Portal Vilela 24hs manifesta solidariedade à Rádio Bahiana de Ilhéus e ao diretor Adilson Neves diante dos questionamentos envolvendo um contrato de R$ 3,7 milhões e defende o direito constitucional de investigar, questionar e informar
Há momentos em que a imprensa precisa escolher entre o caminho mais confortável e aquele que efetivamente corresponde à sua missão. O caminho confortável é silenciar diante de documentos que levantam dúvidas, evitar perguntas que possam incomodar e simplesmente aceitar versões prontas. O caminho do jornalismo é outro: investigar, confrontar informações, ouvir todos os envolvidos, buscar documentos, questionar autoridades e permitir que a sociedade conheça aquilo que envolve o interesse público. É exatamente por isso que o Portal Vilela 24hs vem a público manifestar sua solidariedade à Rádio Bahiana de Ilhéus e ao seu diretor, Adilson Neves, diante dos acontecimentos que vieram à tona nos últimos dias envolvendo um contrato informado no valor de aproximadamente R$ 3,7 milhões, relacionado à prestação de serviços de saúde e no qual aparece o nome do médico Rodrigo Fontes Dória como responsável técnico, juntamente com dados que o identificariam.
Antes de qualquer conclusão, é preciso deixar uma coisa absolutamente clara: ninguém está sendo condenado por uma reportagem, e ninguém deve ser tratado como culpado simplesmente porque seu nome aparece em um documento. O médico tem o direito de apresentar sua versão, preservar sua reputação, defender sua clínica, seus profissionais e seus pacientes e, caso entenda que seu nome ou seus dados foram utilizados indevidamente, procurar as autoridades competentes. E foi exatamente o que, segundo sua própria manifestação pública, ele afirma ter feito ao informar que desconhece o contrato, que não participou daquela contratação e que não reconhece sua vinculação à documentação divulgada. Sua versão deve ser registrada, respeitada e, sobretudo, investigada. Mas reconhecer esse direito não significa retirar da imprensa o direito — e o dever — de fazer as perguntas que surgem quando um documento envolvendo dinheiro público apresenta o nome de um cidadão que posteriormente afirma não ter qualquer relação com aquela contratação.
É justamente aqui que precisamos compreender o verdadeiro papel do jornalismo. A imprensa não existe para condenar; existe para perguntar. Não existe para substituir a polícia, o Ministério Público, o Tribunal de Contas ou o Poder Judiciário; existe para levar ao conhecimento da sociedade fatos que merecem explicação. Quando um contrato milionário é apresentado a um veículo de comunicação e nele consta o nome de um profissional que afirma desconhecê-lo, a pergunta jornalística não é apenas legítima: ela se torna inevitável. Quem elaborou o documento? Quem o apresentou? Quem assinou? Quem autorizou? Qual foi o processo administrativo utilizado? Quem prestou os serviços? Quem recebeu? Quem atestou? Como o nome do médico foi inserido? Houve autorização? Houve erro? Houve utilização indevida de dados? Existe alguma documentação complementar que esclareça a situação? Essas são perguntas que não podem ser confundidas com uma sentença condenatória.
O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADPF 130, reconheceu a posição constitucionalmente protegida da liberdade de imprensa e afastou a possibilidade de censura prévia. A Corte reconhece que a liberdade de imprensa compreende, entre outras prerrogativas, o direito de informar, buscar informações, opinar e criticar. Ao mesmo tempo, o STF também estabelece que essa liberdade é exercida com responsabilidade e que eventuais abusos podem ser examinados posteriormente, inclusive mediante direito de resposta e responsabilização quando presentes os requisitos legais.
Essa distinção é fundamental porque, em uma democracia madura, discordar de uma reportagem não significa ter o direito de impedir a imprensa de investigar. O cidadão citado pode contestar, apresentar documentos, conceder entrevista, pedir esclarecimentos, requerer direito de resposta e, se entender que houve abuso, recorrer aos instrumentos legais disponíveis. Tudo isso faz parte da democracia. O que não podemos aceitar como normal é a ideia de que a simples existência de uma controvérsia ou a manifestação de uma pessoa atingida seja suficiente para encerrar uma investigação jornalística de interesse público. Se assim fosse, bastaria que qualquer pessoa mencionada em uma reportagem dissesse “não fui eu” para que todas as perguntas desaparecessem. Não é assim que funciona o jornalismo — e não é assim que deve funcionar uma sociedade democrática.
E aqui surge uma questão ainda mais importante neste episódio. Se o médico Rodrigo Fontes Dória realmente não conhece o contrato, não assinou o documento e não autorizou a utilização de seus dados, a própria negativa dele passa a ser parte central da investigação. Em vez de representar o fim da história, ela abre uma nova frente de perguntas. Como seu nome foi parar naquele contrato? Quem inseriu seus dados? A empresa que aparece na documentação possui alguma relação efetiva com ele? O vínculo indicado no documento existia ou foi indevidamente atribuído? A administração municipal recebeu documentação que continha informações equivocadas? Houve alguma falha administrativa? Ou existe outra explicação que ainda não chegou ao conhecimento público? É isso que precisa ser esclarecido — e não cabe ao jornalismo inventar a resposta antes que os documentos e as autoridades possam fornecê-la.
Por isso, entendemos que a reação correta diante desse episódio não é pedir que a imprensa deixe de perguntar, mas pedir que as autoridades respondam às perguntas. Se o contrato é legítimo, que sejam apresentados os documentos que comprovem sua regularidade. Se houve erro, que seja explicado. Se alguém teve seus dados utilizados indevidamente, que se descubra quem fez isso. Se houver falsificação ou qualquer outra irregularidade, que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados. E se, ao final da apuração, ficar demonstrado que não houve irregularidade alguma, também será dever da imprensa informar isso com a mesma responsabilidade com que publicou os questionamentos iniciais.
Essa é a diferença entre jornalismo responsável e militância. Jornalismo não escolhe previamente o resultado da investigação. Jornalismo acompanha os fatos até onde eles levarem.
Também é importante reconhecer que o médico tem razão em uma preocupação fundamental: reputação profissional não é algo que possa ser tratado com irresponsabilidade. Um médico possui pacientes, equipe, empresa, trajetória e credibilidade construída ao longo de anos. Uma informação equivocada pode produzir consequências concretas. É justamente por isso que a imprensa precisa ter cuidado redobrado com documentos, nomes e acusações. Mas essa responsabilidade não pode ser utilizada para transformar toda pergunta em ofensa. Responsabilidade jornalística não significa silêncio; significa apuração.
O mesmo princípio vale para a Rádio Bahiana de Ilhéus. Adilson Neves, ao longo de décadas de atuação na comunicação da cidade, construiu uma trajetória marcada pela presença no cotidiano de Ilhéus e pelo exercício do jornalismo radiofônico. Não é preciso concordar com todas as opiniões de um jornalista para defender o direito que ele possui de formular perguntas. Aliás, uma imprensa que somente pode investigar aquilo com que todos concordam deixou de ser imprensa livre.
E este editorial não está sendo escrito para afirmar que a Rádio Bahiana está necessariamente certa em cada detalhe daquilo que publicou. Estamos defendendo algo maior: o direito de investigar. Se algum dado estiver errado, que seja corrigido. Se algum nome tiver sido indevidamente relacionado a determinado documento, que isso seja esclarecido. Se houver informação falsa, que o direito de resposta seja assegurado. Se houver responsabilidade civil ou criminal comprovada, que os instrumentos legais sejam utilizados. Mas que tudo isso ocorra depois da apuração e dentro das regras democráticas, e não mediante intimidação, ameaça ou tentativa de impedir previamente que a imprensa continue investigando.
O próprio Supremo Tribunal Federal tem reiterado que a vedação à censura prévia não significa ausência de responsabilidade. A Corte estabelece uma espécie de equilíbrio entre liberdade e responsabilidade: a informação jornalística deve circular, enquanto eventuais abusos podem ser examinados posteriormente pelos mecanismos jurídicos adequados. Em outras palavras, a democracia não exige uma imprensa infalível; exige uma imprensa livre e responsável.
É nesse espírito que o Portal Vilela 24hs acompanha o caso.
E é preciso dizer com toda clareza: a história não termina com um vídeo publicado nas redes sociais, nem com uma nota de retratação, nem com a negativa de qualquer uma das partes. Ela termina quando as perguntas forem respondidas pelos documentos e pelas autoridades competentes.
Novos materiais e informações, segundo relatos recebidos pelo nosso veículo, foram encaminhados por fontes que solicitaram preservação de identidade e estão sendo analisados. Entre eles, haveria novos documentos relacionados ao caso e outros elementos que podem ampliar a compreensão sobre as circunstâncias envolvendo contratos e nomes apresentados na documentação. Nada disso será tratado como verdade automática. Documento recebido é ponto de partida para apuração, não certificado de autenticidade. Cada material deverá ser confrontado com bases oficiais, processos administrativos, contratos, empenhos, pagamentos, registros empresariais e manifestações dos envolvidos antes de qualquer conclusão definitiva.
Esse é o compromisso que deve nortear todos os profissionais de imprensa: não transformar suspeita em condenação, mas também não transformar negativa em absolvição automática.
A verdade precisa ter espaço para aparecer.
E, muitas vezes, ela aparece justamente quando alguém tem coragem de fazer a pergunta que ninguém queria ouvir.
Quando um veículo de comunicação questiona um contrato público, não está necessariamente acusando quem aparece no documento. Está perguntando se aquele documento é verdadeiro, se aquela contratação ocorreu de acordo com a lei e se os recursos públicos foram corretamente empregados. Quando um médico afirma que seu nome foi utilizado sem autorização, a imprensa não deve ignorá-lo; deve ouvir sua versão e perguntar como isso aconteceu. Quando a Prefeitura eventualmente apresentar seus esclarecimentos, eles também devem ser publicados. Quando os órgãos de controle se manifestarem, suas conclusões deverão integrar a cobertura. É assim que se constrói uma investigação jornalística séria: ouvindo todos, desconfiando de todos na mesma medida e confiando, ao final, nos documentos e nos fatos.
Por isso, a solidariedade do Portal Vilela 24hs à Rádio Bahiana de Ilhéus não é uma solidariedade cega. É uma solidariedade à liberdade de imprensa e ao direito constitucional de investigar. Não defendemos qualquer profissional para que esteja acima da lei. Defendemos que nenhum profissional esteja abaixo dela. Defendemos o direito de Adilson Neves perguntar, investigar, publicar e também responder pelos seus atos caso, em algum momento, fique comprovado que ultrapassou os limites legais. Da mesma forma, defendemos o direito de Rodrigo Fontes Dória contestar, esclarecer, apresentar documentos e buscar a responsabilização de quem eventualmente tenha utilizado indevidamente seu nome ou seus dados.
É exatamente assim que uma democracia funciona.
A imprensa não pode ser inimiga de quem é questionado, assim como quem é questionado não pode ser inimigo da imprensa simplesmente porque foi questionado.
O verdadeiro adversário de todos nós é a falta de transparência.
E, quando há dinheiro público envolvido, a sociedade tem o direito de perguntar.
Tem o direito de saber.
Tem o direito de cobrar.
E a imprensa tem o direito — e a responsabilidade — de investigar.
Porque quando mexem com um profissional da imprensa, não se trata apenas de um profissional. Trata-se da liberdade de todos os que ainda precisam ter voz.
E, enquanto houver documentos a serem examinados, perguntas sem resposta e informações que possam ser confrontadas, o jornalismo não deve baixar o microfone. Deve aumentar a apuração.
A investigação continua. E o Portal Vilela 24hs continuará acompanhando.

