Por Thiago Viana Borges | Olhar Público
Há momentos na política em que uma fotografia vale mais do que um discurso. Mas há outros em que é preciso olhar além da fotografia.
O grande evento realizado na sexta-feira (21), em Ilhéus, para o lançamento do comitê eleitoral da campanha de ACM Neto ao Governo da Bahia, foi, sem dúvida, uma demonstração de força política. E é preciso atribuir a quem de direito o mérito pela mobilização: o anfitrião e organizador foi o prefeito Valderico Júnior, presidente municipal do União Brasil, que colocou sua estrutura política à disposição do encontro e recebeu em sua cidade algumas das principais lideranças da oposição baiana.
ACM Neto esteve ao lado dos candidatos ao Senado Ângelo Coronel e João Roma, além de lideranças e candidatos que integram diferentes setores da aliança. Estiveram presentes Jabes Ribeiro e sua equipe política, a bancada do Progressistas, o presidente da Câmara, César Porto, Cacá Leão, Igor Domingues, Leur Lomanto Júnior e Pedro Tavares, estes dois últimos candidatos apoiados pelo próprio Valderico, além de vereadores aliados, lideranças políticas e candidatos de diversos municípios da região que fizeram questão de prestigiar o ato.
Portanto, não há como negar: Valderico conseguiu reunir a aliança em Ilhéus.
E isso é importante.
Mas existe uma diferença fundamental entre reunir uma aliança e coordenar uma aliança.
É justamente nessa diferença que está o ponto central desta análise.
O prefeito conseguiu impressionar. Agora precisa articular
É perfeitamente compreensível que Valderico Júnior queira demonstrar a ACM Neto a força política de Ilhéus.
O prefeito tem interesse direto na eleição de 2026. Um eventual governo de ACM Neto será importante para a cidade e, naturalmente, também para a própria administração municipal.
Por isso, quanto maior e mais representativo o ato, melhor a impressão transmitida ao candidato ao Governo.
E Valderico fez sua parte.
A presença de ACM Neto naturalmente arrastou lideranças. Candidatos que possuem interesse na eleição estadual vieram prestigiar. Prefeitos, vereadores, deputados, dirigentes partidários e grupos políticos que compõem o campo oposicionista tinham motivos para estar ali.
Essa é justamente a razão pela qual é necessário separar duas coisas.
O tamanho daquele evento representou o tamanho da aliança em torno de ACM Neto. Não necessariamente o tamanho da base política própria de Valderico Júnior.
Essa distinção não diminui o prefeito.
Pelo contrário.
Ela aponta para o próximo desafio.
Valderico já demonstrou que consegue organizar uma grande recepção.
Agora precisa demonstrar que consegue organizar politicamente aqueles que participaram dela.
Porque festa política é importante.
Palanque é importante.
Fotografia é importante.
Mas eleição se ganha com organização.
E aí surge a pergunta que o evento deixou
Se a mobilização foi tão ampla, por que os três vereadores do União Brasil em Ilhéus Tandick Resende, Nal Araújo e Vinícius Alcântara não estiveram presentes?
É preciso ter cautela.
Não é possível afirmar, apenas pela ausência, que exista rompimento, rebeldia ou mudança de posição eleitoral.
Isso seria transformar interpretação em fato.
Mas também seria um erro jornalístico ignorar o significado político da ausência.
Valderico Júnior não era apenas mais um participante daquele encontro.
Era o anfitrião, organizador e presidente municipal do partido que abriga os três vereadores.
O evento também não era uma simples agenda administrativa.
Era o lançamento do comitê eleitoral de ACM Neto, candidato apoiado pelo União Brasil.
E, justamente nesse momento, a bancada municipal da legenda não estava presente.
A pergunta, portanto, não é se os vereadores romperam com Valderico.
A pergunta é outra:
o que está acontecendo com a capacidade de articulação do prefeito dentro do próprio partido?
Essa é uma questão que merece resposta.
Márcio Bodão aumenta a importância do sinal
A saída de Márcio Bodão da liderança do governo na Câmara Municipal acrescenta outro elemento ao cenário.
Novamente, não se trata de decretar crise ou rompimento.
Mas política é uma atividade em que os fatos precisam ser observados em sequência.
Um governo que perde seu líder formal no Legislativo e, pouco depois, não consegue reunir integralmente sua própria bancada em um dos principais eventos políticos organizados pelo prefeito precisa, no mínimo, fazer uma avaliação interna.
Não necessariamente para procurar culpados.
Mas para entender onde a comunicação política está falhando.
Porque pode ser exatamente isso: uma falha de comunicação.
E se for, melhor ainda que seja corrigida agora.
O Progressistas oferece uma lição importante
O comportamento do Progressistas é talvez o melhor exemplo do que significa fazer parte de uma coalizão sem perder autonomia.
Na sexta-feira, Jabes Ribeiro, sua equipe e sua bancada estiveram ao lado de Valderico, prestigiando o evento de ACM Neto.
Não houve dificuldade em estar ao lado do prefeito.
No sábado, entretanto, o mesmo grupo realizou seu próprio grande encontro no Boca du Mar, reunindo seus candidatos, lideranças e apoiadores.
E aqui está a sutileza política.
Jabes não precisou escolher entre apoiar a aliança e preservar seu grupo.
Fez as duas coisas.
Na sexta-feira, esteve no palanque da aliança.
No sábado, mostrou a força de sua própria estrutura.
Na sexta-feira, Valderico mostrou o tamanho da aliança. No sábado, Jabes mostrou o tamanho do seu grupo.
Essa frase resume muito do que está acontecendo em Ilhéus.
O PP não parece querer romper. Parece querer participar
Seria equivocado interpretar a movimentação de Jabes como uma tentativa de confronto com Valderico.
O Progressistas continua integrado à composição política que sustenta a gestão e participa da aliança que apoia ACM Neto.
O que Jabes parece estar fazendo é algo muito mais simples e politicamente inteligente:
preservando a identidade e a autonomia do seu grupo.
O PP tem seus candidatos, seus vereadores, seus secretários, suas lideranças e sua estratégia eleitoral.
E isso não deveria ser visto pelo prefeito como ameaça.
Deveria ser visto como patrimônio político da própria coalizão.
O problema surge quando partidos aliados não são chamados para participar efetivamente da construção das estratégias.
E aqui talvez esteja uma das maiores oportunidades perdidas pela atual administração.
Não basta ter aliados. É preciso conversar com eles
Valderico Júnior é um gestor jovem.
Isso é uma qualidade em muitos aspectos.
Mas a política possui uma curva de aprendizado que não se adquire apenas ocupando um cargo.
É preciso aprender a ouvir quem já atravessou outras eleições.
Aprender a negociar.
Aprender a dividir protagonismo.
Aprender que um secretário não é apenas alguém que administra uma pasta.
Que um vereador aliado não é apenas alguém que vota com o governo.
Que um partido aliado não existe apenas para fornecer votos.
Cada um desses grupos possui capital político próprio, experiência, lideranças e capacidade de mobilização.
E esse capital precisa ser integrado ao projeto.
A percepção que se tem hoje é que a coordenação política ainda está excessivamente concentrada em torno do núcleo mais próximo do prefeito.
E isso pode produzir um efeito perigoso: fazer o gestor acreditar que o centro político da cidade está necessariamente dentro de seu próprio grupo.
Não está.
Ilhéus é politicamente muito maior que qualquer núcleo de governo.
E quanto antes um prefeito compreende isso, maior sua capacidade de governar e de vencer eleições.
A questão do ego precisa ser tratada com inteligência
É natural que todo prefeito queira protagonismo.
Ainda mais um prefeito jovem, que chegou ao cargo derrotando uma estrutura política tradicional e que agora precisa demonstrar capacidade de liderança.
O problema começa quando protagonismo se transforma em centralização.
Um prefeito não perde força porque divide protagonismo com seus aliados.
Ele ganha força.
ACM Neto não precisa que Valderico seja o único protagonista de sua campanha em Ilhéus.
Valderico também precisa compreender que uma coalizão não significa que todos os seus integrantes tenham de pensar ou agir da mesma maneira. O União Brasil possui sua estrutura e seus vereadores; o Progressistas possui sua própria bancada, seus candidatos e sua estratégia; e os demais partidos e lideranças que integram a aliança também carregam interesses eleitorais legítimos. O desafio do prefeito não é controlar essas diferenças, mas coordená-las em torno de um objetivo comum. É justamente aí que a liderança política deixa de ser apenas autoridade e passa a ser capacidade de articulação.
Essa é a verdadeira liderança.
Não é estar no centro de todas as fotografias.
É conseguir fazer com que todos os grupos tenham interesse em permanecer juntos quando a fotografia termina.
O comitê pode ser o ponto de virada
É justamente por isso que o lançamento do comitê eleitoral pode representar mais do que uma estrutura física de campanha.
Pode ser o momento de Valderico mudar a forma de fazer política.
O prefeito deveria aproveitar a estrutura criada para transformar o comitê em um verdadeiro centro de articulação da campanha de ACM Neto em Ilhéus, reunindo periodicamente os partidos aliados, estabelecendo estratégias territoriais, distribuindo responsabilidades e ouvindo as lideranças.
Quem conversa com quem?
Quem mobiliza determinado bairro?
Quem cuida de determinada região?
Quais lideranças possuem maior influência?
Quais candidatos precisam atuar juntos?
Como ampliar a votação de ACM Neto?
Como transformar a força dos candidatos proporcionais em votos para a majoritária?
Essas perguntas não podem ser respondidas exclusivamente por uma coordenação estadual.
A eleição acontece nos municípios.
E quem conhece os municípios são suas lideranças locais.
A vitória de ACM Neto interessa a todos
Esse talvez seja o ponto mais importante de toda essa discussão.
A crítica aqui não é contra Valderico.
É justamente o contrário.
É uma defesa da necessidade de que o prefeito amadureça sua articulação política antes que a eleição avance.
A vitória de ACM Neto interessa ao prefeito.
Interessa ao Progressistas.
Interessa aos candidatos.
Interessa aos vereadores aliados.
Interessa às lideranças que integram o grupo.
E, principalmente, pode interessar a Ilhéus.
Um governador alinhado com o município poderia estabelecer uma relação institucional diferente da que existe atualmente entre a cidade e o Governo do Estado.
Portanto, não há motivo racional para que os grupos que defendem esse projeto gastem energia disputando protagonismo entre si.
O adversário eleitoral está do outro lado.
Não está dentro da própria aliança.
Valderico precisa compreender que liderança não é centralização
Talvez essa seja a mensagem mais importante que a política de Ilhéus esteja oferecendo ao prefeito neste momento.
Valderico já mostrou que consegue mobilizar.
Agora precisa mostrar que consegue coordenar.
Já demonstrou que sabe receber ACM Neto.
Agora precisa demonstrar que sabe construir uma estratégia conjunta com aqueles que também trabalham pela eleição do candidato.
Já mostrou que possui força institucional.
Agora precisa transformar essa força em força política organizada.
E isso não será feito apenas com grandes eventos.
Será feito em reuniões.
Na conversa reservada.
Na divisão de tarefas.
Na confiança construída entre aliados.
Na capacidade de ouvir um vereador que pensa diferente.
Na capacidade de reconhecer que um partido aliado possui seu próprio projeto.
Na capacidade de entender que Jabes Ribeiro não precisa ser menor para Valderico ser maior.
É justamente essa compreensão que pode transformar uma aliança eleitoral em uma verdadeira coalizão política.
A eleição de 2026 também será uma aula para 2028
Talvez Valderico ainda não tenha percebido completamente, mas os grupos políticos de Ilhéus já estão observando o que acontece.
A eleição de 2026 será um grande teste de força.
Será possível medir a capacidade de transferência de votos do prefeito.
A força de Jabes.
A capacidade de mobilização do Progressistas.
A força dos vereadores.
A influência dos candidatos.
E, sobretudo, a capacidade da oposição de transformar uma grande aliança em uma máquina eleitoral organizada.
É por isso que o prefeito não pode se deixar seduzir apenas pelo tamanho das multidões.
Uma praça lotada impressiona. Uma base organizada vence eleição.
Essa talvez seja a diferença que Valderico Júnior precise compreender neste momento.
A festa de sexta-feira foi bonita.
Foi receptiva.
Foi importante.
Colocou Ilhéus no mapa da campanha de ACM Neto e certamente produziu uma boa impressão.
Mas a campanha começa de verdade quando as luzes se apagam, os palanques são desmontados e os líderes sentam à mesa para responder à pergunta mais importante:
o que cada um de nós fará para vencer?
Se Valderico conseguir transformar o comitê recém-lançado nesse espaço de diálogo, planejamento e coordenação, terá dado um passo importante para amadurecer sua liderança.
Se continuar concentrando o protagonismo em seu círculo mais próximo, poderá descobrir que o maior desafio de um prefeito não é reunir aliados em uma festa.
É fazer com que eles continuem juntos quando a festa termina.
OLHAR PÚBLICO
Onde a informação encontra a reflexão.
Thiago Viana Borges
Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político
