Uma planta nativa brasileira, encontrada em diferentes regiões do país, entrou no radar da ciência por uma característica incomum: pesquisas indicam que a Trema micrantha Blume, espécie da família Cannabaceae, pode conter canabinoides, entre eles o canabidiol (CBD), substância amplamente estudada por seu potencial terapêutico.
A descoberta ganhou repercussão após pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificarem CBD em partes da planta, especialmente frutos e flores. A espécie não é a Cannabis sativa e, nas análises divulgadas inicialmente pela equipe, não foi identificado THC nas partes examinadas — o principal composto associado aos efeitos psicoativos da cannabis.
A possibilidade chamou atenção porque o CBD possui aplicações medicinais já estudadas em diferentes contextos, especialmente no tratamento de algumas formas de epilepsia. Entretanto, é importante separar o que já foi demonstrado cientificamente daquilo que ainda é hipótese.
PESQUISA AINDA ESTÁ LONGE DE UM MEDICAMENTO PRONTO
A história ganhou uma importante atualização nos anos seguintes.
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Plants analisou amostras de Trema micranthum utilizando técnicas como cromatografia líquida e espectrometria de massas e não confirmou a presença de canabinoides nas amostras examinadas. Os pesquisadores alertaram que testes menos específicos poderiam produzir resultados falso-positivos.
No mesmo ano, entretanto, outro trabalho, publicado na revista Scientific Reports, utilizou espectrometria de massas de alta resolução e relatou a identificação de CBD, THC e seus precursores em diferentes partes da planta.
A discussão científica não terminou aí.
Em 2025, pesquisadores voltaram a investigar a espécie e identificaram 26 canabinoides em extratos de frutos, inflorescências e folhas, incluindo CBN, CBG, CBC e CBCA. O trabalho ampliou o interesse científico pela planta e reforçou a necessidade de compreender sua composição química e seu potencial farmacológico.
Na UFRJ, uma dissertação de mestrado defendida em 2025 também investigou métodos para aumentar a eficiência da extração de canabinoides da Trema micrantha. Os resultados indicaram que condições diferentes de extração influenciam a recuperação de CBD e CBG, contribuindo para o desenvolvimento de protocolos laboratoriais mais eficientes.
NÃO É “MACONHA SEM BRISA”
Um ponto importante é que CBD e THC não são a mesma substância.
O CBD não é responsável pelo efeito psicoativo tradicionalmente associado à cannabis. O chamado “barato” está principalmente relacionado ao THC.
Por isso, mesmo que uma planta contenha CBD, isso não significa automaticamente que ela produza os mesmos efeitos da Cannabis sativa ou que seu extrato possa ser utilizado diretamente como medicamento.
No caso da Trema micrantha, a questão é ainda mais complexa porque os estudos científicos apresentam resultados diferentes quanto à presença e à concentração dos canabinoides. Isso significa que fatores como variedade da planta, local de coleta, condições ambientais, parte utilizada e método de extração podem ser relevantes.
POTENCIAL EXISTE, MAS A MEDICINA AINDA NÃO DEU O VEREDITO
A possibilidade de utilizar uma espécie nativa brasileira como fonte de canabinoides é cientificamente relevante, principalmente porque poderia abrir uma nova linha de pesquisa envolvendo biodiversidade, produção de compostos bioativos e desenvolvimento farmacêutico.
Mas ainda não é correto afirmar que a Trema micrantha já representa uma alternativa comprovadamente mais barata ao CBD produzido a partir da cannabis, nem que esteja pronta para substituir medicamentos existentes.
Também não há, até o momento, evidência suficiente para afirmar que a planta possa tratar doenças raras ou complexas por conta própria. Para chegar a essa conclusão seriam necessários estudos farmacológicos, toxicológicos, de padronização, segurança, dose, eficácia e, posteriormente, ensaios clínicos em seres humanos.
A própria existência de pesquisas científicas sobre a planta não significa que um medicamento baseado nela esteja próximo de chegar às farmácias. A Anvisa diferencia pesquisas laboratoriais de ensaios clínicos destinados ao desenvolvimento e registro de medicamentos.
A Trema micrantha, portanto, não é ainda uma revolução médica — mas é uma descoberta que merece ser acompanhada de perto.
Uma árvore nativa encontrada no Brasil pode estar ajudando a ampliar o conhecimento científico sobre os canabinoides e, no futuro, eventualmente abrir caminho para novas aplicações farmacêuticas.
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