Mudanças na urbanização podem estar alterando os espaços ocupados pelas duas espécies; apesar da aparência de substituição, canário-da-terra e pardal têm origens completamente diferentes
Uma mudança na presença de aves vem sendo percebida em diferentes áreas urbanas brasileiras: enquanto o pardal, durante décadas uma das espécies mais comuns nas cidades, parece menos frequente em determinados ambientes, o canário-da-terra tem sido observado com maior facilidade em praças, jardins, gramados e áreas abertas.
A situação, porém, não deve ser interpretada simplesmente como uma disputa em que uma espécie expulsou a outra. Os dois pássaros têm histórias muito diferentes no Brasil e respondem de maneiras distintas às transformações provocadas pela urbanização.
O canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) é uma espécie nativa, registrada na fauna brasileira e encontrada em diferentes ambientes do país. O ICMBio inclui a espécie em seus guias de aves e registros de fauna nativa.
Já o pardal (Passer domesticus) não é nativo do Brasil. Originário da Europa, foi introduzido no Rio de Janeiro em 1906 e posteriormente se espalhou pelo território brasileiro. O Museu Nacional da UFRJ registra que a espécie, apesar de ainda estar presente em praticamente todo o país, vem perdendo espaço em grandes cidades e buscando áreas onde encontre melhores condições para construir seus ninhos.
O QUE MUDOU NAS CIDADES
O pardal desenvolveu uma forte associação com ambientes urbanos. Seus ninhos são construídos principalmente em estruturas de edificações, como beirais, telhados e outros espaços protegidos. Com a transformação dos padrões construtivos, parte desses locais deixou de existir ou se tornou menos acessível.
O Museu Nacional aponta justamente a falta de locais adequados para nidificação como um dos fatores relacionados à perda de espaço do pardal nas grandes cidades.
A urbanização também modifica a disponibilidade de alimento, vegetação, abrigo e locais de reprodução. Estudos sobre comunidades de aves em áreas urbanas brasileiras mostram que diferentes níveis de urbanização e a existência de determinados micro-habitats influenciam diretamente quais espécies conseguem permanecer nesses ambientes.
Nesse cenário, espécies que conseguem utilizar áreas abertas, vegetação rasteira e espaços com oferta de sementes podem encontrar oportunidades diferentes das disponíveis para aves mais dependentes de determinadas estruturas das construções.
É nesse contexto que o canário-da-terra consegue ocupar espaços urbanos como gramados, terrenos abertos, jardins e áreas com vegetação disponível.
NATIVO NÃO SIGNIFICA INVASOR
A diferença entre as duas espécies também ajuda a desfazer uma confusão comum.
O canário-da-terra é nativo. O pardal é exótico, porque foi introduzido no país fora de sua área natural de distribuição.
Já o termo espécie exótica invasora possui um significado mais específico. Segundo o ICMBio, são espécies que estão fora de sua área natural de distribuição e cuja introdução ou dispersão ameaça a diversidade biológica. Essas espécies podem competir com organismos nativos, alterar comunidades e modificar processos ecológicos.
Portanto, chamar o pardal de “invasor” exige esse contexto. O fato de uma espécie ser exótica não significa automaticamente que qualquer ocorrência dela seja considerada uma invasão biológica.
O CANÁRIO ESTÁ SUBSTITUINDO O PARDAL?
Não há evidência suficiente para afirmar que o aumento da percepção do canário-da-terra nas cidades seja consequência direta da expulsão do pardal.
O que existe é um fenômeno mais amplo: as cidades estão mudando, e as espécies respondem de maneira diferente a essas mudanças.
O pardal continua amplamente distribuído no Brasil, mas há registros de redução de sua presença em determinados ambientes urbanos. Ao mesmo tempo, o canário-da-terra possui características que permitem sua permanência e utilização de áreas abertas e ambientes modificados pelo homem.
A aparente substituição, portanto, pode ser consequência de alterações na disponibilidade de alimento, abrigo, vegetação e locais de reprodução, além das próprias características ecológicas de cada espécie.
A diferença de origem também é significativa. O pardal chegou ao Brasil por ação humana e conseguiu se estabelecer amplamente no ambiente urbano. O canário-da-terra, por sua vez, é parte da fauna nativa brasileira e também demonstrou capacidade de adaptação a ambientes modificados.
A presença mais frequente de uma espécie e a redução da outra em determinado bairro ou cidade, portanto, não significam necessariamente que exista uma disputa direta entre elas.
O que a mudança pode revelar é outra coisa: a transformação das cidades também está transformando a composição da fauna que vive nelas.
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