Levantamento compara declarações de bens apresentadas ao TSE em 2022 e 2026; entre os parlamentares estão três deputados baianos
Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (24) aponta que nove deputados federais atualmente investigados em processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) registraram, juntos, aumento de aproximadamente R$ 33,9 milhões no patrimônio declarado à Justiça Eleitoral entre 2022 e 2026.
A análise, realizada a partir das declarações de bens apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos registros de candidatura, envolve parlamentares investigados em diferentes apurações da Polícia Federal relacionadas a suspeitas de desvios de emendas parlamentares, fraudes em licitações e utilização irregular da cota parlamentar.
É importante destacar: aumento patrimonial não é, por si só, prova de irregularidade ou de crime. Os processos investigativos têm situações distintas e alguns permanecem sob sigilo. A declaração de bens é uma informação pública destinada justamente a permitir o acompanhamento da evolução patrimonial dos candidatos.
Três baianos aparecem entre os investigados
O levantamento inclui três deputados federais da Bahia: Dal Barreto (União Brasil), Elmar Nascimento (União Brasil) e Félix Mendonça Júnior (PDT).
Dal Barreto aparece entre os casos de maior crescimento proporcional. O patrimônio declarado passou de aproximadamente R$ 7,3 milhões, em 2022, para R$ 14,7 milhões em 2026, praticamente dobrando no período.
O deputado foi alvo direto da sexta fase da Operação Overclean, deflagrada pela Polícia Federal em outubro de 2025. A investigação apura suspeitas relacionadas a fraudes em licitações e desvio de emendas parlamentares. Segundo a manifestação apresentada ao UOL, Barreto atribuiu a evolução patrimonial à sua atividade empresarial e afirmou que os bens foram adquiridos de maneira lícita e devidamente declarados. Também disse estar à disposição das autoridades.
Já Elmar Nascimento declarou patrimônio de aproximadamente R$ 2,5 milhões em 2022, valor que chegou a R$ 8,5 milhões em 2026. Entre os bens declarados estão imóveis, um jet-ski e um quadriciclo.
Elmar não foi alvo direto dos mandados da Operação Overclean, mas familiares do parlamentar foram alvo de medidas judiciais durante uma das fases da investigação.
O terceiro baiano citado é Félix Mendonça Júnior. Segundo o parlamentar, a evolução de seu patrimônio está relacionada principalmente ao recebimento de uma herança de aproximadamente R$ 4,6 milhões, deixada pelo pai, falecido em 2020. Félix afirmou que os valores foram declarados à Receita Federal.
Pernambucano lidera crescimento
O maior crescimento nominal do grupo foi registrado pelo deputado Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE).
Os bens declarados pelo parlamentar passaram de cerca de R$ 3,7 milhões em 2022 para R$ 17,1 milhões em 2026, uma diferença de aproximadamente R$ 13,3 milhões, equivalente a uma alta de 362%.
Segundo o levantamento, os bens incluem ações, direitos creditórios, imóvel e veículo. O deputado foi alvo de uma ação da Polícia Federal em fevereiro deste ano, juntamente com o pai, o ex-senador Fernando Bezerra Coelho. As apurações mencionadas na reportagem envolvem suspeitas de desvios de emendas destinadas a Petrolina e possíveis fraudes em licitações.
Outros parlamentares
Também fazem parte do levantamento:
- Carlos Jordy (PL-RJ): aumento patrimonial de aproximadamente R$ 982 mil. Em 2026, declarou um apartamento em Niterói avaliado em R$ 1 milhão, além de aplicações financeiras.
- Júnior Mano (PSB-CE): patrimônio passou de R$ 371 mil para R$ 997 mil, crescimento de aproximadamente R$ 625,8 mil. Atualmente, disputa como primeiro suplente na chapa de Cid Gomes ao Senado.
- Pastor Gil (PL-MA): aumento de aproximadamente R$ 552 mil. Entre os bens declarados estão imóvel, terreno, veículo, aplicações e R$ 100 mil em espécie.
- Sóstenes Cavalcante (PL-RJ): crescimento de aproximadamente R$ 595 mil. O deputado declarou R$ 500 mil em espécie em 2026, valor que atribuiu à venda de um imóvel, além de um terreno em Brasília.
- Juscelino Filho (União Brasil-MA): teve o menor crescimento nominal do grupo, aproximadamente R$ 163,4 mil, chegando a R$ 4,6 milhões declarados em 2026.
Investigações não significam condenação
Outro ponto que precisa ser observado é a diferença entre ser investigado, ser denunciado, tornar-se réu e ser condenado.
Os nove parlamentares aparecem no levantamento porque são alvos de investigações ou de procedimentos relacionados a operações policiais que chegaram ao STF. Isso não significa que todos tenham sido considerados culpados.
No caso de Pastor Gil, por exemplo, a situação processual é diferente. Em março de 2026, a Primeira Turma do STF condenou, por unanimidade, o parlamentar e o deputado Josimar Maranhãozinho em uma ação relacionada a desvio de emendas e corrupção passiva. Segundo as informações disponíveis, a decisão ainda está na fase de recursos e não houve trânsito em julgado.
A distinção é fundamental para evitar que uma investigação seja apresentada como uma condenação definitiva.
Por que a evolução patrimonial chama atenção?
A declaração de bens não permite, isoladamente, concluir de onde veio cada aumento patrimonial. Um patrimônio pode crescer por meio de herança, venda de imóveis, valorização de investimentos, atividade empresarial, aquisição financiada ou outras operações lícitas.
O próprio levantamento ressalta essa cautela. Para Cristiano Pavini, coordenador de projetos da Transparência Brasil, aumentos expressivos não constituem automaticamente indício de irregularidade, mas precisam ser justificáveis e podem servir de elemento de atenção para os órgãos de controle.
A discussão ganha relevância porque as investigações envolvendo emendas parlamentares colocaram no centro do debate nacional a necessidade de rastreabilidade, transparência e fiscalização do dinheiro público.
O Tribunal Superior Eleitoral também reforça a importância da rastreabilidade no processo eleitoral. Para as eleições de 2026, o TSE determina que os recursos utilizados pelas campanhas transitem por contas específicas e que as movimentações sejam devidamente identificadas e registradas.
Declaração ao TSE permite comparação
A divulgação das declarações de bens é uma das ferramentas disponíveis ao eleitor para acompanhar a evolução patrimonial dos candidatos.
O próprio TSE disponibiliza os dados de bens dos candidatos nas eleições de 2026 em seu Portal de Dados Abertos, permitindo consulta às informações declaradas oficialmente pelos concorrentes.
No caso dos nove deputados citados, a comparação entre 2022 e 2026 revela uma fotografia patrimonial que merece ser analisada individualmente — mas não deve ser confundida com uma prova automática de enriquecimento ilícito.
Para o eleitor, o ponto central é outro: diante de investigações envolvendo recursos públicos, quanto maior a evolução patrimonial, maior também deve ser a disposição para explicar de maneira transparente a origem dos recursos.
Os nove deputados citados

Carlos Jordy (PL-RJ)
Dal Barreto (União Brasil-BA)
Elmar Nascimento (União Brasil-BA)
Félix Mendonça Júnior (PDT-BA)
Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE)
Júnior Mano (PSB-CE)
Juscelino Filho (União Brasil-MA)
Pastor Gil (PL-MA)
Sóstenes Cavalcante (PL-RJ)
Segundo o levantamento, quase todos disputam a reeleição em 2026. As exceções são Júnior Mano, que concorre como primeiro suplente ao Senado pelo Ceará, e Carlos Jordy, que disputa uma cadeira de senador pelo Rio de Janeiro.
Portal Vilela 24hs ressalta que os dados patrimoniais são declarações apresentadas à Justiça Eleitoral e que eventuais responsabilidades criminais dependem da apuração dos fatos e das decisões judiciais competentes. O espaço permanece aberto aos parlamentares citados para esclarecimentos ou manifestações adicionais.
