Economista Ricardo Paes de Barros defende melhor focalização dos recursos e mudanças no cálculo da renda das famílias; governo federal mantém pente-fino no CadÚnico e regras de transição
O Bolsa Família continua sendo uma das principais políticas de transferência de renda do país, mas pode — e, segundo um dos pesquisadores que participaram de sua concepção, deve — ser aperfeiçoado.
A avaliação é do economista Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Insper e considerado um dos idealizadores do programa criado em 2003. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, ele defendeu mudanças no desenho do benefício para fazer com que uma parcela maior dos recursos chegue às famílias mais pobres e para tornar o programa mais compatível com a entrada dos beneficiários no mercado de trabalho.
A discussão ocorre em um momento de revisão do Cadastro Único e de redução do número de famílias atendidas pelo programa em relação ao pico registrado em 2023.
Foco deveria estar em quem mais precisa
Para Paes de Barros, o primeiro desafio é melhorar a chamada focalização do Bolsa Família — isto é, garantir que os recursos sejam prioritariamente direcionados às pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Segundo os dados citados na entrevista, o programa atendia 19,3 milhões de famílias em julho de 2026, número inferior aos 21,2 milhões registrados em março de 2023.
A redução, de acordo com informações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), está relacionada a fatores como aumento da renda de parte das famílias, modernização e atualização do Cadastro Único e mudanças nas regras de permanência no programa.
O governo federal vem realizando justamente esse processo de atualização cadastral, conhecido como pente-fino, com o objetivo de identificar inconsistências e manter no programa as famílias que efetivamente atendem aos critérios.
Trabalho não deveria significar perda abrupta do benefício
Uma das principais críticas apresentadas pelo economista está relacionada à maneira como a renda do trabalho interfere no cálculo utilizado para definir a permanência da família no programa.
Atualmente, a regra de entrada considera renda familiar mensal de até R$ 218 por pessoa. O cálculo leva em conta a renda dos integrantes da família dividida pelo número de moradores.
Paes de Barros argumenta que o sistema deveria diferenciar melhor o dinheiro recebido por meio do trabalho de outras formas de aumento de renda.
Na avaliação do pesquisador, uma pessoa que consegue um emprego não deveria enfrentar uma perda tão rápida do benefício que possa funcionar, na prática, como um desestímulo à formalização ou à busca por uma ocupação.
Ele sugere, entre outras possibilidades, que apenas uma parcela da renda obtida com o trabalho seja considerada no cálculo utilizado para determinar o benefício.
Regra de proteção já tenta fazer essa transição
O desenho atual do Bolsa Família já possui mecanismos para evitar que uma família perca imediatamente o benefício quando sua renda aumenta.
Entre eles está a Regra de Proteção, que permite a permanência temporária no programa quando a família passa a receber renda acima do limite de entrada, desde que permaneça dentro das condições estabelecidas pelas regras vigentes.
Também existe o mecanismo de Retorno Garantido, que permite que uma família que deixou o programa por melhora de renda possa retornar caso volte à situação de vulnerabilidade e cumpra os critérios exigidos.
Na visão de Paes de Barros, entretanto, ainda há espaço para tornar essa transição mais eficiente.
“Trabalhar sem fome é menos penoso”
O economista também contesta a ideia de que programas de transferência de renda necessariamente afastariam os beneficiários do mercado de trabalho.
Segundo ele, receber uma renda mínima pode produzir o efeito contrário: permitir que a pessoa se alimente melhor, tenha condições de se deslocar, procure emprego, invista em uma pequena atividade econômica ou aumente sua produtividade.
A pobreza, argumenta o pesquisador, também impõe obstáculos que vão além da falta de dinheiro.
Uma pessoa sem recursos pode ter dificuldades até mesmo para pagar o transporte necessário para uma entrevista de emprego, adquirir equipamentos para trabalhar ou manter uma atividade informal.
Por isso, para Paes de Barros, o objetivo de um programa de transferência de renda não deveria ser simplesmente manter uma família recebendo o benefício, mas criar condições para que ela consiga avançar economicamente.
Benefício precisa vir acompanhado de serviços
Outro ponto defendido pelo economista é que o Bolsa Família não deveria funcionar isoladamente.
Quando um beneficiário consegue um emprego, por exemplo, pode continuar enfrentando obstáculos que dificultam sua permanência no mercado de trabalho.
Entre eles estão a falta de creche para os filhos, necessidade de qualificação profissional, cuidados com idosos, dificuldade de acesso a transporte ou falta de assistência técnica para pequenos negócios.
Por isso, Paes de Barros defende um atendimento mais individualizado, capaz de identificar qual é o principal obstáculo que impede cada família de aumentar sua renda.
A lógica seria migrar gradualmente de uma política exclusivamente de transferência de renda para uma estratégia que combine proteção social, qualificação e inclusão produtiva.
Governo mantém programa e pagamentos em dia
O debate sobre mudanças no desenho do Bolsa Família não significa que o programa esteja sendo interrompido.
O MDS informou que o pagamento referente a agosto de 2026 começou no dia 18 e segue até 31 de agosto, conforme o último dígito do NIS. Neste mês, o valor médio nacional do benefício é de R$ 678,35.
O ministério também esclareceu recentemente que é falsa a informação de que o Bolsa Família seria suspenso após as eleições. Segundo o órgão, os programas continuados permanecem em execução normalmente.
Em municípios atingidos por situações de emergência ou calamidade pública, o governo pode ainda unificar o calendário de pagamento. Em agosto, a medida alcança municípios de estados como Bahia, Amazonas, Roraima, Paraná, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte.
O desafio: combater a pobreza sem criar uma armadilha de dependência
A discussão proposta pelo pesquisador traz um dilema importante para o próximo governo federal.
O Bolsa Família precisa continuar protegendo famílias que não conseguem garantir sozinhas condições mínimas de sobrevivência. Ao mesmo tempo, não pode ser desenhado de maneira que uma melhora de renda produza uma perda tão abrupta do benefício que torne financeiramente pouco vantajoso trabalhar.
Esse é um dos pontos cegos do debate brasileiro sobre transferência de renda.
Reduzir o Bolsa Família simplesmente para diminuir o número de beneficiários pode ser tão equivocado quanto tratar o benefício como uma política permanente sem uma estratégia de emancipação econômica.
O desafio está justamente no meio do caminho: proteger quem precisa, identificar corretamente quem precisa e criar uma transição segura para quem consegue melhorar de vida.
E essa transição exige mais do que dinheiro.
Exige educação, creche, qualificação profissional, saúde, transporte, crédito, assistência técnica e oportunidades reais de trabalho.
O que pode mudar no futuro?
A entrevista de Ricardo Paes de Barros coloca sobre a mesa algumas possibilidades para o debate nacional:
- melhorar a identificação das famílias mais pobres;
- aperfeiçoar o Cadastro Único;
- reduzir erros de inclusão e exclusão;
- tornar a transição para o mercado de trabalho mais gradual;
- diferenciar renda proveniente do trabalho de outras fontes;
- ampliar políticas de qualificação profissional;
- integrar o Bolsa Família a serviços de assistência social;
- criar mecanismos mais eficientes de inclusão produtiva.
O programa, portanto, não está necessariamente diante de uma discussão entre “manter ou acabar”.
A questão mais complexa — e provavelmente mais importante para os próximos anos — é como fazer o Bolsa Família continuar reduzindo a pobreza sem transformar a própria melhoria da renda em motivo para uma família ter medo de trabalhar.
O debate agora é menos sobre a existência do programa e mais sobre a qualidade de seu desenho.
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