Cenário eleitoral em Itabuna começa a mudar: primeira-dama reúne estrutura política, força do grupo municipal e apoio de uma sigla organizada, enquanto deputado tenta recuperar confiança de lideranças e consolidar novamente sua imagem como principal nome popular da oposição
A disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa da Bahia começa a ganhar contornos mais definidos em Itabuna. O lançamento da candidatura de Andréa Castro, pelo PSD, na última sexta-feira (21), não representa apenas a entrada de mais um nome na corrida eleitoral. O ato, que segundo a organização reuniu mais de 8 mil pessoas, expôs a capacidade de mobilização do grupo liderado pelo prefeito Augusto Castro e colocou a primeira-dama diante de uma oportunidade política concreta: transformar a força construída pelo governo municipal em uma candidatura competitiva não apenas em Itabuna, mas também em outros municípios do sul da Bahia. O evento reuniu prefeitos, vereadores, lideranças políticas e representantes de diferentes setores, entre eles o deputado federal Paulo Magalhães, o prefeito Augusto Castro, o vice-prefeito Júnior Brandão e o reitor da UESC, Alessandro Fernandes.
O crescimento de Andréa, porém, não pode ser explicado apenas pelo tamanho de um evento. Existe uma combinação política mais ampla por trás da candidatura. A primeira-dama parte de uma posição privilegiada dentro de um grupo que controla a Prefeitura de Itabuna, possui uma legenda nacionalmente estruturada e vem construindo alianças com diferentes setores políticos. Além disso, Augusto Castro chega ao segundo mandato depois de ter sido reeleito em 2024 com 65.329 votos, equivalentes a 58,95% dos votos válidos, enquanto seu principal adversário naquela eleição, Pancadinha, terminou em segundo lugar com 29.620 votos.
Há ainda um elemento que não pode ser ignorado: a avaliação política sobre o atual ciclo administrativo de Itabuna. Independentemente das críticas que possam existir à gestão municipal, há obras e investimentos objetivos que permitem ao grupo de Augusto Castro apresentar resultados concretos. O município recebeu investimentos em saneamento, saúde, infraestrutura e urbanização, enquanto a parceria com os governos estadual e federal trouxe intervenções como a ampliação do Hospital de Base, investimentos no sistema de abastecimento de água e obras de infraestrutura. O Governo da Bahia informou, por exemplo, ter aplicado mais de R$ 342 milhões em Itabuna entre 2023 e 2025 em áreas como educação, saúde, infraestrutura e segurança.
Esse ambiente também favorece politicamente Andréa porque a candidatura pode ser apresentada como uma extensão de um grupo que pretende dar continuidade a uma agenda de investimentos. O Governo do Estado, comandado por Jerônimo Rodrigues, mantém uma forte presença em Itabuna e na região, com obras e investimentos em saúde, abastecimento, mobilidade e infraestrutura. Em março de 2025, por exemplo, o Estado anunciou investimentos de R$ 7,9 milhões na ampliação do sistema de abastecimento que beneficia diretamente cerca de 214 mil pessoas, além de intervenções no Hospital de Base e outras unidades de saúde.
É justamente nesse ponto que aparece o principal problema político de Fabrício Pancadinha. O deputado continua tendo patrimônio eleitoral e não pode ser tratado como um candidato sem força. Em 2022, foi eleito deputado estadual com 27.338 votos, sendo 23.531 somente em Itabuna. Dois anos depois, mesmo derrotado por ampla margem na eleição para prefeito, ampliou sua votação nominal na cidade para 29.620 votos. Esses números mostram que existe uma base real e que Pancadinha mantém capacidade de mobilização, especialmente entre setores populares.
O problema está menos no tamanho da votação passada e mais na trajetória política construída desde então. Pancadinha chegou à Assembleia como uma liderança de oposição e com uma imagem associada à independência diante dos grupos tradicionais. Ao longo do mandato, entretanto, seu posicionamento político passou por diferentes aproximações e reposicionamentos. Em momentos distintos, esteve próximo de forças políticas adversárias entre si, transitando entre espaços ligados ao grupo de Rui Costa e ao campo político de ACM Neto. A recente mudança para o PDT e a aproximação com a base do governador Jerônimo Rodrigues reforçam essa característica de uma trajetória marcada por mudanças de alinhamento.
Essa movimentação pode ser estrategicamente compreensível em uma eleição estadual, mas cobra um preço quando o político precisa convencer lideranças locais de que seus compromissos são previsíveis e duradouros. Nos bastidores da política de Itabuna, outro fator que pesa contra Pancadinha é o desgaste provocado por insatisfações de lideranças que esperavam maior reciprocidade na construção de alianças e no cumprimento de compromissos políticos. Não se trata de afirmar que todos os acordos tenham sido rompidos ou que todas as lideranças estejam contra o deputado, mas de reconhecer que a capacidade de articulação de Pancadinha já não parece ter a mesma facilidade de 2022.
O episódio envolvendo o Mobiliza Itabuna é um exemplo desse processo de perda de aliados. O reposicionamento partidário de Pancadinha ampliou sua aproximação com o grupo governista estadual, mas também produziu rupturas políticas locais. Na prática, ele ganhou uma porta de entrada em uma estrutura maior, mas precisou pagar por isso com a necessidade de reconstruir parte de sua antiga rede de alianças. É uma equação delicada: ampliar espaço junto ao poder estadual sem perder a identidade política que ajudou a construir sua votação em Itabuna.
Andréa Castro, por outro lado, começa sua caminhada eleitoral em circunstâncias diferentes. Não precisa construir do zero uma estrutura política em Itabuna. Ela parte da condição de primeira-dama, da associação direta com o prefeito reeleito, de uma legenda com estrutura e da presença de aliados políticos com influência estadual e federal. Seu desafio é outro: transformar a força do grupo municipal em uma votação regional suficientemente ampla para garantir uma cadeira na Assembleia.
É justamente aí que a eleição começa a ficar interessante. Pancadinha possui uma vantagem que Andréa ainda precisa conquistar: votos comprovados em uma eleição estadual. Seus 27.338 votos de 2022 foram suficientes para elegê-lo, e mais de 23 mil vieram de Itabuna. Andréa ainda precisa demonstrar que consegue transformar a força política do grupo Castro em votos próprios. O tamanho do lançamento é um indicativo de estrutura e mobilização, mas não equivale automaticamente a votos.
A diferença é que, desta vez, Pancadinha não disputa apenas contra uma candidata. Ele enfrenta uma estrutura política. Andréa representa um grupo que venceu a eleição municipal de 2024 com ampla vantagem, mantém a Prefeitura, possui articulação com o PSD e conta com um ambiente de investimentos públicos que pode ser utilizado eleitoralmente como argumento de continuidade. Pancadinha, por sua vez, precisa convencer o eleitor de que sua trajetória parlamentar produziu resultados e, principalmente, recuperar a confiança de lideranças que podem ser decisivas para ampliar sua votação para além do núcleo tradicional que o acompanha.
Por isso, o cenário atual não autoriza afirmar que Andréa Castro já seja favorita nem que Pancadinha esteja fora da disputa. Seria precipitado. O que os fatos permitem afirmar é algo mais relevante: a eleição mudou de configuração. Pancadinha deixou de ser o nome naturalmente associado à principal força eleitoral de oposição em Itabuna e agora precisa disputar espaço com uma candidata que chega respaldada por uma estrutura municipal vencedora, por um partido organizado e por uma rede política que reúne Prefeitura, aliados estaduais e lideranças regionais.
A eleição, portanto, tende a ser menos uma disputa entre dois nomes e mais um teste sobre duas formas diferentes de construir força política. Pancadinha terá de provar que sua votação pessoal continua maior que o desgaste acumulado por seus sucessivos reposicionamentos e pelas dificuldades na manutenção de alianças. Andréa terá de provar que a força do grupo Castro pode ser convertida em votos próprios e que sua candidatura consegue ultrapassar os limites da condição de primeira-dama.
O que já está evidente é que Andréa entrou no jogo em uma posição mais confortável do que aquela que muitos imaginavam. E Pancadinha, embora ainda tenha uma base eleitoral relevante, terá talvez a eleição mais difícil de sua trajetória política: não apenas conquistar votos, mas recuperar confiança, reconstruir alianças e convencer o eleitor de que continua sendo uma liderança capaz de representar Itabuna na Assembleia Legislativa.
