Endividamento americano mais que dobrou desde 2017; juros já ultrapassam US$ 1 trilhão por ano e pressionam o orçamento de Washington
A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, segundo os dados mais recentes do Departamento do Tesouro americano. O valor chegou a aproximadamente US$ 40,047 trilhões, um recorde histórico para a maior economia do planeta.
O número impressiona não apenas pelo tamanho, mas pela velocidade do crescimento. A dívida americana mais que dobrou desde 2017, passando a representar um dos principais desafios fiscais de longo prazo para Washington. Cerca de US$ 32,3 trilhões estão nas mãos de investidores e credores externos ao governo, enquanto aproximadamente US$ 7,8 trilhões correspondem a obrigações intragovernamentais.
Como os Estados Unidos chegaram a esse ponto?
A explosão da dívida não pode ser atribuída a um único presidente.
O endividamento avançou durante diferentes administrações e foi acelerado por fatores como pandemia de Covid-19, grandes déficits orçamentários, gastos públicos elevados, cortes de impostos e aumento das despesas com juros.
A pandemia teve papel importante, mas o problema não terminou com a crise sanitária. Os Estados Unidos continuam gastando mais do que arrecadam, obrigando o governo a emitir novos títulos para financiar o déficit.
O Congressional Budget Office (CBO) projeta um déficit federal de aproximadamente US$ 1,9 trilhão em 2026. A agência também estima que a dívida federal em poder do público chegará a 120% do PIB em 2036.
O problema não é apenas a dívida — são os juros
Talvez essa seja a parte mais preocupante.
O CBO estima que os gastos líquidos do governo americano com juros ultrapassem US$ 1 trilhão em 2026, contra US$ 970 bilhões em 2025. Para 2036, a projeção chega a US$ 2,1 trilhões anuais.
Na prática, cada vez mais dinheiro do orçamento americano precisa ser destinado simplesmente para pagar os juros da dívida acumulada.
Isso reduz o espaço para investimentos, programas públicos e outras prioridades do governo.
E cria um ciclo perigoso: dívida elevada gera mais juros; juros maiores aumentam o déficit; déficit maior exige novas dívidas.

Isso significa que os EUA estão quebrados?
Não.
Essa é uma distinção importante.
Os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do mundo e emitem a principal moeda de reserva internacional. O governo americano também possui amplo acesso aos mercados financeiros.
Portanto, ultrapassar US$ 40 trilhões não significa que os Estados Unidos estejam prestes a declarar falência.
O problema é de sustentabilidade.
O próprio CBO afirma que a trajetória fiscal projetada é insustentável no longo prazo.
E o que isso significa para o resto do mundo?
Muito.
Os títulos do Tesouro americano são uma das principais referências do sistema financeiro global. Quando os investidores exigem juros maiores para financiar o governo dos EUA, os efeitos podem se espalhar para outros mercados.
Empréstimos, financiamentos imobiliários, investimentos e custo do dinheiro podem sofrer pressão.
O mercado também acompanha com atenção o rendimento dos títulos de longo prazo americanos. O rendimento dos papéis de 30 anos chegou recentemente a níveis não vistos desde 2007, refletindo, entre outros fatores, a preocupação com a trajetória fiscal americana.
E o Brasil?
Para o brasileiro, a questão pode parecer distante, mas não é.
Mudanças nos juros dos Estados Unidos podem influenciar o fluxo internacional de capitais, o dólar, os juros brasileiros e o custo de financiamento.
Quando investir em títulos americanos se torna mais atraente, parte do dinheiro global pode migrar para os Estados Unidos, pressionando moedas de países emergentes.
E uma valorização do dólar pode encarecer produtos importados e pressionar a inflação brasileira.
Trump prometeu reduzir a dívida. E agora?
A questão também ganhou dimensão política.
Donald Trump voltou à Casa Branca defendendo redução de gastos e maior eficiência do governo. Entretanto, a dívida continua crescendo.
A realidade fiscal americana é resultado de decisões acumuladas ao longo de vários governos e não pode ser explicada exclusivamente pela administração atual.
O desafio para Washington é encontrar uma combinação politicamente difícil de redução de despesas, aumento de receitas e crescimento econômico capaz de estabilizar a dívida sem provocar uma recessão.
O gigante também tem uma conta para pagar
Os US$ 40 trilhões não significam que a economia americana esteja à beira do colapso.
Mas representam um aviso.
A maior potência econômica do planeta está acumulando uma dívida que cresce mais rapidamente do que sua capacidade de estabilizar as contas públicas.
E quanto maior fica a dívida, maior fica também a conta dos juros.
O problema dos Estados Unidos talvez não seja conseguir pagar US$ 40 trilhões hoje.
A pergunta realmente difícil é outra:
por quanto tempo o país conseguirá continuar aumentando essa conta sem que os juros e a dívida passem a limitar o próprio poder econômico americano?
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