O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles defendeu nesta terça-feira (1º) a adoção de um ajuste fiscal “agora e muito sério” no Brasil e afirmou que o país precisa alinhar suas políticas fiscal e monetária para criar condições mais favoráveis ao crescimento sustentável. A declaração foi feita durante o seminário “Rumos da Economia”, promovido pelo Lide, em São Paulo.
Na avaliação de Meirelles, o atual cenário combina uma política fiscal expansionista com uma política monetária contracionista. Segundo ele, esse descompasso contribui para a necessidade de manutenção de juros elevados como instrumento de combate às pressões inflacionárias. Para o ex-ministro, o controle das contas públicas é, no curto prazo, o principal caminho para reduzir esse desequilíbrio.
“A única saída agora, de fato, é o controle fiscal”, afirmou Meirelles durante o evento.
O diagnóstico apresentado pelo ex-presidente do Banco Central ocorre em um momento no qual as contas públicas continuam sob pressão. O Prisma Fiscal divulgado pelo Ministério da Fazenda em julho apontava mediana de déficit primário do Governo Central de R$ 58,077 bilhões para 2026. Naquele momento, a projeção para 2027 também indicava déficit, de R$ 53,878 bilhões.
Ao mesmo tempo, o Ministério da Fazenda mantinha, em seu Boletim Macrofiscal de julho, a projeção de crescimento de 2,3% para a economia brasileira em 2026. O documento, porém, elevou de 4,5% para 5,1% a estimativa para a inflação medida pelo IPCA.
Para Meirelles, entretanto, o ajuste fiscal não resolve sozinho o problema estrutural da economia brasileira. Na avaliação do ex-ministro, o país também precisa enfrentar a baixa produtividade, considerada um dos principais obstáculos para sustentar taxas maiores de crescimento no longo prazo.
A preocupação ganha relevância diante dos dados mais recentes sobre a atividade econômica. O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores, abaixo da expansão de 1,1% registrada no primeiro trimestre. O resultado anualizado mostrou crescimento de 2%, enquanto o consumo das famílias recuou 0,4% no período.
O cenário coloca dois desafios simultâneos para a economia: melhorar a trajetória das contas públicas e elevar a capacidade de produção do país. O primeiro está relacionado ao equilíbrio entre receitas e despesas do governo; o segundo depende de fatores estruturais, como investimentos, eficiência, qualificação da mão de obra, infraestrutura e ambiente de negócios.
A defesa de maior produtividade não é uma novidade no pensamento econômico de Meirelles. Em pronunciamento registrado pelo Banco Central, ele já havia destacado que, no longo prazo, são os ganhos de produtividade que condicionam o crescimento econômico e que a estabilidade macroeconômica é necessária para criar condições para investimentos e expansão sustentável.
O debate sobre o ajuste fiscal ganhou ainda mais espaço no cenário econômico brasileiro nas últimas semanas. Em encontro com empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, também defendeu que a responsabilidade pelo equilíbrio das contas públicas seja compartilhada entre União, estados, municípios e demais Poderes. Ele citou, entre outros pontos, emendas parlamentares, despesas do Judiciário e deterioração das contas estaduais.
A discussão, portanto, não se limita à oposição ou a um único setor do mercado. Economistas e integrantes do próprio governo apresentam diferentes diagnósticos e propostas sobre como melhorar a situação fiscal. A divergência está principalmente na intensidade do ajuste, na composição das medidas e na forma de conciliar equilíbrio das contas públicas com crescimento econômico e políticas sociais.
A declaração de Meirelles ocorre também em um contexto eleitoral, no qual economia, juros, inflação, dívida pública e capacidade de investimento do Estado devem ocupar espaço crescente no debate nacional. Por isso, suas afirmações devem ser compreendidas como uma avaliação de um ex-ministro e ex-presidente do Banco Central, e não como uma decisão ou orientação oficial do atual governo ou do Banco Central.
O alerta central deixado pelo economista é direto: para Meirelles, o Brasil precisa enfrentar simultaneamente o desequilíbrio fiscal no curto prazo e a baixa produtividade no longo prazo. Sem avanços nessas duas frentes, segundo sua avaliação, o crescimento econômico tende a encontrar limites.
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