O cacau brasileiro está recuperando espaço no mercado internacional e passou a receber uma aposta cada vez maior de uma das maiores empresas de alimentos do mundo.
A Nestlé ampliou suas compras de cacau no Brasil e vem trabalhando diretamente com produtores para aumentar a produtividade, melhorar a qualidade das amêndoas e reduzir a dependência de fertilizantes convencionais.
A estratégia faz parte de um movimento global da companhia para diversificar sua cadeia de abastecimento depois dos fortes choques de oferta que elevaram os preços internacionais do cacau a níveis recordes.
Segundo o CEO global da Nestlé, Philipp Navratil, o Brasil apresenta potencial para se tornar uma fonte mais importante de matéria-prima para a indústria. A empresa já trabalha com centenas de propriedades brasileiras oferecendo conhecimento técnico e incentivando práticas de agricultura regenerativa.
O movimento representa uma mudança importante para um país que já foi uma das grandes potências mundiais do cacau.
A produção brasileira foi duramente atingida pela vassoura-de-bruxa, doença que devastou plantações a partir das décadas passadas. Agora, produtores vêm retomando áreas de cultivo com variedades mais resistentes e novas técnicas agrícolas.
O governo brasileiro estima que a produção nacional possa chegar a aproximadamente 400 mil toneladas nos próximos anos, praticamente dobrando o volume atual. O Brasil, entretanto, ainda produz aproximadamente o necessário para atender ao mercado interno e permanece distante dos grandes líderes mundiais, como Costa do Marfim e Gana.
A estratégia da Nestlé também envolve sustentabilidade.
A companhia vem desenvolvendo projetos de agricultura regenerativa e sistemas capazes de reduzir o consumo de fertilizantes, ao mesmo tempo em que busca melhorar o rendimento das propriedades. A empresa também mantém parceria com a Embrapa para pesquisas relacionadas ao cultivo sustentável do cacau e ao desenvolvimento de sistemas agroflorestais.
O Brasil possui uma vantagem particular nesse cenário: boa parte da produção nacional pode ser integrada a sistemas agroflorestais, nos quais o cacau é cultivado em associação com outras espécies vegetais.
O Ministério da Agricultura e a Ceplac também vêm reforçando políticas de pesquisa, assistência técnica e fortalecimento da cadeia produtiva. Em 2026, o governo federal passou a tratar o cacau como uma cadeia estratégica para o desenvolvimento sustentável de diferentes regiões brasileiras.
BAHIA TEM PAPEL ESTRATÉGICO
A retomada do cacau interessa diretamente à Bahia, historicamente um dos principais polos produtores do país.
O Sul da Bahia concentra grande parte da atividade cacaueira baiana, com forte presença de pequenos produtores e sistemas de produção associados à Mata Atlântica. Estudos da própria Ceplac apontam Bahia e Pará entre os principais estados produtores brasileiros.
Para a região, o avanço da demanda de grandes indústrias pode representar mais do que aumento nas vendas. Pode estimular investimentos em produtividade, qualidade, assistência técnica, tecnologia e agregação de valor.
O desafio, porém, será transformar o interesse internacional em renda sustentável para quem produz.
A expansão da produção brasileira dependerá de produtividade, controle fitossanitário, acesso a crédito, assistência técnica e capacidade de produzir cacau de qualidade em escala competitiva.
A movimentação da Nestlé mostra que o cacau brasileiro voltou a ser visto não apenas como matéria-prima nacional, mas como um possível componente estratégico de uma cadeia global que busca fornecedores mais diversificados, resilientes e sustentáveis.
Depois de décadas marcadas pela crise provocada pela vassoura-de-bruxa, o cacau brasileiro começa a escrever um novo capítulo.
E a Bahia, especialmente o Sul do Estado, está novamente no centro dessa história.
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