
A comparação entre Havan e Magazine Luiza revela uma das maiores armadilhas do varejo: vender muito não significa, necessariamente, ganhar muito.
No mundo dos negócios, existe uma diferença fundamental entre parecer grande e ser financeiramente eficiente. O faturamento chama atenção, movimenta manchetes e alimenta a sensação de crescimento. Mas é o lucro acompanhado de caixa, margem e capacidade de pagamento que determina se uma operação está realmente criando valor.
Os resultados de 2025 de duas das maiores empresas do varejo brasileiro ajudam a ilustrar essa diferença.
A Havan encerrou o ano com receita líquida de R$ 13,7 bilhões, crescimento de 16,4%. Segundo a Forbes, o lucro líquido chegou a R$ 3,45 bilhões, alta de 28,1% sobre 2024. A companhia também informou que encerrou o ano após reduzir passivos, melhorar a qualidade da carteira de crédito e passar a operar com dinheiro em caixa.
O Magazine Luiza, por sua vez, apresentou uma receita líquida muito superior: R$ 38,7 bilhões em 2025. O valor representa quase três vezes a receita da Havan. Entretanto, o lucro líquido foi de R$ 204,6 milhões, com margem líquida de apenas 0,5%.
Isso não significa que o Magazine Luiza seja uma empresa pior. E esse é justamente o ponto que precisa ser compreendido.
As duas companhias possuem modelos de negócio diferentes, estruturas distintas e estratégias próprias. O Magalu opera um ecossistema que envolve lojas físicas, comércio eletrônico, marketplace, logística, serviços financeiros e tecnologia. Em 2025, suas vendas totais chegaram a R$ 64,7 bilhões, considerando o ecossistema.
A Havan, por outro lado, concentra grande parte de sua operação nas lojas físicas. Cerca de 95% das vendas da companhia ainda são realizadas nesse canal, segundo informações divulgadas pela empresa à Forbes.
Portanto, não é possível concluir que uma empresa é melhor simplesmente porque apresentou lucro maior. Mas é perfeitamente possível extrair uma lição importante para pequenos e médios empresários.
Vender mais não significa necessariamente ganhar mais
Imagine uma loja que fatura R$ 1 milhão por mês, mas termina o período sem dinheiro no caixa.
Agora imagine outra que fatura R$ 500 mil e consegue gerar lucro, preservar capital de giro e manter dinheiro disponível para pagar fornecedores, investir e atravessar períodos difíceis.
Qual delas está realmente crescendo?
A resposta está menos no tamanho da venda e mais na qualidade do resultado.
Uma empresa pode aumentar o faturamento oferecendo descontos excessivos, ampliando prazos, assumindo custos maiores, pagando mais caro para conquistar clientes ou aumentando despesas administrativas.
No papel, as vendas sobem.
No caixa, porém, a história pode ser completamente diferente.
É por isso que empresários precisam acompanhar indicadores como margem líquida, margem bruta, EBITDA, geração de caixa, endividamento, capital de giro e retorno sobre o capital investido.
O faturamento mostra o tamanho da operação.
A margem mostra quanto daquela operação realmente fica para a empresa.
O perigo de crescer sem margem
O cenário do varejo brasileiro torna essa discussão ainda mais importante.
Juros elevados, crédito mais restritivo, inadimplência, concorrência digital e consumidores mais sensíveis a preço pressionam as margens das empresas.
O próprio Magazine Luiza reconheceu a necessidade de reduzir o ritmo em categorias de comércio eletrônico consideradas menos rentáveis. A companhia afirmou que algumas operações chegaram a apresentar margem de contribuição negativa, levando a uma estratégia de maior disciplina de rentabilidade.
Essa é uma questão que não diz respeito apenas às grandes redes.
Ela chega à pequena loja de bairro, ao supermercado, à boutique, ao restaurante, à distribuidora, ao comércio de materiais de construção e ao prestador de serviços.
Não adianta vender mais se cada venda deixa pouco dinheiro ou, pior, gera prejuízo.
O empresário que olha somente para o faturamento pode comemorar enquanto sua empresa perde capacidade financeira.
O empresário que acompanha margem, lucro e caixa enxerga o que realmente está acontecendo.
A verdadeira pergunta
Talvez a pergunta mais importante para um empresário não seja:
“Quanto minha empresa vendeu?”
Mas:
“Quanto do que vendi realmente se transformou em riqueza para o negócio?”
Essa mudança de perspectiva pode separar crescimento saudável de crescimento artificial.
Faturamento alimenta o ego.
Lucro constrói patrimônio.
E caixa dá à empresa algo que nenhum recorde de vendas consegue garantir sozinho: sobrevivência, segurança e capacidade de continuar crescendo.
Portal Vilela 24hs | Economia
Os números apresentados referem-se aos resultados de 2025. As empresas possuem modelos de negócio diferentes, portanto a comparação deve ser interpretada como uma análise de indicadores de rentabilidade, e não como um ranking absoluto de eficiência empresarial.