurso político, precisam ter a garantia de que continuarão sendo atendidos.
