Embate começou após candidato do Missão citar a primeira-dama ao criticar ausência de Lula no primeiro debate presidencial; episódio reacende histórico de controvérsias envolvendo acusações de machismo e misoginia feitas por Janja
O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band no domingo (23), terminou com uma nova disputa política envolvendo o candidato do Missão, Renan Santos, e a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.
Ao criticar a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no encontro, Renan mencionou diretamente a primeira-dama e fez comentários de caráter pessoal. Em determinado momento, afirmou que Lula teria de “ficar lá com aquela Janja” e acrescentou que seria melhor o presidente estar acompanhado dela do que participar do debate.
Em outro trecho, ao ironizar a ausência do petista, Renan declarou: “Ou está bêbado ou está com a Janja. Melhor ficar bêbado nessas horas, né, presidente?”
As declarações provocaram reação imediata de Janja, que publicou uma nota de repúdio na segunda-feira (24).
Janja acusa candidato de usar misoginia contra Lula
Na manifestação, Janja afirmou que Renan não fez apenas uma crítica política a Lula, mas utilizou sua imagem pessoal para atingir o presidente.
Segundo a primeira-dama, tratar sua companhia como algo depreciativo seria uma forma de desqualificar uma mulher que sequer participa da disputa eleitoral.
“Insinuar que a companhia da esposa de outro presidenciável seria motivo de pena está longe de ser uma crítica política”, afirmou Janja na nota divulgada após o debate.
Ela também classificou as declarações como parte de um comportamento que, em sua avaliação, reproduz padrões de desrespeito às mulheres.
“É mais uma maneira de deslegitimar e ridicularizar a figura da mulher, como ferramenta misógina para atacar um adversário político”, afirmou a primeira-dama.
Janja ainda argumentou que o debate eleitoral deveria ser utilizado para confrontar propostas e projetos, e não para ridicularizar mulheres que não estão concorrendo a cargos públicos.
Renan Santos rejeita acusação
Renan Santos não aceitou a classificação.
Em resposta à primeira-dama, o candidato afirmou que sua declaração foi uma crítica política e que a utilização do termo misoginia não deveria impedir críticas a mulheres que ocupam espaço público.
“Não é misógino dizer que você não é uma boa companhia. Pare de ficar jogando tudo nessa história de misoginia”, afirmou Renan.
O presidenciável foi além e argumentou que transformar qualquer crítica dirigida a uma mulher em misoginia poderia restringir o debate político.
“Fazer uma crítica política a uma figura pública ser misoginia significa criminalizar todo o debate político que envolva mulheres”, declarou.
Posteriormente, Renan voltou a atacar Janja e afirmou que ela não representa todas as mulheres brasileiras. Também questionou sua influência sobre decisões do governo e sua exposição pública. Algumas dessas afirmações, contudo, foram feitas sem apresentação de dados que as comprovassem, segundo a cobertura jornalística consultada.
A controvérsia não começou no debate
A utilização do termo “misoginia” por Janja não é novidade.
Em maio de 2025, após a repercussão de declarações feitas durante uma reunião da comitiva brasileira com o presidente chinês Xi Jinping, Janja afirmou ter sido vítima de machismo e misoginia.
Na ocasião, ela havia questionado Xi sobre o TikTok e o funcionamento de seus algoritmos. Após a divulgação do episódio, a primeira-dama declarou:
“Vejo machismo e misoginia da parte de quem presenciou a reunião e repassou de maneira distorcida o que aconteceu.”
Janja também criticou a forma como a imprensa repercutiu o episódio, afirmando que houve amplificação de uma narrativa que considerava distorcida.
O episódio gerou intenso debate justamente porque parte das críticas estava relacionada à sua atuação política e à postura adotada durante uma reunião diplomática.
Críticas aos gastos também foram classificadas como misoginia
A discussão voltou a aparecer em 2026.
Em entrevista repercutida pela imprensa, Janja afirmou que as críticas à imagem de “gastadora” e aos gastos relacionados às suas viagens internacionais seriam “misoginia pura”.
O episódio provocou uma discussão diferente: até que ponto a crítica dirigida à atuação pública de uma primeira-dama constitui preconceito de gênero e em que momento ela representa legítima cobrança por transparência e responsabilidade com recursos públicos?
Essa distinção é fundamental.
Questionar despesas públicas, viagens, influência política ou decisões de uma pessoa que exerce função pública não é, por si só, misoginia. Da mesma forma, críticas podem assumir caráter misógino quando utilizam a condição de mulher como instrumento de humilhação ou desqualificação.
O desafio está justamente em separar as duas situações.
COP30 colocou Janja no centro da agenda feminina
Durante a COP30, realizada em Belém em 2025, Janja atuou como enviada especial para a agenda de mulheres e defendeu que questões de gênero ocupassem espaço central nas negociações climáticas.
Em entrevista à CNN, afirmou:
“Tenho trabalhado muito para colocar as mulheres na centralidade da agenda climática.”
Na conferência, Janja também defendeu maior participação das mulheres dos territórios diretamente afetados pela crise climática nas negociações internacionais.
É importante, contudo, não misturar episódios distintos: não há base suficiente para afirmar que todas as críticas recebidas por Janja durante a COP30 foram classificadas por ela como misoginia.
Debate sobre misoginia ganhou espaço na agenda política
A controvérsia ocorre justamente quando o Congresso discute um projeto que pretende criminalizar a misoginia, equiparando essa prática aos crimes previstos na legislação de combate ao racismo.
Janja tem defendido publicamente a aprovação da proposta. Em julho de 2026, pediu que o projeto avançasse no Congresso e afirmou que o governo vinha fortalecendo mecanismos de proteção às mulheres.
Em agosto, ela voltou a pedir prioridade para a proposta durante reuniões com líderes do governo e do PT no Congresso. O texto já havia sido aprovado pelo Senado, mas ainda dependia de análise da Câmara dos Deputados.
A discussão, portanto, ganhou uma dimensão eleitoral: quando uma crítica política ultrapassa os limites da divergência e passa a configurar violência de gênero?
O ponto cego dos dois lados
O episódio entre Janja e Renan Santos merece ser analisado sem transformar o debate em torcida.
Renan tem direito de criticar politicamente Lula, Janja e qualquer outra figura pública. Entretanto, crítica política não ganha imunidade simplesmente por ser dirigida a uma mulher, e ataques pessoais também não se tornam automaticamente legítimos porque ocorrem dentro de uma disputa eleitoral.
Por outro lado, classificar toda crítica dirigida a uma mulher como misoginia também seria um erro. Se o termo for utilizado indistintamente para descrever cobranças sobre gastos, atuação pública, decisões políticas ou comportamento de uma pessoa pública, corre-se o risco de esvaziar o significado de uma palavra que descreve uma forma real de discriminação contra mulheres.
Esse é justamente o ponto que torna o episódio politicamente relevante.
No caso específico do debate, Janja considera as declarações de Renan Santos misóginas; Renan nega e afirma que fez uma crítica política. Não cabe ao jornalismo transformar nenhuma dessas interpretações em uma condenação definitiva.
O eleitor, por sua vez, pode avaliar o conteúdo das declarações e decidir se considera que Renan ultrapassou os limites do debate político ou se Janja ampliou indevidamente o conceito de misoginia para responder a uma crítica.
Enquanto isso, a troca de acusações evidencia uma característica preocupante da campanha de 2026: a discussão de propostas corre o risco de ser sufocada pelo confronto pessoal entre os candidatos e seus adversários políticos.
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