
El Salvador voltou aos holofotes internacionais depois que o governo Nayib Bukele voltou a comemorar um marco que, no mínimo, mexe com o tabuleiro da segurança pública mundial: mais de mil dias sem homicídios registrados, segundo dados oficiais do próprio país. O número, embora contestado por organizações internacionais, é usado pelo presidente como símbolo máximo de sua política de ferro contra as gangues.
Bukele não esconde o tom provocador. Ele já usou suas redes para cobrar resultados de outros governos, elogiar sua estratégia de encarceramento em massa e desafiar críticos que apontam violações de direitos humanos no processo. A mensagem é clara: o país que antes figurava entre os mais violentos do mundo agora se apresenta como um laboratório radical de segurança pública.
Segundo veículos locais alinhados ao governo, El Salvador ultrapassou recentemente a marca de 1.000 dias sem homicídios em diversos relatórios da Polícia Nacional Civil, chegando até à referência de 1.035 dias divulgada em outubro por portais internacionais. O marco é comemorado como um “renascimento da paz”, enquanto o governo exibe as mega prisões superlotadas como vitrine do sucesso.
Mas a história tem mais lados. Organizações de direitos humanos questionam a metodologia utilizada para contabilizar os homicídios. Mortes em presídios, mortes por intervenção policial ou desaparecimentos podem não entrar na estatística oficial. Fontes como ElSalvadorNow, Human Rights Watch e até mesmo a Associated Press já publicaram alertas sobre possíveis distorções na contagem divulgada pelo governo.
Mesmo assim, o fato é que a narrativa construída por Bukele pegou e pegou forte. Num mundo que vê a violência crescer em vários cantos, a imagem de um presidente que “domou” as gangues à força vira combustível político e símbolo internacional de austeridade extrema na segurança pública.
No fim das contas, o marco dos mil dias serve tanto de vitrine quanto de munição política. Para os defensores, prova que o país se tornou referência mundial. Para os críticos, um dado que simplifica demais um cenário ainda cheio de sombras. E para Bukele? É o troféu perfeito para seguir fortalecendo sua imagem de comandante absoluto no combate ao crime.