Quando a disputa política se sobrepõe ao interesse público, a obra avança mas a relação institucional desmorona.
A inauguração da primeira etapa da BA-649, ligando Ilhéus a Itabuna, deveria ter sido um daqueles momentos em que a política, por um instante, se recolhe para dar lugar ao que realmente importa: o interesse público.
Não foi o que aconteceu.
A ausência do prefeito de Ilhéus, Valderico Júnior, no ato de entrega da obra não passou despercebida. E não deveria passar mesmo. Porque, em política, ausências também falam. Às vezes, falam até mais do que presenças.
E, desta vez, a mensagem foi ruim.
Não se trata de exigir alinhamento partidário, submissão institucional ou afagos entre adversários. Prefeitos não são obrigados a concordar com governadores. Não precisam posar para fotografias ensaiadas nem transformar divergências em conveniências. Mas há uma diferença clara entre fazer oposição com dignidade e praticar um distanciamento que apequena o cargo que se ocupa.
A BA-649 não é um favor pessoal do governador. Não é uma concessão a um grupo político. Não é um presente partidário.
É uma obra pública.
E obras públicas, sobretudo as estruturantes, exigem mais do que disputa de narrativa: exigem grandeza institucional.
A estrada beneficia Ilhéus, Itabuna e toda a região. Facilita deslocamentos, encurta trajetos, melhora a mobilidade, amplia a integração econômica e sinaliza um investimento concreto em infraestrutura. É o tipo de entrega que deveria reunir adversários em torno de uma agenda mínima de civilidade republicana. Não por afinidade. Por dever.
Foi justamente isso que faltou.
Ao se ausentar de um evento dessa relevância, o prefeito não atinge o governador. Não corrige a relação com o Estado. Não fortalece Ilhéus. Apenas reforça uma impressão incômoda: a de que, quando a política fala mais alto do que a responsabilidade institucional, o interesse da cidade fica em segundo plano.
Esse é o ponto.
Há uma diferença entre manter independência política e cultivar hostilidade administrativa. Há uma diferença entre preservar identidade partidária e transformar cada gesto público em recado de bastidor. Há uma diferença entre oposição e imaturidade.
E Ilhéus não pode mais pagar o preço dessa confusão.
Dito isso, seria intelectualmente desonesto concentrar toda a crítica apenas no prefeito.
Jerônimo Rodrigues também não pode posar como vítima de uma relação institucional que, durante boa parte do mandato, ele próprio ajudou a esfriar. Ilhéus, em muitos momentos, foi tratada com uma frieza política incompatível com a importância estratégica que possui para o sul da Bahia. Nos bastidores, a leitura é conhecida: o desempenho eleitoral pífio do governador no município, somado à derrota de sua candidata local, contribuiu para um distanciamento que cheirou mais a ressentimento político do que a critério administrativo.
Se foi isso mesmo, é grave.
Governador não governa para aliados. Governa para o estado inteiro.
Municípios não podem ser colocados em quarentena política porque votaram “errado”. Cidades não podem ser punidas por não terem aderido ao palanque oficial. O eleitor encerra sua participação quando a urna fecha. O governante, ao contrário, começa ali a sua obrigação de tratar todos os municípios com equilíbrio, respeito e responsabilidade.
Por isso, o episódio da BA-649 não é um caso isolado. Ele é sintoma.
Sintoma de uma relação institucional mal conduzida dos dois lados. De um governo estadual que demorou a tratar Ilhéus com a centralidade que a cidade merece. E de uma prefeitura que, em vez de responder com maturidade, parece optar por um comportamento reativo, por vezes mais preocupado em demarcar oposição do que em ocupar espaços institucionais importantes para o município.
No fim, a conta recai sobre quem não participa do jogo de vaidades: a população.
É aqui que o debate precisa amadurecer.
Política não é amizade, mas também não pode ser adolescência permanente. Divergência não autoriza descortesia institucional. Disputa eleitoral não pode servir de pretexto para o desmonte do diálogo entre entes públicos. A função de um prefeito não é agradar governadores; é defender os interesses da cidade em qualquer mesa, em qualquer agenda, em qualquer governo.
Inclusive e sobretudo diante de adversários.
Os melhores quadros da política brasileira compreenderam isso cedo. Sabiam separar palanque de gestão. Sabiam que a foto institucional não anula a divergência política; apenas demonstra que ainda resta alguma noção de prioridade pública. Sabiam, em suma, que o povo não pode ser transformado em plateia de birras oficiais.
A política baiana já provou, em outros momentos, que a convivência institucional entre adversários é não apenas possível, mas necessária. ACM Neto governou Salvador tendo, em momentos distintos, Jaques Wagner e Rui Costa no comando do Estado. Eram adversários. Disputavam projetos, palanques, narrativas e espaços de poder. Ainda assim, o que se viu em muitas ocasiões foi uma relação institucional preservada, civilizada e funcional. Havia tensão política, claro. Mas havia também compreensão administrativa de que a capital não podia ser transformada em refém de vaidades, ressentimentos ou cálculos eleitorais.
É exatamente isso que falta hoje entre Ilhéus e o Governo da Bahia.
Diplomacia institucional.
Responsabilidade republicana.
Capacidade de sentar, conversar, divergir e, ainda assim, construir.
Valderico Júnior tem todo o direito de apoiar ACM Neto e fazer oposição a Jerônimo Rodrigues. Jerônimo, por sua vez, tem todo o direito de buscar fortalecer o próprio grupo político em Ilhéus. Nada disso está em discussão.
O problema começa quando o interesse público deixa de ser o centro e passa a ser apenas pano de fundo.
Quando uma obra pública vira palco de ausência calculada. Quando o governo estadual trata um município com reserva porque não colheu ali o resultado eleitoral desejado. Quando o gesto simbólico vale mais do que a construção de pontes institucionais. Quando o cidadão percebe que há mais energia investida em marcar posição do que em produzir convergência.
Isso não é firmeza.
Isso é miopia política.
Ilhéus precisa de investimentos, convênios, obras, diálogo e articulação. Precisa de um prefeito capaz de cobrar do Estado sem romper a liturgia do cargo. Precisa de um governador capaz de compreender que a cidade não pode ser administrada à luz de mágoas eleitorais. Precisa, sobretudo, de uma relação institucional menos infantil e mais útil.
A BA-649 ajuda a ligar Ilhéus a Itabuna.
Mas a ponte política entre a Prefeitura de Ilhéus e o Governo da Bahia continua em ruínas.
E esse talvez seja o dado mais preocupante de todos.
Porque pontes de concreto se inauguram com prazo, orçamento e cerimônia. Já as pontes institucionais dependem de algo mais raro: maturidade, inteligência política e compromisso com aquilo que deveria vir antes de qualquer disputa o interesse coletivo.
Ilhéus não precisa de um prefeito ajoelhado diante do governador.
Nem de um governador disposto a governar com base em afinidades eleitorais.
Precisa de duas lideranças capazes de entender o óbvio: cargo público não é extensão de ressentimento político. É instrumento de responsabilidade.
A obra foi entregue.
Ótimo.
Mas o que ainda falta construir talvez seja mais importante do que o asfalto.
Falta maturidade.
Falta grandeza.
Falta compreender que, quando a política se apequena, não é o adversário que perde.
É a cidade.
OLHAR PÚBLICO

“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges é Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
