Lindsay Clancy, ex-enfermeira de parto, é acusada de matar os três filhos; defesa sustenta que ela estava em surto psicótico e não poderia ser responsabilizada criminalmente
Centenas de mulheres vestidas de rosa foram nesta quinta-feira (20) ao tribunal de Plymouth, em Massachusetts, nos Estados Unidos, para manifestar apoio a Lindsay Clancy, de 36 anos, julgada pela morte dos três filhos.
O protesto silencioso reuniu mulheres com cartazes e camisetas com frases como “Ela precisava de ajuda” e “Paz para Lindsay”. O movimento não pretende negar a morte das crianças, mas chamar atenção para uma questão que ganhou força durante o julgamento: a saúde mental materna e os limites da responsabilidade criminal diante de uma grave doença psiquiátrica.
Uma profissional da saúde que também adoeceu
Lindsay trabalhava como enfermeira na área de trabalho de parto e nascimento. Segundo testemunhos apresentados pela defesa, nos meses anteriores à tragédia ela apresentou deterioração importante de sua saúde mental, relatando pensamentos suicidas, medo de machucar os próprios filhos e preocupação com os efeitos dos medicamentos que utilizava.

Em janeiro de 2023, Lindsay matou os três filhos — Cora, de 5 anos, Dawson, de 3, e Callan, de apenas 8 meses — e posteriormente tentou tirar a própria vida ao saltar de uma janela. Ela sobreviveu, mas ficou paralisada da cintura para baixo.
A defesa admite que Lindsay foi responsável pelas mortes, mas sustenta que ela estava sofrendo de psicose pós-parto associada a transtorno bipolar, condição que teria comprometido sua capacidade de compreender a realidade e controlar suas ações.
Depressão não é psicose pós-parto
O caso também ajuda a diferenciar duas condições que frequentemente são confundidas.

A depressão pós-parto é relativamente comum e pode provocar tristeza profunda, desesperança, ansiedade, alterações no sono e até pensamentos de morte ou de machucar o bebê.
Já a psicose pós-parto é rara e muito mais grave. Segundo o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), ocorre em aproximadamente 1 a 3 mulheres a cada mil nascimentos e pode envolver alucinações, delírios, paranoia, confusão e perda de contato com a realidade. É considerada uma emergência psiquiátrica e normalmente exige tratamento imediato.
No julgamento de Lindsay, um psicólogo afirmou que ela apresentava sinais compatíveis com psicose e relatou que ela dizia ter ouvido uma voz que a mandava matar os filhos. Um capelão do hospital também contou ao tribunal que Lindsay demonstrou preocupação com a segurança das crianças após o crime.
Mas a acusação apresenta outra interpretação.
Os promotores afirmam que Lindsay planejou as mortes e questionam se ela realmente estava em estado psicótico no momento dos crimes. Testemunhas médicas chamadas pela acusação disseram não ter observado sinais de psicose em atendimentos anteriores.
É justamente essa disputa que o júri terá de decidir.
E o marido?
O drama também atingiu profundamente Patrick Clancy, marido de Lindsay e pai das três crianças.
Ele encontrou a esposa gravemente ferida depois da tentativa de suicídio e, em seguida, encontrou os filhos mortos. Durante o processo, Patrick reconheceu os graves problemas de saúde mental enfrentados por Lindsay e passou a defender uma compreensão mais ampla sobre o que aconteceu.
A tragédia colocou o próprio marido diante de uma situação praticamente impossível de assimilar: perder três filhos e, ao mesmo tempo, acompanhar o julgamento da mulher que ama e que é acusada de matá-los.
E se esse caso acontecesse no Brasil?
Essa comparação precisa ser feita com cuidado.
O desfecho jurídico poderia ser diferente, mas não necessariamente mais brando.
No Brasil, o Código Penal prevê que uma pessoa pode ser considerada inimputável quando, por doença mental, era inteiramente incapaz de compreender o caráter ilícito do que fazia ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Nessa hipótese, não recebe pena criminal comum, mas pode ser submetida a medida de segurança. Se a capacidade estava apenas parcialmente comprometida, a lei admite redução de pena.
Também existe no Código Penal brasileiro o crime de infanticídio, mas ele tem requisitos específicos: matar o próprio filho sob influência do estado puerperal, durante o parto ou logo após. Portanto, seria incorreto afirmar que uma mulher diagnosticada com depressão ou psicose pós-parto automaticamente responderia por infanticídio.
No caso de Lindsay, além disso, estão envolvidos três filhos de idades diferentes e uma discussão psiquiátrica que precisaria ser analisada por perícia. Não seria possível antecipar qual crime seria reconhecido ou qual medida seria aplicada sem conhecer os laudos e as circunstâncias concretas.
Uma tragédia que não pode virar julgamento simplista
O caso Lindsay Clancy não é uma história simples de “mãe que matou os filhos”.
Também não é correto transformar uma possível doença mental em uma justificativa automática para uma tragédia.
É justamente essa zona cinzenta que torna o julgamento tão doloroso.
Uma mãe pode ter cometido um ato terrível e, ao mesmo tempo, estar profundamente doente.
As duas afirmações podem coexistir.
A pergunta jurídica é se a doença retirou dela, naquele momento, a capacidade de compreender o que fazia ou de controlar suas ações.
A pergunta médica é outra: os sinais estavam presentes antes? Foram reconhecidos? O tratamento foi adequado? Houve falhas na rede de proteção?
E talvez a pergunta mais importante seja preventiva:
quantas mulheres estão pedindo ajuda antes de uma crise psiquiátrica grave e não estão sendo ouvidas?
A psicose pós-parto é rara, mas a medicina reconhece que pode surgir de maneira abrupta e exigir intervenção imediata. O ACOG recomenda atenção especial à saúde mental durante a gestação e o período pós-parto e determina que suspeitas de psicose pós-parto recebam atendimento médico imediato.
Enquanto o júri se aproxima de uma decisão, as mulheres de rosa do lado de fora do tribunal transformaram o caso em um alerta:
cuidar da saúde mental de uma mãe também pode significar proteger uma família inteira.
E, neste caso, o preço de uma doença que talvez não tenha sido controlada adequadamente foi uma tragédia que destruiu quatro vidas e deixou uma família inteira marcada para sempre.
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