O debate presidencial que seria transmitido pela TV Globo nesta quinta-feira (1º) foi cancelado depois de duas decisões judiciais alterarem as regras previamente definidas para o evento. O episódio colocou o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal e a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro de uma das maiores crises da reta final do primeiro turno.
A primeira decisão partiu da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral. A magistrada proibiu a TV Globo de manter no palco um púlpito vazio com o nome de Lula, que havia sido convidado, mas decidiu não participar do debate.
A emissora também ficou impedida de permitir que os candidatos presentes fizessem perguntas diretamente ao presidente ausente. A decisão atendeu a uma representação apresentada pela coligação formada por PT, PCdoB e Rede.
A campanha de Flávio Bolsonaro classificou a medida como censura e afirmou que a decisão retirava da emissora e dos demais candidatos a possibilidade de abordar a ausência de Lula durante o programa.
Pouco depois, o ministro Gilmar Mendes, do STF, autorizou a participação do candidato Renan Santos, do partido Missão, que não estava entre os convidados originais. A decisão alterou novamente a composição do debate e aumentou a insegurança sobre o formato do evento.
Diante das mudanças de última hora, Flávio Bolsonaro desistiu de participar. Lula já havia comunicado anteriormente que não compareceria e optou por participar de uma entrevista em podcast. Com as ausências dos dois principais candidatos, a TV Globo anunciou o cancelamento do debate e alegou que as decisões judiciais provocaram insegurança jurídica e comprometeram o planejamento da transmissão.
O episódio ganhou ainda mais repercussão por causa da trajetória de Estela Aranha. A ministra foi indicada pelo presidente Lula para uma vaga efetiva no TSE em 2025, depois de integrar uma lista tríplice encaminhada ao Executivo. Ela tomou posse em agosto daquele ano para um mandato de dois anos.
Antes de chegar ao tribunal, Estela atuou como secretária nacional de Direitos Digitais no Ministério da Justiça e como assessora especial de Flávio Dino, quando ele comandava a pasta. A informação foi utilizada por críticos para questionar a proximidade política da ministra com integrantes do atual governo.
A relação profissional anterior, porém, não comprova que a decisão tenha sido tomada para beneficiar Lula. O que está documentado é que a ministra analisou um pedido da coligação do presidente e determinou a retirada do púlpito vazio e das perguntas dirigidas ao candidato ausente.
A TV Globo afirmou que as ordens do TSE e do STF modificaram regras que já haviam sido definidas para o debate. O cancelamento impediu que os candidatos apresentassem suas propostas e confrontassem os adversários poucos dias antes da votação.
O caso abriu uma nova discussão sobre os limites da atuação do Judiciário em eventos eleitorais, a liberdade das emissoras para organizar debates e o direito do eleitor de acompanhar o confronto direto entre os candidatos.
A reta final da eleição, que deveria ser marcada pelo debate de ideias, terminou dominada por decisões judiciais, acusações de censura e acusações de interferência no processo eleitoral.
