Declaração do candidato abre disputa antecipada pelo comando da Câmara e do Senado e coloca em xeque a permanência de Hugo Motta e Davi Alcolumbre em 2027
A eleição presidencial ainda será decidida no segundo turno, marcado para 25 de outubro, mas uma outra disputa já começou nos bastidores de Brasília: quem comandará a Câmara dos Deputados e o Senado Federal a partir de 2027?
Flávio Bolsonaro (PL) deu nesta terça-feira (6) um dos sinais mais claros de que pretende interferir diretamente nessa definição caso seja eleito presidente da República.
Durante evento em Goiânia, que marcou o apoio do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado à sua candidatura, Flávio afirmou que o resultado das eleições produziu um Congresso “muito mais à direita” e que essa nova composição permitirá ao eventual governo ter maioria para escolher os presidentes das duas Casas e promover mudanças na Constituição.
Embora não tenha citado nominalmente Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, nem Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado, a declaração atinge diretamente a disputa pela sucessão dos dois.
Ambos pretendem permanecer no comando das respectivas Casas em 2027. E é justamente aí que a nova correlação de forças do Congresso pode mudar o jogo.
UM CONGRESSO MAIS À DIREITA
O resultado das urnas alterou significativamente a composição do Legislativo.
O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara, equivalente a cerca de 24% das cadeiras. A nova composição reúne 303 deputados identificados em levantamento como integrantes do campo da direita, contra 124 da esquerda e 86 do centro.
No Senado, o PL também terá a maior bancada, com 28 senadores considerando os parlamentares que permanecerão no mandato.
É nesse cenário que Flávio afirma ter condições de construir maioria para escolher os comandos das duas Casas.
Na prática, porém, há uma diferença importante: o presidente da República não escolhe os presidentes da Câmara e do Senado. São os próprios parlamentares que fazem essa eleição.
O que um eventual governo pode fazer é construir uma base política capaz de influenciar essa escolha.
E é justamente essa articulação que Flávio parece antecipar.
MOTTA CHEGA À DISPUTA MAIS PRESSIONADO
Hugo Motta foi reeleito deputado federal pela Paraíba, mas sua votação caiu de 158.171 votos, em 2022, para 124.334 em 2026 — uma redução de 21,4%.
O resultado também veio acompanhado de uma derrota política familiar: seu pai, Nabor Wanderley, terminou em terceiro lugar na disputa pelo Senado paraibano, com 20,91% dos votos.
Motta havia se aproximado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha e declarado apoio à sua reeleição.
Agora, terá de negociar sua permanência no comando da Câmara com uma bancada mais à direita e diante de um PL que ampliou consideravelmente sua força.
Isso não significa que sua reeleição esteja descartada.
Motta ainda ocupa a Presidência da Câmara, conhece os mecanismos de articulação parlamentar e possui relações construídas com diferentes partidos.
Mas a equação política mudou.
ALCOLUMBRE TAMBÉM ENTRA NO RADAR
No Senado, o cenário é igualmente complexo.
Davi Alcolumbre ocupa atualmente a Presidência do Senado e do Congresso Nacional no biênio 2025-2027. Ele foi eleito em fevereiro de 2025 com 73 dos 81 votos dos senadores.
Alcolumbre pretende permanecer no comando da Casa, mas seu grupo político sofreu uma derrota importante no Amapá.
O governador Clécio Luís, aliado de Alcolumbre, perdeu a eleição para Dr. Furlan. Além disso, os dois novos senadores eleitos pelo estado — Rayssa Furlan e Lucas Barreto — são adversários do grupo político do atual presidente do Senado.
E há outro elemento decisivo: o senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, aparece como um dos nomes que podem disputar a sucessão de Alcolumbre.
Ou seja: o confronto não é apenas institucional. Ele já começa a ganhar contornos de disputa política dentro do próprio campo conservador.
O QUE FLÁVIO PODE ESTAR PREPARANDO?
A declaração feita em Goiás permite identificar pelo menos três movimentos possíveis.
O primeiro é tentar eleger presidentes da Câmara e do Senado mais alinhados ao eventual governo.
O segundo é utilizar o tamanho da bancada do PL e a força de partidos aliados para construir uma maioria capaz de aprovar projetos considerados prioritários pelo novo governo.
O terceiro é transformar a nova composição do Congresso em instrumento para mudanças constitucionais.
O próprio Flávio falou em utilizar a maioria parlamentar para “mudar a Constituição”.
Mas existe uma barreira importante: uma maioria política não significa automaticamente maioria suficiente para aprovar qualquer proposta.
Mudanças na Constituição exigem três quintos dos votos, em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado.
Por isso, o tamanho das bancadas de centro será tão importante quanto o crescimento da direita.
O SEGUNDO TURNO PODE MUDAR ESSA EQUAÇÃO
Flávio chega ao segundo turno depois de terminar a primeira rodada na liderança, com 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula ficou com 53,9 milhões, equivalentes a 45,16%. O TSE confirmou oficialmente a passagem dos dois candidatos para a segunda etapa.
A diferença foi de 1,87 ponto percentual.
Isso significa que, apesar da vantagem numérica de Flávio no primeiro turno, a eleição presidencial ainda está aberta à decisão do eleitorado no dia 25 de outubro.
E o próprio desenho do segundo turno pode alterar as negociações políticas.
A federação União Progressista, os governadores, os partidos de centro e os grupos que ficaram fora da disputa presidencial passam a ter peso ainda maior na formação da futura base governista.
Ronaldo Caiado já anunciou apoio a Flávio. Romeu Zema e Michel Temer também declararam apoio ao candidato do PL.
O desafio será transformar esses apoios eleitorais em uma coalizão parlamentar efetiva.
A DISPUTA COMEÇOU ANTES DA POSSE
É justamente por isso que a declaração de Flávio chama atenção.
O candidato não esperou o segundo turno terminar para falar sobre a sucessão do Congresso.
Ao afirmar que terá maioria para escolher os presidentes das duas Casas, colocou antecipadamente na mesa uma questão que normalmente seria tratada nos bastidores somente depois da eleição presidencial.
Motta e Alcolumbre ainda possuem poder, experiência e capacidade de articulação.
Mas terão diante deles um Congresso diferente daquele que os conduziu às respectivas presidências.
E, pela primeira vez, o eventual futuro presidente da República já sinaliza que pretende participar ativamente dessa escolha.
Se Flávio Bolsonaro vencer em 25 de outubro, a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado poderá se transformar em sua primeira grande batalha política antes mesmo da posse.
Um dia é da caça. Outro, do caçador.
E Brasília já começou a se perguntar quem estará de cada lado da mesa em 1º de fevereiro de 2027.
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