A estratégia de segurança adotada pelo presidente Nayib Bukele em El Salvador vem ganhando espaço no debate político brasileiro, mas o cientista político canadense Robert Muggah, especialista em segurança pública e violência urbana, avalia que simplesmente reproduzir o modelo salvadorenho não seria suficiente para desmontar organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Muggah é doutor pela Universidade de Oxford e cofundador do Instituto Igarapé, centro de estudos brasileiro voltado, entre outros temas, à segurança pública e à violência. A comparação feita pelo especialista parte de uma diferença fundamental: as principais facções brasileiras possuem alcance, escala e estruturas financeiras muito mais complexas que as gangues enfrentadas pelo governo salvadorenho.
Em El Salvador, a Mara Salvatrucha, conhecida como MS-13, e a Barrio 18 possuem forte atuação territorial, especialmente por meio da extorsão, do controle de bairros e do tráfico regional. Já PCC e CV funcionam em redes muito mais amplas, com presença no sistema prisional, no tráfico internacional de drogas, em operações logísticas e em esquemas de lavagem de dinheiro.

Na avaliação de Muggah, as facções brasileiras se aproximam mais do funcionamento de grandes organizações empresariais criminosas do que de gangues tradicionais. Por isso, prender milhares de pessoas indiscriminadamente, como ocorreu em El Salvador, poderia não atingir o centro financeiro e operacional dessas organizações.
Outro obstáculo é a própria estrutura do Brasil. El Salvador é um país pequeno e centralizado, enquanto o território brasileiro é continental e possui um sistema federativo no qual Estados e União dividem responsabilidades na área de segurança pública. Além do PCC e do CV, existem dezenas de facções regionais e milícias.
O especialista alerta ainda para o chamado “efeito balão”: quando uma organização criminosa sofre forte pressão em determinado território, suas atividades podem simplesmente migrar para outras regiões ou mercados ilícitos.
Para Muggah, uma estratégia realmente capaz de enfraquecer o crime organizado no Brasil exigiria prisões direcionadas, inteligência policial, integração entre Estados e União, controle das fronteiras e, principalmente, o ataque ao patrimônio e ao dinheiro das organizações criminosas.
A conclusão é direta: o modelo de força que reduziu drasticamente a violência em El Salvador não pode ser simplesmente copiado no Brasil. Para enfrentar PCC e CV, não basta prender mais — é preciso descobrir, atingir e desmontar a estrutura que mantém o crime funcionando.
PORTAL VILELA 24HS — CONTRA O CRIME ORGANIZADO, FORÇA SEM INTELIGÊNCIA PODE SER APENAS UM DESLOCAMENTO DO PROBLEMA.
