É ali que começa a verdadeira discussão sobre o futuro de Ilhéus.
Há dias em que uma fotografia vale mais do que um discurso político.
Foi exatamente isso que fez José Nazal.
Ao recordar os quarenta anos da reinauguração do Teatro Municipal de Ilhéus em um Grupo de WhatsApp, ele não publicou apenas uma lembrança.
Publicou um alerta.
Um alerta silencioso.
Mas devastador.
Porque basta sair da porta do Teatro Municipal e caminhar poucos metros.
Não precisa carro.
Não precisa mapa.
Não precisa GPS.
Comece pela Catedral de São Sebastião.
Olhe à sua esquerda.
Ali está o histórico Vesúvio.
Siga pela esquina.
Você encontrará o Bataclan.
Volte à praça do Teatro.
Atravesse a rua.
Entre no Quarteirão Jorge Amado.
Passe pela Casa de Jorge Amado.
Continue caminhando entre os antigos casarões.
Ao final desse percurso, você estará diante do Palácio Paranaguá.
Se dobrar a esquina, encontrará a antiga Igreja de São Jorge dos Ilhéus.
Do outro lado, o histórico Palacete Misael Tavares.
Em poucos metros, você percorreu séculos de história.
Talvez o conjunto urbano, cultural e arquitetônico mais importante do interior da Bahia.
Talvez um dos mais importantes do Brasil.
Agora olhe novamente.
Veja com atenção.
Ali está a resposta para uma pergunta que Ilhéus evita fazer há décadas.
Por que uma cidade com tanta história consegue cuidar tão pouco da própria memória?
José Nazal nos lembrou do Teatro.
Eu convido você a caminhar mais um quarteirão.
Porque é justamente ali que começa o verdadeiro debate.
O Teatro Municipal continua de pé.
Quarenta anos depois da grande reconstrução realizada no primeiro governo do então prefeito Jabes Ribeiro, o prédio permanece preservado.
E isso precisa ser reconhecido.
Foi uma obra que atravessou gerações.
Naquela noite de 10 de julho de 1986, quando o Balé Corpo inaugurou o novo palco, Ilhéus não comemorava apenas uma reforma.
Comemorava uma visão de cidade.
Comemorava um governo que compreendia que cultura não era gasto.
Era investimento.
Era desenvolvimento.
Era identidade.
Hoje, o Teatro resiste.
Mas lhe falta aquilo que faz qualquer teatro existir.
Espetáculos.
Temporadas.
Companhias.
Festivais.
Música.
Dança.
Formação artística.
Plateia.
Prédio vazio também envelhece.
Não pela infiltração.
Mas pelo silêncio.
Se o Teatro sobreviveu graças a uma decisão política tomada quarenta anos atrás, o mesmo não se pode dizer do Palácio Paranaguá.
Ali a situação é infinitamente mais preocupante.
Estamos diante de um dos edifícios públicos mais importantes da história da Bahia.
O coração político da antiga Capitania de Ilhéus.
Um patrimônio que deveria ser orgulho da cidade.
Mas que hoje convive com infiltrações, deterioração, abandono e sucessivos adiamentos.
E talvez esteja justamente ali a maior oportunidade perdida da história recente de Ilhéus.
Pouca gente lembra.
Mas houve um tempo em que existia um projeto.
Mais do que isso.
Existia uma visão.
Durante a gestão do ex-prefeito Jabes Ribeiro foi concebida a proposta de construir uma nova sede administrativa para a Prefeitura, permitindo que o histórico Palácio Paranaguá deixasse de funcionar como repartição pública e se transformasse no tão sonhado Museu da Capitania.
Que ideia extraordinária.
Não seria apenas um museu.
Seria um novo eixo turístico.
Um centro de memória.
Um equipamento cultural.
Um espaço para estudantes, pesquisadores e visitantes.
Uma extensão natural do roteiro formado pelo Teatro Municipal, Casa de Jorge Amado, Catedral, Bataclan, Igreja de São Jorge, Palacete Misael Tavares e tantos outros patrimônios concentrados em poucos quarteirões.
Era um projeto de cidade.
Não apenas de governo.
O cenário estava preparado.
Mas o tempo passou.
Os governos mudaram.
As prioridades mudaram.
E o projeto ficou esquecido em alguma gaveta da burocracia.
Quem perdeu?
Jabes?
Não.
Quem perde há décadas é Ilhéus.
Enquanto isso, cidades com patrimônio histórico infinitamente menor compreenderam aquilo que nós ainda insistimos em ignorar.
Patrimônio histórico gera riqueza.
Gera turismo.
Gera emprego.
Gera identidade.
Itacaré recebe visitantes praticamente o ano inteiro.
Ilhéus, dona da primeira Capitania Hereditária do Brasil, da terra de Jorge Amado, do cacau, das novelas, da literatura e de um dos centros históricos mais ricos do Nordeste, continua dependendo da alta estação para movimentar sua economia.
Não é falta de potencial.
É falta de visão.
Não falta história.
Falta projeto.
Estamos nos aproximando dos 500 anos de Ilhéus.
Cinco séculos.
É uma data que deveria mobilizar toda a cidade.
Durante a campanha eleitoral, o atual prefeito chegou a anunciar a instalação de um relógio de contagem regressiva para essa celebração, inspirado em iniciativas adotadas por outras cidades históricas.
A ideia simbolizava um convite para preparar Ilhéus para esse marco.
Até agora, porém, ela não saiu do papel.
É verdade que recentemente foi entregue a requalificação da Casa de Jorge Amado.
É um avanço.
Mas Ilhéus precisa pensar maior.
Muito maior.
Restaurar patrimônio exige recursos.
Ninguém ignora isso.
Mas também exige liderança.
Projetos.
Captação de investimentos.
Parcerias público-privadas.
Leis de incentivo.
Editais.
Patrocínio cultural.
O próprio Bataclan demonstra que, quando o poder público e a iniciativa privada caminham juntos, o resultado pode transformar um patrimônio histórico em um equipamento vivo, turístico e economicamente sustentável.
Então por que não ampliar essa lógica?
Por que não fazer do Palácio Paranaguá o Museu da Capitania que Ilhéus sonha há tantos anos?
Por que não devolver protagonismo ao Teatro Municipal com uma programação permanente?
Por que não recuperar a Biblioteca Pública, hoje inexistente, em uma cidade que se orgulha de ser berço de escritores e inspiração da literatura brasileira?
Talvez José Nazal tenha feito mais do que publicar uma fotografia.
Talvez tenha lançado um desafio.
Um desafio ao atual prefeito.
Ao governador.
Aos deputados.
Aos senadores.
E também àqueles que já percorrem a Bahia em busca do voto nas eleições de 2026.
Assumam um compromisso público.
Não com um partido.
Não com um governo.
Mas com Ilhéus.
Assumam o compromisso de salvar o Palácio Paranaguá.
De transformar o Museu da Capitania em realidade.
De fortalecer o Teatro Municipal.
De devolver uma Biblioteca Pública à cidade.
De compreender, enfim, que cultura não é enfeite.
É desenvolvimento.
É turismo.
É economia.
É educação.
É identidade.
José Nazal fez a lembrança.
Agora cabe aos homens e mulheres públicos fazerem o resgate.
Porque uma cidade que abandona seus monumentos não perde apenas paredes.
Perde turistas.
Perde investimentos.
Perde oportunidades.
Perde identidade.
E quando uma cidade perde sua memória…
começa, lentamente, a perder a própria alma.

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“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges
Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
