A eleição mudou o ambiente político em Brasília — e o Supremo Tribunal Federal já sente os efeitos da nova correlação de forças.
Um dia depois de Flávio Bolsonaro sair do primeiro turno na liderança da disputa presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha, foi ao STF para uma reunião com o presidente da Corte, ministro Edson Fachin. O encontro, oficialmente registrado na agenda do Supremo, ocorreu nesta terça-feira (6).
O gesto, porém, esteve longe de representar uma trégua com os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino.
Ao deixar o Supremo, Marinho afirmou que não haverá “vingança” contra ministros, mas também não haverá omissão do Senado diante de eventuais crimes de responsabilidade. Segundo ele, a Casa precisa exercer suas atribuições constitucionais e não pode continuar se omitindo diante de pedidos dessa natureza.
A mensagem ganhou peso porque o resultado das urnas alterou significativamente a composição do Senado a partir de 2027. O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 cadeiras, a maior bancada do partido desde a Constituição de 1988.
MORAES E DINO NO CENTRO DA DISPUTA
Marinho não escondeu quais ministros considera mais problemáticos para o grupo político de Flávio Bolsonaro.
Alexandre de Moraes e Flávio Dino foram citados nominalmente pelo senador, que afirmou enxergar nos dois ministros um comportamento com “viés político”. Ao mesmo tempo, deixou aberta a possibilidade de diálogo institucional com ambos — mas somente depois do processo eleitoral.
É justamente aí que está a dimensão política da visita.
A ida de Marinho ao STF não deve ser interpretada simplesmente como uma aproximação entre bolsonarismo e Supremo. O movimento parece cumprir uma dupla função: abrir um canal institucional com a Corte e, simultaneamente, avisar que a futura maioria política no Senado pretende exercer com mais rigor seu poder de fiscalização sobre ministros do STF.
Não por acaso, o senador defendeu uma mudança no regimento do Senado para permitir que um pedido de impeachment de ministro apresentado por 49 senadores seja encaminhado à Procuradoria da Casa, caso existam elementos que justifiquem a abertura do processo.
O RECADO É MAIS AMPLO QUE MORAES
O discurso de Marinho também precisa ser observado dentro de um cenário maior.
O Senado já possui representação formal contra Alexandre de Moraes. A PET 56/2026, apresentada por um grupo de senadores de diferentes partidos, está em tramitação e aguardava despacho no Plenário na última atualização oficial disponível.
Isso significa que a discussão sobre responsabilização de ministros não começou com a campanha de Flávio Bolsonaro — mas ganhou uma nova dimensão política depois das urnas.
O PL chega a 2027 com força inédita no Senado e, somado a outras bancadas oposicionistas, poderá aumentar substancialmente a pressão sobre a Suprema Corte.
É nesse contexto que a frase de Marinho ganha relevância: não haverá vingança, mas também não haverá omissão.
Para o grupo de Flávio, a diferença é fundamental.
Uma coisa é atacar o STF como instituição. Outra é afirmar que ministros podem ser responsabilizados politicamente dentro dos mecanismos previstos pela Constituição e pela legislação.
FLÁVIO TENTA ABRIR UMA NOVA FRENTE
O movimento também revela uma mudança de estratégia na campanha.
Flávio Bolsonaro passou a sinalizar que pretende estabelecer uma relação institucional diferente daquela construída durante os anos de confronto entre Jair Bolsonaro e o Supremo.
Rogério Marinho foi escolhido para fazer essa interlocução. Antes mesmo da reunião com Fachin, ele já havia solicitado uma audiência ao presidente do STF justamente para transmitir a mensagem de que um eventual governo Flávio pretende manter diálogo com a Corte, apesar das críticas dirigidas a determinados ministros.
A estratégia, portanto, parece ser: dialogar com a instituição sem retirar da mesa a responsabilização individual de ministros.
É uma mudança significativa de tom.
UM SUPREMO SOB NOVA PRESSÃO POLÍTICA
O resultado do primeiro turno criou um cenário que seria difícil imaginar poucos meses atrás.
Flávio Bolsonaro e Lula avançaram para o segundo turno, enquanto o PL ampliou sua presença no Senado. O TSE confirma que a decisão presidencial acontecerá em 25 de outubro.
Se Flávio vencer, o Supremo terá pela frente um governo que chega ao Planalto com uma agenda declaradamente crítica a parte da Corte e com uma bancada parlamentar muito mais forte.
Se Lula vencer, a nova composição do Senado continuará sendo um obstáculo relevante para o governo e poderá manter a pressão política sobre ministros do Supremo.
Em qualquer dos cenários, uma conclusão já pode ser extraída das urnas: o STF entrará na próxima legislatura sob uma pressão política maior do que a enfrentada nos últimos anos.
E Alexandre de Moraes e Flávio Dino, por serem dois dos principais alvos das críticas do bolsonarismo, aparecem no centro dessa disputa.
A visita de Rogério Marinho a Edson Fachin, portanto, pode ter sido cordial no protocolo. Politicamente, porém, carregou um recado bastante mais duro: o diálogo está aberto, mas a conta política também está na mesa.
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