Novas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acrescentaram referências ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), no conjunto de informações analisadas no caso que envolve a instituição financeira.
As conversas foram divulgadas pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles, e fazem parte do material apreendido pela Polícia Federal. A própria PF informou oficialmente ao STF, em 13 de setembro, que mantém sob sua custódia o material original extraído do aparelho de Vorcaro, com cadeia de custódia formalmente documentada.
Em uma das conversas, uma mulher identificada como Rayanna combina com Vorcaro um encontro com mulheres. Em 28 de fevereiro de 2025, ela pergunta o endereço e informa que “as meninas estão prontas”. Dias depois, em 7 de março, retoma o assunto e afirma que uma amiga “ficou com o Kassio”. Na sequência, diz que a mulher estaria cobrando R$ 10 mil e recebe de Vorcaro um pedido para enviar os dados e o valor para pagamento.
O contexto da conversa levou a reportagem a associar a referência ao ministro Kassio Nunes Marques. Procurado, o ministro negou ter se encontrado com a mulher mencionada nas mensagens. As conversas, isoladamente, não comprovam que o encontro tenha ocorrido, tampouco demonstram pagamento ao ministro ou qualquer participação dele em eventual acerto financeiro.
VIAGEM TAMBÉM APARECE NAS MENSAGENS
Outro conjunto de mensagens, sem relação direta estabelecida com a conversa sobre a mulher, registra o número de telefone de Nunes Marques no aparelho de Vorcaro.
Em dezembro de 2024, uma mensagem atribuída ao ministro foi enviada a Leonardo Serrano Giunchetti, responsável pela organização de viagens de Vorcaro. No texto, Nunes Marques solicita auxílio para organizar uma viagem de aproximadamente dez dias para cinco pessoas, entre 8 e 18 de janeiro.
Na sequência, Giunchetti questiona Vorcaro sobre a forma de atendimento: pergunta se a demanda havia sido encaminhada por ele e se deveria atender o cliente independentemente ou “faturar” a operação para o banqueiro.
As mensagens, segundo a reportagem que revelou o conteúdo, não esclarecem por si só quem efetivamente pagou a viagem ou se houve qualquer benefício financeiro concedido ao ministro.
FILHO DO MINISTRO TAMBÉM É CITADO
As novas revelações ocorrem em meio a outro conjunto de mensagens envolvendo Kevin Marques, filho de Nunes Marques.
Segundo informações publicadas pela Folha, diálogos entre Vorcaro e Luiz Rennó Netto, então diretor jurídico do Banco Master, mencionam pagamentos ao advogado. Em determinado trecho, Rennó fala em R$ 500 mil mensais.
A defesa de Kevin Marques afirma que ele prestou serviços jurídicos para a empresa Consult Inteligência Tributária e recebeu R$ 281,6 mil. A defesa nega vínculo profissional com Vorcaro ou com o Banco Master.
A assessoria de Nunes Marques também nega que o ministro ou seu filho tenham recebido dinheiro de Vorcaro. O ministro afirmou ainda que nunca votou em favor do Banco Master.
NUNES MARQUES FOI IMPEDIDO DE PARTICIPAR DO JULGAMENTO
O assunto ganhou uma consequência institucional. Na sessão do STF de 15 de setembro de 2026, a Corte registrou oficialmente Nunes Marques como impedido no processo relacionado ao caso Master.
Na mesma sessão, o ministro Dias Toffoli declarou suspeição. O STF também determinou a reunião de processos relacionados ao caso e estabeleceu que sejam identificados os magistrados mencionados nos autos sobre os quais existam indícios de recebimento de valores indevidos, com posterior abertura de prazo para manifestações.
A medida, entretanto, não representa uma conclusão de que Nunes Marques tenha cometido irregularidade. Impedimento processual e comprovação de ilícito são questões distintas.
O QUE JÁ ESTÁ OFICIALMENTE ESTABELECIDO
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, apontando grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas que regem as instituições do Sistema Financeiro Nacional.
Desde então, a Polícia Federal conduz diferentes etapas da Operação Compliance Zero. Em julho de 2026, a PF informou que as investigações também alcançavam suspeitas de organização criminosa, intimidação de jornalistas, monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades e obtenção indevida de informações sigilosas.
O conteúdo do celular de Vorcaro passou a ocupar papel central na apuração. Em setembro, a própria Polícia Federal esclareceu ao STF que o material original permanece sob sua guarda e que cópias dos dados foram encaminhadas a gabinetes de ministros mediante solicitações e observadas as cautelas relacionadas ao sigilo.
As novas mensagens, portanto, ampliam o conjunto de relações que está sendo examinado pelas autoridades, mas não equivalem, por si só, a prova de favorecimento, pagamento irregular ou tráfico de influência.
O que cabe agora é esclarecer a natureza dos contatos, eventuais pagamentos, serviços prestados e a existência — ou não — de relação entre essas circunstâncias e decisões tomadas no âmbito do Judiciário.
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