Atriz que atravessou mais de oito décadas da dramaturgia brasileira ganhou projeção nacional ao interpretar a rígida beata que se tornou símbolo da sociedade de Ilhéus no remake de Jorge Amado; cenas da personagem voltam a repercutir nas redes sociais após a morte da atriz
Por Thiago Viana Borges
A televisão brasileira perdeu, aos 98 anos, uma de suas maiores referências. Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), em sua residência, em São Paulo, por causas naturais, segundo informações divulgadas pela família. A despedida de uma das mais longevas e respeitadas atrizes do país também reacende, em Ilhéus, a lembrança de uma personagem que ajudou a levar para milhões de brasileiros uma representação marcante da sociedade descrita por Jorge Amado: Dorotéia, do remake de Gabriela, exibido pela TV Globo em 2012.
A notícia da morte foi divulgada nas redes sociais da atriz durante a madrugada desta terça-feira (18). A família informou que o velório ocorre em São Paulo, em cerimônia reservada. A morte provocou manifestações de colegas de profissão e uma ampla repercussão nas redes sociais, onde cenas, entrevistas e momentos de sua carreira voltaram a circular.
Laura Cardoso deixa um legado que ultrapassa 80 anos de atuação e mais de uma centena de trabalhos no teatro, cinema e televisão. Mas, para Ilhéus, sua passagem por Gabriela ganhou um significado particular. Na trama escrita por Walcyr Carrasco a partir do romance de Jorge Amado, Laura interpretou Dorotéia, personagem criada especialmente para a adaptação televisiva e apresentada como uma espécie de “pilar moral” da Ilhéus de 1925.
A personagem era uma das figuras mais rígidas da sociedade local. Religiosa, autoritária e extremamente preocupada com os costumes, Dorotéia julgava o comportamento dos moradores e se colocava como guardiã da moral da cidade. Ao mesmo tempo, carregava um passado que posteriormente seria revelado pela trama.
A própria Memória Globo registra Dorotéia como uma das personagens marcantes da segunda versão de Gabriela. A novela foi exibida entre junho e outubro de 2012, em 77 capítulos, e tinha como cenário central a Ilhéus retratada na obra de Jorge Amado.
Foi justamente essa interpretação que transformou Laura Cardoso em uma presença particularmente forte no universo de Gabriela. Logo após a estreia, a atuação da atriz esteve entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. A repercussão foi tão expressiva que a própria TV Globo destacou, à época, que Laura havia se tornado um dos grandes assuntos relacionados à novela.
A personagem, porém, não ficou restrita à televisão. Décadas depois da publicação do romance de Jorge Amado e anos após a exibição da novela, Dorotéia continua sendo lembrada quando se fala da representação televisiva da antiga Ilhéus do cacau.
Uma personagem que virou parte da memória televisiva de Ilhéus
Embora a novela tenha utilizado diferentes localidades para suas gravações — entre elas São Raimundo Nonato e Caracol, no Piauí, e Canavieiras, na Bahia —, a Ilhéus retratada na obra era construída dramaticamente como o centro da narrativa. Isso é importante para compreender a dimensão da presença de Laura Cardoso na memória audiovisual da cidade: Dorotéia não era apenas uma personagem que passava pela história; ela representava uma parcela da sociedade ilheense retratada pela ficção de Jorge Amado.
A produção utilizou a arquitetura, a cultura e os conflitos sociais associados à região cacaueira para reconstruir a cidade dos anos 1920. E Laura Cardoso, como Dorotéia, tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis dessa Ilhéus ficcional.
A personagem também protagonizou algumas das cenas que voltaram a circular com força nas redes sociais após a morte da atriz. Em uma delas, Dorotéia confronta Gabriela, interpretada por Juliana Paes, depois que a protagonista passa a ser rejeitada por parte da sociedade ilheense. Em outra sequência, a beata participa das investigações relacionadas à morte de Sinhazinha e declara, diante das autoridades, que a vítima era uma santa.
A força da personagem estava justamente na contradição. Dorotéia defendia publicamente a moral e os bons costumes, mas carregava um segredo sobre sua própria trajetória. A revelação de seu passado tornou-se um dos momentos importantes da novela e aprofundou uma personagem que, inicialmente, poderia parecer apenas uma caricatura da beata conservadora.
A atuação de Laura deu dimensão humana à personagem. A atriz conseguia transformar frases duras, julgamentos e gestos de reprovação em momentos de forte presença dramática. Não por acaso, a interpretação chamou atenção ainda no início da novela e fez com que Dorotéia rapidamente ganhasse destaque entre os personagens mais comentados.
Ilhéus ganhou projeção nacional
A importância de Gabriela para a imagem de Ilhéus também não pode ser dissociada da força do elenco. A produção reuniu nomes como Juliana Paes, Humberto Martins, Antônio Fagundes, José Wilker, Mateus Solano, Ivete Sangalo, Marco Pigossi, Giovanna Lancellotti e Laura Cardoso.
A trama apresentou para uma nova geração uma Ilhéus marcada pelo poder dos coronéis do cacau, pelas disputas políticas, pela transformação econômica da cidade e pelos conflitos entre tradição e mudança.
Nesse universo, Dorotéia funcionava como uma espécie de personificação da resistência aos novos costumes. Sua oposição a Gabriela colocava em cena um dos conflitos centrais da história: de um lado, uma sociedade acostumada a estabelecer regras rígidas para homens e, principalmente, para mulheres; de outro, uma personagem que não aceitava facilmente os códigos sociais daquele ambiente.
A própria Globo descreveu Dorotéia como “o pilar moral de Ilhéus”, enquanto a página oficial da personagem registra que ela se considerava responsável por defender os padrões morais da cidade.
Uma carreira que atravessou gerações
A história de Laura Cardoso, entretanto, começou muito antes de Dorotéia.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em São Paulo, a atriz iniciou sua trajetória artística ainda adolescente, no rádio, antes de chegar à televisão. Em 1952, estreou na TV Tupi, tornando-se parte da primeira geração de artistas que ajudaram a construir a televisão brasileira.
Ao longo das décadas seguintes, trabalhou em dezenas de novelas, séries, filmes e peças teatrais. Entre seus personagens mais lembrados estão Dona Guiomar, de A Viagem, a mãe de Ruth e Raquel em Mulheres de Areia, Laksmi, de Caminho das Índias, além de trabalhos em Chocolate com Pimenta, O Outro Lado do Paraíso e A Dona do Pedaço.
Sua trajetória também ultrapassou a televisão. Laura participou do cinema e do teatro e recebeu importantes reconhecimentos por sua contribuição à cultura brasileira. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural.
Mesmo com idade avançada, Laura nunca se enxergou como uma artista aposentada. Continuou trabalhando e manteve contrato vitalício com a TV Globo. Em 2025, participou da inauguração de uma estrela com seu nome na Calçada da Fama dos Estúdios Globo e também esteve na tradicional vinheta de fim de ano da emissora.
De Laura para Dorotéia; de Dorotéia para Ilhéus
A morte de Laura Cardoso encerra uma trajetória pessoal, mas não encerra a vida de seus personagens.
Em Ilhéus, onde Jorge Amado encontrou inspiração para construir parte de sua literatura, a atriz deixa uma marca particularmente simbólica. Mesmo interpretando uma personagem ficcional, Laura ajudou a materializar na televisão uma cidade que já existia na literatura e que, através da dramaturgia, voltou a ser apresentada ao Brasil.
Dorotéia permanecerá associada à Ilhéus de Jorge Amado: a cidade dos coronéis, das plantações de cacau, das disputas políticas, do Bataclan, do Vesúvio, das beatas e de uma sociedade em transformação.
E é justamente por isso que a morte de Laura Cardoso provoca uma lembrança que vai além da televisão. Para quem vive em Ilhéus, revisitar as cenas de Gabriela é também reencontrar uma representação da própria cidade — ainda que construída pela ficção.
A atriz se foi aos 98 anos. Dorotéia, porém, continua caminhando pelas ruas da Ilhéus imaginada por Jorge Amado, agora eternizada também pela interpretação de uma mulher que dedicou mais de oito décadas à arte.
Thiago Viana Borges é Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
Fontes consultadas: Memória Globo, Gshow, Folha de S.Paulo e UOL.
