Na região de Rio Real, produtores relatam que a tonelada chegou a R$ 250, cerca de 70% abaixo do valor registrado no mesmo período do ano passado; governos estudam medidas para evitar perdas na safra
A citricultura do Nordeste atravessa uma das fases mais delicadas dos últimos anos. Na região de Rio Real, no extremo nordeste da Bahia, na divisa com Sergipe, produtores de laranja estão se mobilizando para enfrentar a forte queda no preço pago pela fruta e a dificuldade de comercialização da produção.
O problema não é recente. Segundo representantes dos produtores, a crise se intensificou desde 2023, quando compradores do Sudeste passaram a recompor estoques, reduzindo a demanda pela produção destinada à indústria.
Com os custos de produção praticamente mantidos, a queda ocorreu principalmente no valor recebido pelos agricultores. Na safra atual, a tonelada da laranja chegou a R$ 250, aproximadamente 70% abaixo do valor obtido no mesmo período do ano passado, segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de Rio Real.
Laranja doada na beira da BR-101
A situação chegou a um ponto em que produtores realizaram um protesto às margens da BR-101, em Rio Real, distribuindo laranjas à população.
O gesto teve como objetivo chamar atenção para o paradoxo enfrentado pelo setor: enquanto o consumidor encontra a fruta no comércio, agricultores afirmam que estão tendo dificuldades para conseguir compradores que remunerem a produção acima dos custos.
A mobilização também ganhou dimensão regional. Produtores baianos pretendem se unir a agricultores sergipanos em um novo movimento, que poderá ocorrer em setembro.
A realização do ato, entretanto, ainda depende de uma reunião prevista para 4 de setembro, quando os produtores deverão definir os próximos passos.
Bahia produz, mas indústria está do outro lado da divisa
Um dos principais problemas apontados pelos produtores é a falta de estrutura industrial na região.
O Norte da Bahia e o Sul de Sergipe formam um importante polo de produção de laranja no Nordeste, mas as unidades industriais com capacidade para processar a fruta estão concentradas no lado sergipano da divisa.
Isso significa que parte relevante da produção baiana precisa percorrer maiores distâncias até chegar à indústria.
Para os agricultores, a ausência de uma agroindústria em Rio Real aumenta a dependência de compradores externos e eleva os custos logísticos.
A instalação de uma unidade de processamento na região é, por isso, uma das principais reivindicações apresentadas ao governo baiano.
Produtores querem medidas emergenciais
Além da criação de uma estrutura industrial, os produtores apresentaram uma série de reivindicações.
Entre elas estão:
- inclusão da laranja na merenda escolar da rede estadual;
- criação de um espaço específico na Ceasa para comercialização direta por cooperativas;
- renegociação das dívidas dos produtores;
- compra de estoques pelo governo federal;
- criação de alternativas para processamento da fruta;
- melhoria das condições de escoamento da produção.
A preocupação é que a demora na adoção das medidas faça com que parte da produção simplesmente se perca no campo.
Como a safra atual está chegando ao fim, o fator tempo é decisivo.
Governo da Bahia articula medidas
A Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia (Seagri) informou que está articulando medidas emergenciais com o governo federal, parlamentares, municípios e representantes do setor produtivo.
Segundo a secretaria, a Bahia foi incluída entre os estados beneficiados por uma medida federal que destinou aproximadamente R$ 10 milhões para ações emergenciais de apoio à citricultura nacional.
Os recursos estão relacionados à Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), com mecanismos operacionalizados por meio de leilões públicos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O objetivo é melhorar a remuneração dos produtores diante da queda dos preços.
A Seagri também informou que trabalha para viabilizar a renegociação das dívidas dos produtores junto ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal, mediante a inclusão da citricultura em medidas federais de apoio.
Projeto-piloto pode transformar laranja em suco para merenda escolar
Uma das alternativas estudadas pelo governo baiano é utilizar parte da produção na própria rede estadual de ensino.
A proposta prevê a aquisição de máquinas extratoras para permitir a produção de suco de laranja destinado à alimentação escolar.
Segundo a Seagri, a iniciativa deverá começar como projeto-piloto, podendo posteriormente ser ampliada.
A estratégia teria dois objetivos simultâneos: criar um novo mercado para os produtores e ampliar o consumo de produtos da agricultura regional na alimentação escolar.
A secretaria também informou que trabalha para disponibilizar um box na Ceasa para que cooperativas possam comercializar diretamente a fruta.
Conab reconhece desequilíbrio entre produção e processamento
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reconheceu a existência de um desequilíbrio entre a oferta de laranja e a capacidade regional de processamento.
Segundo a companhia, a situação é agravada pela recomposição dos estoques de suco de laranja e pela recuperação ainda lenta da demanda externa.
Esse cenário mantém os preços da fruta destinada à indústria abaixo do preço mínimo estabelecido para produtores da Bahia e de outros estados.
Para enfrentar o problema no curto prazo, a Conab aponta mecanismos como o Prêmio para o Escoamento de Produto (PEP) e o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro).
Esses instrumentos permitem conceder um prêmio à indústria que compra a produção ou diretamente ao produtor ou à cooperativa, de modo a contribuir para que o agricultor receba o preço mínimo.
Uma crise que ameaça toda uma cadeia produtiva
O problema vai muito além do agricultor que cultiva a laranja.
A citricultura movimenta uma cadeia que envolve trabalhadores rurais, transportadores, comerciantes, fornecedores de insumos, cooperativas e indústrias.
Em Rio Real, onde a atividade possui forte importância econômica, uma crise prolongada pode atingir diretamente a renda de famílias e o comércio local.
A própria Câmara Municipal de Rio Real já registrou preocupação com as dificuldades enfrentadas pelos produtores, incluindo preços baixos, dificuldades de venda, prazos longos para recebimento e aumento de custos com frete e combustível.
Bahia precisa deixar de ser apenas produtora?
A crise também expõe uma questão estrutural.
A Bahia possui tradição na produção de citros, mas a falta de capacidade industrial suficiente na região produtora limita a agregação de valor à fruta.
Em vez de vender somente a matéria-prima, uma estrutura de processamento poderia permitir que parte da produção fosse transformada em suco e outros derivados, criando novas oportunidades econômicas.
A própria Seagri informou que está trabalhando na atração de uma agroindústria para o processamento da laranja no Estado.
Esse pode ser um dos pontos mais importantes da discussão.
A crise atual pode ser encarada apenas como uma emergência de preço ou como uma oportunidade para a Bahia corrigir uma fragilidade histórica de sua cadeia produtiva.
Produtores podem realizar paralisação em setembro
Caso haja consenso na reunião marcada para 4 de setembro, produtores baianos e sergipanos poderão realizar uma mobilização conjunta em território sergipano.
A possibilidade de paralisação está relacionada justamente ao fluxo de caminhões que transportam a produção baiana em direção às indústrias localizadas em Sergipe.
A estratégia pretende pressionar governos e setor industrial por respostas mais rápidas.
Safra chegando ao fim aumenta urgência
O relógio corre contra os produtores.
Com a safra chegando ao final de agosto, qualquer demora na implementação das medidas pode resultar em perdas irreversíveis.
A preocupação relatada pelos agricultores é que a fruta permaneça nas árvores sem comprador, levando ao desperdício de uma produção que já consumiu água, mão de obra, fertilizantes, defensivos, combustível e outros insumos.
Por isso, a discussão não é apenas sobre o preço da laranja.
É sobre quem absorverá o prejuízo de uma cadeia produtiva que continua produzindo, mas encontrou dificuldade para transformar produção em renda.
O desafio é transformar emergência em política permanente
A resposta imediata é necessária para impedir que produtores abandonem os pomares ou acumulem novas dívidas.
Mas o problema estrutural exige medidas de longo prazo.
A criação de uma agroindústria regional, fortalecimento das cooperativas, ampliação dos canais de comercialização, utilização da produção na alimentação escolar e melhoria da logística poderiam reduzir a dependência dos agricultores de poucos compradores.
A proposta de criação de uma Comissão de Enfrentamento à Crise da Citricultura também está sendo discutida pela Seagri, com o objetivo de acelerar a articulação entre poder público e setor produtivo.
Uma fruta barata pode esconder uma crise cara
A imagem de produtores distribuindo laranjas gratuitamente às margens de uma rodovia é simbólica.
Para quem passa pela BR-101, pode parecer apenas uma oportunidade de levar fruta para casa.
Para quem plantou, cuidou e esperou pela safra, porém, aquela laranja representa meses de trabalho e investimento que podem não retornar ao produtor.
A crise da citricultura baiana e sergipana mostra que produzir muito não basta.
É preciso garantir mercado, preço, processamento, logística e capacidade de agregar valor à produção.
E, nesse ponto, a crise atual pode representar não apenas uma emergência a ser combatida, mas também uma oportunidade para Bahia e Sergipe repensarem conjuntamente o futuro de uma das principais cadeias agrícolas da região.
O Portal Vilela 24hs continuará acompanhando as negociações entre produtores, governos e órgãos federais e as medidas que forem adotadas para evitar novas perdas na citricultura baiana.
