Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) pode transformar a pele da tilápia, normalmente descartada pela indústria, em um curativo biológico para o tratamento de queimaduras e feridas. Após mais de uma década de pesquisas, a solução avança agora para a produção em escala industrial.
A primeira fábrica dedicada à produção desses curativos será instalada em Jaguaribara, no Ceará. O projeto prevê investimento inicial superior a R$ 52 milhões e capacidade para processar milhares de peles por dia, com expansão gradual da produção. A previsão divulgada pelos responsáveis é de início da operação em 2028.
COMO FUNCIONA
A pele da tilápia passa por um processo de preparação e, na versão liofilizada, tem a água retirada para permitir armazenamento e posterior reidratação. Depois de preparada, a membrana é aplicada sobre a área queimada, funcionando como uma cobertura biológica temporária.
Estudos conduzidos pelos pesquisadores apontam benefícios especialmente para queimaduras de segundo grau, incluindo redução da necessidade de trocas frequentes de curativo e potencial diminuição da dor durante o tratamento. A tecnologia também vem sendo investigada para outras aplicações médicas.
O diferencial está justamente na capacidade de utilizar um material abundante e que normalmente seria descartado, transformando um subproduto da piscicultura em uma tecnologia médica de alto valor agregado.
TECNOLOGIA BRASILEIRA PODE REDUZIR CUSTOS
Além do potencial clínico, o projeto possui impacto econômico. A expectativa dos responsáveis pelo empreendimento é reduzir os custos associados ao tratamento convencional de queimaduras, principalmente pela menor frequência de trocas de curativos.
O Brasil possui uma demanda significativa por atendimento a pessoas queimadas. Dados divulgados em 2026 indicam dezenas de milhares de internações anuais relacionadas a queimaduras, o que torna novas alternativas terapêuticas relevantes para a rede pública.
A produção em escala também pode transformar o Ceará em um polo de inovação na área de biomateriais, aproveitando a forte cadeia produtiva da tilápia existente no estado.
SUS AINDA DEPENDE DE ETAPAS REGULATÓRIAS
Apesar do avanço, é importante esclarecer: a pele de tilápia ainda não foi incorporada ao SUS como tratamento de rotina. Para chegar efetivamente aos pacientes da rede pública, o produto precisa cumprir as exigências regulatórias e sanitárias, incluindo o processo de avaliação e registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Depois dessa etapa, uma eventual incorporação ao SUS também dependerá dos procedimentos administrativos e de avaliação tecnológica necessários para definir sua utilização na rede pública.
A expectativa, portanto, é de que uma tecnologia criada dentro de uma universidade federal brasileira deixe progressivamente o ambiente de pesquisa e avance para a produção industrial, com potencial de alcançar pacientes do SUS nos próximos anos.
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