Há cidades que perdem obras.
Há cidades que perdem investimentos.
E há cidades que perdem algo ainda mais grave: a capacidade de reconhecer o valor da própria memória antes que ela vire entulho, estacionamento improvisado ou paisagem de abandono naturalizado.
Ilhéus parece ter escolhido exatamente esse caminho.

Às margens da Baía do Pontal, a poucos metros do Bataclan, do centro histórico e de um dos trechos mais simbólicos da cidade, o que hoje se vê não é apenas sujeira, ruína e descaso. O que se vê é a decomposição pública de um espaço que já foi parte viva da história econômica, esportiva e urbana de Ilhéus e que, mesmo depois de projetos, promessas, apresentações oficiais e discursos de revitalização, acabou reduzido a um vazio feio, sujo e sem destino.

Ali já pulsou o antigo porto.
Ali já houve embarque, comércio, circulação e história.
Ali, Ilhéus já se conectou ao mundo.
Hoje, o que há é lixo acumulado, restos de estrutura, degradação visual e a sensação humilhante de que a cidade desaprendeu a cuidar justamente daquilo que poderia convertê-la em memória, turismo, contemplação e orgulho.
Mas seria fácil demais tratar essa cena apenas como mais um caso de abandono urbano.
Não é.
Ela é pior do que isso.
Porque aquele pedaço da cidade não foi abandonado por falta de ideia.
Foi abandonado apesar das ideias.
Foi abandonado apesar dos alertas.
Foi abandonado apesar de já ter havido gente disposta a resgatar o espaço e devolvê-lo à cidade com função, beleza, identidade e utilidade pública.
É aí que essa história deixa de ser apenas sobre lixo e vira uma acusação muito mais séria contra a mediocridade política e administrativa de Ilhéus.
O Satélite Clube de Remo, instituição centenária e uma das referências afetivas do esporte local, chegou a apresentar um projeto de revitalização para a área. Não era fantasia de maquete. Era uma proposta concreta, pensada para respeitar a topografia, preservar a vegetação, dialogar com o fluxo das marés e reocupar o espaço com esporte náutico, lazer, acessibilidade, turismo e convivência. Havia concepção arquitetônica. Havia utilidade. Havia vocação. Havia, sobretudo, uma visão de cidade que Ilhéus parece ter desaprendido a ter.
O projeto previa píer, garagem náutica, áreas de apoio, restaurante, acessibilidade e integração com modalidades como caiaque, stand up e vela. Era uma tentativa séria de devolver vida àquele trecho da Baía do Pontal e, ao mesmo tempo, resgatar uma tradição que ajudou a moldar a identidade da cidade. Porque o remo em Ilhéus não é capricho de saudosista. É memória esportiva. É patrimônio afetivo. É parte da história de uma cidade que também aprendeu a se reconhecer na água.
E é impossível falar dessa história sem lembrar nomes que ajudaram a mantê-la viva, como Sizínio Barros, figura ligada à defesa dessa tradição e ao esforço de preservar a cultura náutica ilheense. Quando aquele espaço apodrece, não apodrece apenas um pedaço de orla. Apodrece também uma parte da memória esportiva e cultural de Ilhéus.
E aqui a responsabilidade precisa ser repartida com honestidade.
Mário Alexandre, o Marão, tem responsabilidade direta nesse abandono.
Foi na gestão do ex-prefeito que o projeto do novo clube foi apresentado, anunciado e tratado como possibilidade concreta de revitalização. Foi ali que se acenou para a cidade com a chance de recuperar um espaço histórico e transformá-lo em polo de esporte, turismo e convivência. E foi ali também que a proposta terminou soterrada pela inércia de sempre aquela velha especialidade de governos que adoram posar ao lado de projetos, mas desaparecem quando chega a hora de transformar discurso em obra, compromisso em entrega e visão em política pública.
Marão não deixou um cais revitalizado.
Não deixou um parque náutico.
Não deixou uma requalificação da frente d’água.
Não deixou sequer uma solução intermediária digna.
Deixou a continuidade do abandono.
Deixou o tempo agir.
Deixou a paisagem envelhecer.
Deixou a cidade perder mais um pedaço de si.
Mas seria igualmente desonesto fingir que a gestão atual pode se esconder para sempre atrás da herança maldita.
Não pode.
A atual administração herdou esse passivo, sim. Mas também já fez sua escolha prática: demoliu o que restava do entorno degradado, removeu estruturas que durante anos serviram de abrigo à marginalidade e ao abandono, mas até aqui não conseguiu apresentar ao cidadão algo minimamente compatível com a importância daquele lugar.
E é aí que mora o problema.
Demolir não é revitalizar.
Retirar ruínas não é projeto urbano.
Asfaltar entorno e deixar a Baía do Pontal olhando para lixo, entulho e vazio não é requalificação.
É apenas uma forma mais limpa de continuar abandonando.
Ilhéus não precisa, neste instante, de uma marina milionária, de um complexo náutico internacional ou de uma obra faraônica incompatível com a realidade fiscal do município.
Mas há uma diferença brutal entre não ter dinheiro para uma grande intervenção e não ter vergonha de deixar um dos cenários mais emblemáticos da cidade entregue ao lixo, à feiura e à indiferença.
Porque o mínimo é possível.
O mínimo é limpeza permanente.
O mínimo é ordenamento.
O mínimo é paisagismo simples.
O mínimo é sinalização histórica.
O mínimo é proteção visual.
O mínimo é transformar aquele ponto em um lugar apresentável para o morador e minimamente digno para o turista.
Hoje, o que Ilhéus oferece ali é quase uma agressão à própria narrativa turística.
O visitante conhece o Bataclan, atravessa a rua, olha para a baía e encontra o quê?
Uma aula de abandono.
Uma paisagem cansada.
Um espaço sem alma, sem cuidado e sem explicação.
É como se a cidade dissesse, com uma sinceridade brutal: “aqui já houve história, já houve porto, já houve projeto, já houve sonho mas nós preferimos deixá-los apodrecer.”
E isso talvez seja o mais imperdoável.
Porque o que está em jogo não é apenas urbanismo.
É inteligência administrativa.
É capacidade de transformar patrimônio em ativo.
É visão para entender que turismo não se faz apenas com folder, iluminação cênica, evento e discurso.
Turismo se faz com percurso.
Com experiência.
Com cenário.
Com memória preservada.
Com cidade legível.
Com lugares que contem histórias em vez de exibir ruínas.
O antigo cais, a frente da Baía do Pontal e a memória do remo poderiam hoje formar um dos pontos mais bonitos e mais narrativos de Ilhéus. Poderiam ser espaço de contemplação, de esporte, de convivência, de visitação e de orgulho local. Poderiam ser um cartão-postal vivo.
Viraram uma metáfora.
A metáfora de uma cidade que até enxerga seus tesouros, mas quase sempre tarde demais.
A metáfora de gestões que se sucedem entre promessas, demolições, solenidades e omissões.
A metáfora de uma Ilhéus que flerta com o futuro, mas recorrentemente termina recostando no abandono.
No fim das contas, o problema daquele trecho não é só o lixo.
Não é só a ruína.
Não é só o que Marão não fez.
Nem apenas o que a atual gestão ainda não conseguiu fazer.
O problema é mais fundo.
É que Ilhéus continua permitindo que lugares estratégicos da sua história sejam tratados como sobra urbana, quando deveriam ser tratados como prioridade simbólica, turística e civilizatória.
Onde havia um cais, hoje há um caos.
E o mais constrangedor é perceber que esse caos não nasceu da falta de ideia.
Nasceu da soma entre negligência, improviso, descontinuidade e uma impressionante incapacidade de transformar memória em projeto de cidade.
Ilhéus não perdeu apenas um cais.
Perdeu a vergonha de ver sua história apodrecer à beira d’água e ainda chamar isso de falta de recurso, quando muitas vezes o nome correto é outro: falta de prioridade, falta de visão e falta de compromisso com a própria grandeza.

OLHAR PÚBLICO
“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges é Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
