História de jovem que perdeu cerca de R$ 500 mil em apostas e hoje vende café nas ruas expõe uma face cada vez mais preocupante das bets: quando tentar ganhar dinheiro transforma-se em incapacidade de parar de perder
A imagem de um jovem de 24 anos vendendo café em um semáforo de Lages, em Santa Catarina, poderia ser apenas mais uma história de alguém tentando ganhar a vida.
Mas existe algo muito maior por trás daquele carrinho improvisado e dos copos de café vendidos durante a manhã.
Gustavo Pereira afirma ter perdido cerca de R$ 500 mil em apostas ao longo de anos de envolvimento com jogos, acumulado dívidas com bancos e pessoas próximas e enfrentado depressão e síndrome do pânico.
Agora, tenta reconstruir a própria vida trabalhando.
A história ganhou repercussão depois que vídeos de Gustavo vendendo café viralizaram nas redes sociais. Segundo relato publicado pelo ND Mais, ele passou cerca de seis anos envolvido com apostas e chegou ao que descreve como o “fundo do poço”.
O caso é individual.
Mas o problema que ele revela é coletivo.
No Brasil, as apostas esportivas e os jogos online deixaram de ser uma atividade restrita a determinados ambientes e passaram a ocupar o celular, as redes sociais e o cotidiano de milhões de pessoas.
E, para uma parcela dos jogadores, a aposta deixa de ser entretenimento e passa a controlar a própria vida.
O problema não é simplesmente perder dinheiro
Existe uma diferença fundamental entre apostar ocasionalmente e desenvolver um transtorno relacionado ao jogo.
O Ministério da Saúde define o chamado transtorno do jogo como a dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. A condição pode estar associada a ansiedade, depressão, culpa e isolamento social.
Essa definição muda a maneira como o problema deve ser encarado.
Não se trata simplesmente de dizer que alguém “não soube administrar o próprio dinheiro”.
Em determinados casos, a pessoa sabe que está perdendo.
Sabe que está acumulando dívidas.
Sabe que deveria parar.
Mas não consegue.
É justamente essa perda de controle que transforma o comportamento em um problema de saúde.
O ciclo que começa com uma pequena aposta
O mecanismo pode parecer inofensivo no início.
Uma aposta de R$ 5.
Depois R$ 20.
Uma vitória produz a sensação de que é possível ganhar novamente.
Uma derrota cria a necessidade de recuperar o dinheiro.
E então surge uma das armadilhas mais perigosas:
apostar para recuperar o que foi perdido.
O jogador deixa de pensar em diversão.
Passa a pensar em recuperação.
Perde R$ 100 e quer recuperar R$ 100.
Perde R$ 1 mil e acredita que uma aposta maior pode resolver.
Perde novamente.
E aumenta ainda mais o risco.
É nesse momento que a lógica financeira começa a ser substituída por uma lógica compulsiva.
A pessoa não está mais apostando porque quer ganhar.
Está apostando porque não aceita ter perdido.
Para os jovens, o cassino está no bolso
A transformação tecnológica tornou esse processo ainda mais acessível.
Não é preciso procurar uma casa de apostas.
Não é necessário sair de casa.
Não existe horário de fechamento.
O celular está permanentemente disponível.
Uma pessoa pode acompanhar uma partida de futebol e apostar simultaneamente, receber uma notificação de uma promoção, realizar um depósito por Pix e fazer outra aposta em poucos segundos.
Essa disponibilidade permanente é uma das características que tornam o fenômeno particularmente preocupante.
O Ministério da Saúde passou a incluir os impactos dos jogos de apostas entre os temas de saúde pública e estruturou orientações específicas para prevenção e cuidado.
O dinheiro virtual pode esconder o tamanho da perda
Outro elemento importante é a transformação do dinheiro em números na tela.
O jogador deposita R$ 50.
O saldo sobe para R$ 150.
Depois cai para R$ 30.
Mais R$ 100 entram.
Depois mais R$ 200.
Ao final do mês, a pessoa pode ter movimentado milhares de reais sem perceber imediatamente quanto efetivamente perdeu.
Quando o dinheiro acaba, começam outras formas de financiamento:
cartão de crédito, empréstimos, dinheiro de familiares, antecipação de salário e até venda de bens.
A dívida passa a ser consequência, mas também combustível para novas apostas.
É o momento em que a situação pode se tornar extremamente difícil de interromper.
Gustavo chegou ao limite — e decidiu recomeçar
Segundo o relato publicado pelo ND Mais, Gustavo passou anos convivendo com as apostas e acumulou aproximadamente R$ 500 mil em perdas.
Vieram as dívidas.
Vieram os problemas emocionais.
Vieram a depressão e a síndrome do pânico.
Até que ele decidiu interromper o ciclo.
A venda de café em um semáforo surgiu como uma alternativa para reconstruir a renda e, ao mesmo tempo, manter a mente ocupada.
A atividade começou há poucos dias e rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais.
O perfil criado para divulgar o trabalho saltou de aproximadamente 300 seguidores para mais de 4 mil em cerca de 24 horas, segundo o ND Mais. Um dos vídeos ultrapassou 500 mil visualizações.
Mas o mais importante da história não está nos números das redes sociais.
Está na frase que resume o processo:
Gustavo precisou reconhecer que tinha um problema.
Esse reconhecimento costuma ser uma das partes mais difíceis para quem enfrenta a compulsão.
O governo já reconhece o tamanho do problema
O fenômeno deixou de ser tratado apenas como uma questão financeira.
O Ministério da Fazenda reconhece oficialmente entre os riscos associados às apostas as consequências negativas para a saúde mental decorrentes de dependência, compulsão e transtornos relacionados ao jogo, além de endividamento, problemas físicos e sociais.
O Ministério da Saúde, por sua vez, estruturou uma política específica de cuidado.
Em 2026, o governo ampliou o atendimento remoto para pessoas que apresentam problemas relacionados a jogos e apostas.
O serviço, inicialmente oferecido em escala muito menor, foi ampliado para até 100 mil teleatendimentos mensais por meio do Meu SUS Digital, diante da procura por assistência em saúde mental relacionada ao tema.
Não é mais possível, portanto, tratar o assunto apenas como uma moda passageira.
O poder público já reconhece que existe um problema de saúde associado ao jogo abusivo.
A situação pode atingir também a família
O prejuízo raramente fica restrito ao apostador.
Quando as dívidas começam, familiares frequentemente são chamados para cobrir rombos.
Pais emprestam dinheiro.
Companheiros descobrem contas escondidas.
Filhos convivem com conflitos dentro de casa.
Bancos começam a cobrar.
O nome é negativado.
A renda desaparece.
E o jogador passa a esconder o problema.
O próprio Ministério da Saúde aponta perda financeira, endividamento, problemas de saúde física e mental e violência entre consequências relacionadas aos problemas com apostas.
Por isso, a compulsão não deve ser analisada apenas pela quantidade de dinheiro perdido.
Uma pessoa pode desenvolver um padrão problemático antes mesmo de entrar em uma dívida gigantesca.
A aposta que deveria recuperar tudo pode destruir ainda mais
Existe uma frase que deveria servir como alerta:
“Vou apostar só mais uma vez para recuperar o que perdi.”
É provavelmente uma das frases mais perigosas dentro desse universo.
Porque a próxima aposta não necessariamente encerra o problema.
Ela pode aprofundá-lo.
A derrota produz frustração.
A frustração produz ansiedade.
A ansiedade aumenta a vontade de apostar.
A nova aposta gera nova perda.
E o ciclo reinicia.
É assim que uma pessoa pode passar de uma atividade recreativa para um comportamento compulsivo sem perceber exatamente em que momento a mudança aconteceu.
Não existe fórmula para vencer
Outro aspecto que precisa ser enfrentado é a ilusão de que existe uma técnica capaz de garantir lucro.
Não existe.
Análise estatística, conhecimento esportivo, inteligência artificial, acompanhamento de especialistas ou supostos “sinais” podem criar uma sensação de controle.
Mas não eliminam o risco.
A casa de apostas não está oferecendo uma oportunidade de investimento.
Está oferecendo um produto cujo modelo econômico depende da movimentação dos apostadores.
E quanto mais a pessoa acredita que pode recuperar sistematicamente aquilo que perdeu, maior pode ser sua exposição financeira.
A autoexclusão virou uma ferramenta oficial
Para quem percebe que perdeu o controle, o governo federal disponibiliza uma ferramenta de autoexclusão.
O mecanismo permite que o cidadão bloqueie seu acesso às plataformas de apostas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda por período determinado ou indeterminado.
É uma medida importante.
Mas existe uma ressalva:
bloquear a plataforma não significa necessariamente tratar a causa do problema.
Se existe compulsão, o bloqueio pode ser uma barreira fundamental para interromper o comportamento, mas o acompanhamento em saúde mental continua sendo importante.
O SUS também oferece atendimento
O Ministério da Saúde disponibiliza atendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares.
A rede pública inclui serviços de saúde mental e atendimento remoto especializado.
O ministério também oferece um autoteste que permite ao usuário refletir sobre sua relação com jogos e apostas.
O próprio governo ressalta, porém, que o questionário não é instrumento de diagnóstico.
A mensagem é clara: identificar sinais de risco é importante, mas o diagnóstico deve ser feito por profissionais habilitados.
O jovem precisa ser visto antes da dívida
Existe um erro recorrente nessa discussão.
A sociedade costuma perceber o problema somente quando aparece o prejuízo.
Quando a dívida chega a R$ 10 mil.
R$ 50 mil.
R$ 100 mil.
Ou, como no caso de Gustavo, centenas de milhares de reais.
Mas talvez seja necessário mudar a pergunta.
Em vez de perguntar “quanto esse jovem perdeu?”, deveríamos perguntar:
“quanto tempo ele passou apostando antes que alguém percebesse que havia um problema?”
Porque dinheiro perdido pode, com muito esforço, ser recuperado.
Tempo não.
Relacionamentos destruídos talvez possam ser reconstruídos.
A confiança, porém, pode levar anos.
E uma crise emocional pode deixar marcas muito mais profundas que qualquer dívida.
A história do café é, na verdade, uma história sobre recomeço
Gustavo não apagou os R$ 500 mil perdidos.
Também não apagou os anos em que viveu preso às apostas.
O que mudou foi a direção.
Agora trabalha.
Vende café.
Mantém outras atividades durante o dia.
Fala publicamente sobre o que viveu.
E tenta transformar a própria experiência em alerta para outras pessoas.
A história não deve ser romantizada.
Vender café no semáforo não é tratamento para a ludopatia.
Trabalhar não substitui acompanhamento psicológico ou médico.
Mas, para aquele jovem, o trabalho representa uma tentativa concreta de reconstrução da vida.
E talvez essa seja a parte mais poderosa da história.
O alerta que fica
As bets não precisam ser demonizadas para que seus riscos sejam reconhecidos.
Nem todo apostador desenvolverá dependência.
Mas também não podemos fingir que a compulsão não existe.
Ela existe.
O governo federal reconhece.
O SUS está criando estruturas de atendimento.
O Ministério da Fazenda mantém mecanismos de jogo responsável e autoexclusão.
E histórias como a de Gustavo mostram o que pode acontecer quando o problema é percebido tarde demais.
A discussão sobre apostas, portanto, não deveria ser apenas sobre quanto dinheiro o brasileiro movimenta.
Deveria ser também sobre quantas famílias estão pagando a conta dessa movimentação.
Porque, quando um jovem precisa vender café no semáforo para tentar reconstruir a própria vida depois de perder centenas de milhares de reais em apostas, a pergunta deixa de ser se ele teve azar.
A pergunta passa a ser: em que momento o jogo deixou de ser uma escolha e passou a escolher por ele?
E essa talvez seja a discussão mais urgente que o Brasil precisa enfrentar sobre as bets.
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