Hui Ka Yan, que chegou a ser o homem mais rico da Ásia, teve todos os bens pessoais confiscados; empresa e subsidiária foram multadas em 15,82 bilhões de yuans
O homem que construiu um dos maiores impérios imobiliários da China terminou sua trajetória empresarial atrás das grades.
Hui Ka Yan, também conhecido como Xu Jiayin, fundador da gigante China Evergrande Group, foi condenado nesta quinta-feira (20) à prisão perpétua por um tribunal de Shenzhen, na China. A sentença também determinou a perda de seus direitos políticos por toda a vida e o confisco de todos os seus bens pessoais.
A decisão é o capítulo mais dramático da queda de um empresário que chegou a ser considerado o homem mais rico da Ásia, com uma fortuna estimada em US$ 45,3 bilhões em 2017.
De bilionário a condenado
Hui fundou a Evergrande em 1996 e comandou uma expansão agressiva baseada em grandes volumes de empréstimos. A companhia cresceu rapidamente até se tornar uma das maiores incorporadoras da China.
O problema veio quando o modelo baseado em dívida começou a ruir.
Entre 2016 e 2021, segundo o tribunal, a Evergrande e empresas ligadas ao grupo praticaram fraudes financeiras em larga escala, incluindo inflação artificial de ativos, ocultação de passivos, captação ilegal de recursos e divulgação irregular de informações. O tribunal também apontou crimes envolvendo corrupção, empréstimos ilegais e utilização indevida de recursos.
Hui se declarou culpado em abril de oito acusações, segundo informações divulgadas sobre o processo.
Uma conta de bilhões
A dimensão da punição também impressiona.
O Evergrande Group foi multado em 8,82 bilhões de yuans, enquanto a Evergrande Real Estate recebeu multa de 7 bilhões de yuans. Juntas, as penalidades chegam a 15,82 bilhões de yuans, cerca de R$ 11 bilhões.
O tribunal determinou ainda que os ganhos considerados ilegais continuem sendo recuperados e que valores não recuperados sejam objeto de restituição.
Além de Hui, 56 pessoas ligadas aos casos da Evergrande receberam penas que variam de 1 ano e 10 meses a 18 anos de prisão. Entre os condenados estão dois filhos do empresário.
O império começou a desmoronar em 2021
A crise da Evergrande se tornou símbolo dos problemas do mercado imobiliário chinês.
A empresa acumulou mais de US$ 300 bilhões em passivos e entrou em crise depois que as autoridades chinesas adotaram medidas para conter o endividamento excessivo do setor imobiliário.
Com dificuldades para honrar suas obrigações, a incorporadora passou a vender imóveis com grandes descontos e acabou entrando em colapso financeiro.
Em janeiro de 2024, um tribunal de Hong Kong determinou a liquidação da companhia. As ações da Evergrande chegaram a perder praticamente todo o seu valor antes de serem retiradas da Bolsa de Hong Kong em agosto de 2025.
A queda de um símbolo
A história de Hui Ka Yan representa também a transformação do próprio mercado imobiliário chinês.
Filho de uma família humilde e criado pela avó, Hui construiu sua fortuna durante o gigantesco processo de urbanização da China.
Em seu auge, a Evergrande tinha vendas anuais de aproximadamente 700 bilhões de yuans e se tornou uma das maiores incorporadoras do país.
Agora, seu fundador termina condenado à prisão perpétua.
A sentença não encerra, porém, os problemas deixados pelo colapso da empresa. Credores, compradores de imóveis, investidores e outras empresas ainda enfrentam as consequências de uma das maiores crises corporativas da história recente da China.
O império que parecia grande demais para quebrar acabou ruindo sob o peso da própria dívida.
E a queda de Hui Ka Yan deixa uma lição que ultrapassa as fronteiras chinesas:
crescimento acelerado baseado em dívida pode construir um gigante — mas também pode transformar esse gigante em um dos maiores colapsos financeiros do mundo.
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