Nascido em São Paulo, mas criado e educado em Ilhéus, Ramon Cerqueira Santos construiu, aos 29 anos, uma trajetória que aproxima a sala de aula, a pesquisa acadêmica, a tecnologia e a literatura. Professor da Escola Nossa Senhora das Neves, no distrito de São José, e formado em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), ele pesquisa a aplicação de tecnologias lúdicas-digitais no ensino de línguas estrangeiras. No próximo dia 9, completa 30 anos.
É também desse encontro entre educação e experiência cotidiana que nasce Liturgia dos Inquietos, obra em que Ramon abandona a ideia de que a filosofia precisa permanecer restrita aos livros e aos ambientes acadêmicos e a coloca diante de questões que atravessam a vida de quem trabalha, ensina, perde, duvida e tenta encontrar algum sentido no cotidiano.
O livro reúne ensaios, cartas, diálogos, fragmentos, orações e cenas escolares para construir uma reflexão que passa por temas como trabalho, desigualdade, culpa, luto, solidão, fé e sobrevivência. Para isso, o autor coloca em diálogo pensadores de épocas e perspectivas distintas, como Sócrates, Santo Agostinho, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Simone Weil, Albert Camus, Hannah Arendt, Paulo Freire e Ailton Krenak.
A escolha desses autores não parece funcionar como simples exibição de repertório. Em Liturgia dos Inquietos, eles são convocados para conversar com situações concretas: uma estrada percorrida antes do amanhecer, o silêncio depois que uma aula termina, o trabalho que ultrapassa aquilo que aparece no contracheque, a memória de uma cidade deixada para trás e a experiência de construir uma vida no sul da Bahia.
É justamente nessa aproximação entre o pensamento e a vida comum que o livro encontra sua característica mais interessante.
Sócrates aparece associado à inquietação que nasce quando o indivíduo reconhece que não sabe. Marx ajuda a iluminar o trabalho para além da simples obrigação econômica, alcançando as relações sociais e o preço humano daquilo que produzimos. Nietzsche surge no território das crises de valores e da necessidade de confrontar as certezas herdadas. Camus permite pensar o absurdo e a permanência do indivíduo diante de uma existência que nem sempre oferece respostas proporcionais às perguntas que fazemos.
Em outro registro, Simone Weil aproxima a reflexão da experiência do trabalho, da atenção e do sofrimento; Hannah Arendt amplia o olhar sobre a condição humana e a relação entre trabalho, ação e vida pública; Paulo Freire traz a educação como prática de diálogo e transformação; enquanto Ailton Krenak desloca a discussão para uma crítica à maneira como a sociedade moderna se relaciona com a vida, com o tempo e com a própria ideia de progresso.
Ramon não escreve, portanto, sobre filosofia como quem prepara uma aula de história do pensamento. Ele tenta fazer algo mais arriscado: colocar filósofos e pensadores diante de experiências que não possuem necessariamente linguagem acadêmica.
Essa característica ganha ainda mais significado quando se conhece sua trajetória. Formado em Letras pela UESC e atuando no ensino de línguas, Ramon desenvolve pesquisa justamente na fronteira entre educação e novas formas de aprendizagem, investigando o uso de tecnologias lúdicas-digitais no ensino de línguas estrangeiras. Há, portanto, uma coerência entre o pesquisador que procura novas maneiras de aproximar o conhecimento dos estudantes e o escritor que procura retirar a filosofia de seu pedestal e colocá-la diante da vida.
A sala de aula também aparece como matéria literária. Não apenas como cenário, mas como espaço onde se encontram as contradições da educação, as expectativas de quem ensina, as dificuldades de quem aprende e a realidade social que atravessa qualquer processo educativo.
É nesse ponto que a juventude do autor torna a obra ainda mais curiosa. Aos 29 anos, Ramon escreve sobre questões que não pertencem exclusivamente a uma determinada geração. O luto, o trabalho, a solidão, a fé e a sensação de que a vida pode estar sendo consumida enquanto se tenta simplesmente sobreviver não são problemas de idade. São questões humanas.
E talvez seja essa a razão de Liturgia dos Inquietos não se apresentar como um livro de respostas. A obra não promete ensinar o leitor a vencer a inquietação nem transformar sofrimento em uma coleção de frases motivacionais. Sua proposta parece ser outra: permanecer próximo da dúvida e reconhecer que algumas perguntas são importantes justamente porque não desaparecem.
Essa perspectiva encontra uma síntese particularmente poderosa na relação entre memória e leitura. Ramon se apresenta como alguém que precisa voltar aos livros porque esquece. A frase, aparentemente simples, desmonta a imagem do intelectual que tudo retém e nada questiona. Ler, nesse caso, não é acumular conhecimento para demonstrá-lo depois; é retornar às ideias porque elas continuam necessárias.
Talvez por isso a literatura de Ramon seja atravessada por uma espécie de movimento de ida e volta: entre São Paulo e Ilhéus, entre a sala de aula e o livro, entre a tecnologia e a experiência humana, entre a filosofia e o cotidiano, entre aquilo que se acredita e aquilo que permanece em dúvida.
Sua história começa em São Paulo, mas é em Ilhéus que sua formação ganha raízes. Foi na cidade onde cresceu e estudou que se tornou professor, pesquisador e agora escritor. Aos 30 anos, que completará no próximo dia 9, Ramon chega a um novo momento de sua trajetória levando consigo uma pergunta que parece atravessar toda a sua obra: o que fazemos com a vida enquanto estamos ocupados tentando vivê-la?
Liturgia dos Inquietos não oferece uma resposta definitiva. Talvez nem devesse. Seu mérito está justamente em transformar a inquietação em matéria de pensamento e aproximar autores que escreveram em épocas diferentes de problemas que continuam acontecendo dentro de uma sala de aula, numa estrada antes do amanhecer, no silêncio depois do trabalho ou diante de uma página que precisamos reler porque, de algum modo, já esquecemos.
Ramon Cerqueira Santos pertence a uma geração que cresceu entre livros e telas, entre métodos tradicionais de ensino e novas tecnologias, entre a velocidade das informações e a dificuldade cada vez maior de encontrar tempo para pensar. É dessa tensão que seu trabalho acadêmico e literário parece partir.
E, talvez, seja também aí que esteja sua contribuição mais interessante: não apresentar a filosofia como algo distante da vida, mas como uma ferramenta para enxergá-la melhor.

ONDE ENCONTRAR O LIVRO
Para os leitores que se interessarem pela obra, Liturgia dos Inquietos, de Ramon Cerqueira Santos, já pode ser adquirido em formato e-book pela Amazon.
