Compra de 100% da controladora da fabricante brasileira de mísseis e foguetes ocorre após aproximação da empresa com o governo Lula e em um momento de forte interesse dos Estados Unidos pelos minerais críticos brasileiros
A entrada dos irmãos Joesley e Wesley Batista no controle da Avibras Aeroco, uma das empresas mais estratégicas da indústria de defesa brasileira, abre uma nova frente de negócios para a família que controla a J&F e a JBS.
A aquisição de 100% da Nova AVB, controladora da Avibras Aeroco, foi acertada nesta sexta-feira (21) por meio da Globe Investimentos, veículo ligado aos empresários. O valor da transação não foi divulgado e a operação ainda depende da análise e aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
O negócio ocorre poucos meses depois de a Avibras retomar suas atividades industriais e em um momento no qual o governo brasileiro passou a tratar a indústria de defesa e os minerais críticos como áreas diretamente relacionadas à soberania tecnológica e econômica do país.
É justamente nesse ponto que surge uma questão que merece atenção: o que a compra da Avibras tem a ver com a corrida internacional pelas terras raras brasileiras?
A resposta, até o momento, não permite afirmar que exista uma operação conjunta entre os dois setores. Não há evidência pública de que a Globe ou os irmãos Batista estejam comprando a Avibras para explorar terras raras, nem de que a empresa tenha sido adquirida para atuar diretamente no setor mineral.
Mas existe uma conexão estratégica muito mais ampla — e ela está na indústria de defesa e na disputa global pelo domínio tecnológico.
Avibras volta ao centro da indústria de defesa
Fundada em 1961 por engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Avibras construiu uma posição singular na indústria militar brasileira.
Seu produto mais conhecido é o sistema ASTROS, plataforma de artilharia de foguetes que se tornou uma das principais tecnologias militares desenvolvidas no Brasil e foi exportada para diferentes países.
A empresa também desenvolve sistemas de mísseis, foguetes e equipamentos aeroespaciais.
O Ministério da Defesa mantém a Avibras entre as empresas estratégicas da indústria nacional de defesa. Em julho deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, visitaram as instalações da companhia em Jacareí (SP).
Na ocasião, a comitiva conheceu áreas de fabricação de componentes metálicos para mísseis e foguetes, montagem de sistemas de defesa e fabricação de veículos especiais.
O governo federal, portanto, já vinha demonstrando interesse na recuperação da capacidade industrial da empresa antes da entrada definitiva dos Batista.
Da crise financeira à retomada
A aquisição acontece depois de uma das maiores crises da história da companhia.
A Avibras entrou em recuperação judicial em março de 2022, em meio a uma grave crise financeira e paralisação de suas atividades.
A empresa passou por uma longa greve de trabalhadores, que chegou a durar aproximadamente três anos, enquanto salários e outras obrigações trabalhistas se acumulavam.
A reestruturação empresarial criou uma nova estrutura societária, com a Avibras Aeroco concentrando os ativos e operações industriais.
Em 2026, a empresa conseguiu captar aproximadamente R$ 300 milhões em recursos privados, permitindo a retomada das operações.
Joesley Batista participou dessa captação antes de assumir o controle da companhia. O valor individual de sua participação não foi divulgado.
A fábrica de Jacareí voltou a operar em maio, depois de uma paralisação que havia deixado a companhia praticamente inativa por anos.
Por que os Batista estão entrando na defesa?
A aquisição representa uma mudança significativa na estratégia empresarial da família.
Os irmãos Batista são conhecidos principalmente pela atuação no setor de alimentos e proteínas, por meio da JBS, mas a Globe Investimentos vem sendo utilizada para diversificar os investimentos da família.
A compra da Avibras, portanto, não significa que a JBS esteja assumindo uma fabricante de armas.
A compradora é a Globe Investimentos, veículo de investimentos ligado aos irmãos Batista.
A distinção é importante porque a JBS e a Avibras não passam a formar, necessariamente, uma única operação empresarial.
O objetivo declarado pela Globe é dar sustentação à retomada da Avibras, preservar sua capacidade tecnológica e industrial e criar condições para crescimento nos mercados brasileiro e internacional.
E onde entram as terras raras?
É aqui que a discussão ganha dimensão geopolítica.
As terras raras não são importantes apenas para carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e tecnologia.
Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), esses elementos possuem aplicações diretamente relacionadas à defesa.
A agência cita seu uso em mísseis, drones, submarinos nucleares, caças supersônicos, radares e sistemas de orientação de armas guiadas.
O Ministério de Minas e Energia também classifica as terras raras entre os minerais estratégicos utilizados em tecnologias avançadas.
É por isso que a disputa pelo domínio das cadeias de terras raras ultrapassou o campo da mineração e entrou definitivamente na agenda de segurança nacional e defesa.
E o Brasil possui uma posição privilegiada nesse cenário.
Brasil virou peça importante na disputa entre Estados Unidos e China
O Brasil possui grandes recursos minerais e um potencial relevante em terras raras.
A ANM informa que as ocorrências brasileiras estão concentradas principalmente em Minas Gerais, Goiás, Pará, Bahia e Amazonas.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos vêm tentando diversificar suas fontes de fornecimento e reduzir sua dependência das cadeias controladas pela China.
O interesse americano é especialmente significativo porque terras raras e outros minerais críticos são fundamentais para tecnologias militares e industriais avançadas.
Em maio, o próprio Cade abriu procedimento relacionado à aquisição da Serra Verde pela americana USA Rare Earth, em uma operação envolvendo a única produtora comercial de terras raras em atividade no Brasil.
Mais recentemente, os Estados Unidos ampliaram seu compromisso financeiro com a operação da Serra Verde, reforçando a importância estratégica que Washington atribui aos minerais brasileiros.
Lula e os Estados Unidos discutem minerais críticos
A agenda também chegou diretamente às conversas entre os governos brasileiro e americano.
Após encontro com o presidente Donald Trump, Lula afirmou que o Brasil está disposto a compartilhar seu potencial em minerais críticos com outros países, inclusive os Estados Unidos, mas condicionou qualquer avanço à preservação da soberania nacional e à transferência de tecnologia.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também afirmou que o Brasil não abrirá mão da soberania sobre seus minerais estratégicos e defendeu que essas riquezas sejam utilizadas para promover industrialização, inovação tecnológica e empregos qualificados.
O ponto central da estratégia brasileira, portanto, não é simplesmente retirar o minério do subsolo e exportá-lo.
É desenvolver uma cadeia produtiva capaz de transformar a riqueza mineral em tecnologia e indústria dentro do próprio país.
Há ligação entre Joesley e a interlocução Brasil–EUA sobre terras raras?
Essa é uma das questões mais sensíveis que surgem diante da coincidência dos fatos.
Até o momento, não encontramos em fontes oficiais uma confirmação de que Joesley Batista seja interlocutor formal do governo Lula com os Estados Unidos nas negociações sobre terras raras ou minerais críticos.
Há relatos e especulações nesse sentido, mas isso não é suficiente para transformar a afirmação em fato jornalístico.
Também não há, nas informações públicas disponíveis sobre a aquisição da Avibras, indicação de que a compra tenha como objetivo acessar reservas de terras raras ou atuar na mineração desses elementos.
A conexão comprovável é outra:
Avibras representa tecnologia de defesa; terras raras representam insumos estratégicos para tecnologias militares; e Estados Unidos e Brasil estão negociando justamente a formação de cadeias de minerais críticos e defesa em um cenário de crescente competição tecnológica global.
Essa interseção é real.
A ligação direta entre os Batista e as negociações sobre terras raras, porém, precisa de provas adicionais.

O histórico dos Batista e a Lava Jato
A entrada dos irmãos Batista em uma empresa estratégica de defesa também inevitavelmente recoloca em discussão o histórico da família no cenário político e empresarial brasileiro.
Em 2017, Joesley e Wesley Batista firmaram acordos de colaboração premiada com o Ministério Público Federal, posteriormente homologados pelo Supremo Tribunal Federal.
Os acordos envolveram informações relacionadas a diferentes investigações e desdobramentos da Lava Jato. O próprio STF registrou, à época, que Joesley se apresentava como colaborador da Justiça no contexto da Operação Lava Jato.
A J&F também celebrou um acordo de leniência de R$ 10,3 bilhões com o Ministério Público Federal, envolvendo fatos investigados em operações como Greenfield, Sépsis, Cui Bono, Bullish e Carne Fraca.
É importante, entretanto, separar os fatos.
A existência desses acordos e das investigações não permite afirmar que a atual aquisição da Avibras tenha relação com aqueles episódios.
Também não há evidência pública, nas fontes consultadas, de que Lula tenha escolhido ou designado Joesley Batista para negociar terras raras com o governo americano.
A relação entre os fatos precisa ser demonstrada por documentos, contratos, agendas oficiais ou declarações das partes — não por coincidências ou proximidade política presumida.
O que realmente torna a compra da Avibras estratégica
A importância da operação pode ser compreendida sem recorrer a teorias.
A Avibras controla conhecimento tecnológico acumulado durante décadas em uma área considerada estratégica pelo Estado brasileiro.
Sua capacidade envolve foguetes, mísseis, sistemas de artilharia e tecnologias aeroespaciais.
O próprio Ministério da Defesa reconhece a relevância estratégica da empresa e, em 2026, acompanhou de perto sua retomada.
Além disso, o governo federal possui contratos históricos com a companhia. Dados do Portal da Transparência registram, por exemplo, contrato do Exército para aquisição de foguetes do sistema ASTROS, com valor inicial de R$ 60,8 milhões e vigência entre dezembro de 2023 e dezembro de 2026.
Isso significa que a Avibras não é apenas uma empresa privada qualquer.
Ela está inserida em uma cadeia que envolve defesa nacional, compras governamentais, tecnologia militar, exportações e soberania industrial.
O ponto que merece atenção do Brasil
É justamente aqui que a compra pelos Batista merece ser acompanhada.
O Brasil possui minerais estratégicos, indústria de defesa, centros de pesquisa, universidades, empresas de alta tecnologia e um mercado interno relevante.
Mas ainda enfrenta dificuldades para transformar recursos naturais em produtos tecnológicos de alto valor agregado.
O próprio governo federal reconhece esse desafio.
Um documento técnico do setor mineral destaca que terras raras são fundamentais para ímãs permanentes, motores, mísseis, sistemas guiados, radares e equipamentos espaciais.
Portanto, a questão estratégica não é simplesmente:
“Quem possui a mina?”
A pergunta mais importante é:
“Quem controla a tecnologia que transforma o mineral em produto estratégico?”
Avibras e terras raras podem se encontrar no futuro?
É possível imaginar uma aproximação entre essas cadeias, mas seria precipitado afirmar que ela já existe.
Se o Brasil conseguir desenvolver internamente processamento de terras raras, produção de ligas, ímãs permanentes e componentes avançados, empresas nacionais da indústria de defesa poderão eventualmente se beneficiar dessa cadeia.
Nesse cenário, uma companhia como a Avibras poderia estar inserida em um ecossistema tecnológico mais sofisticado.
Mas isso é uma possibilidade estratégica, não uma operação anunciada.
Até agora, não há informação pública confiável de que a Avibras esteja sendo integrada a algum projeto específico de terras raras.

A nova equação geopolítica
A aquisição da Avibras acontece, portanto, em um momento particularmente sensível.
De um lado, o Brasil tenta recuperar sua indústria de defesa e ampliar a autonomia tecnológica.
De outro, os Estados Unidos buscam fornecedores alternativos de minerais críticos.
Enquanto isso, a China permanece como potência dominante em diversos segmentos da cadeia global de terras raras.
Nesse tabuleiro, Brasil, Estados Unidos e China possuem interesses que nem sempre coincidem.
O Brasil quer investimentos e tecnologia sem abrir mão da soberania sobre seus recursos.
Os Estados Unidos querem segurança de fornecimento e redução da dependência chinesa.
E empresas privadas buscam oportunidades de investimento e expansão.
É nesse ambiente que a compra da Avibras pelos irmãos Batista ganha uma dimensão que vai além de uma simples operação empresarial.
Uma operação que merece acompanhamento
A aquisição ainda precisa passar pelo Cade e cumprir os demais procedimentos necessários para sua conclusão.
Até lá, qualquer afirmação de que os Batista compraram a Avibras para controlar terras raras, participar de negociações secretas com os Estados Unidos ou atuar como representantes do governo Lula seria especulação sem comprovação documental.
O que já está confirmado é suficientemente relevante:
um dos maiores grupos empresariais brasileiros está entrando no controle de uma das empresas mais estratégicas da indústria nacional de defesa justamente quando o Brasil se tornou peça importante na disputa internacional por minerais críticos, tecnologia militar e soberania industrial.
Se essas duas agendas permanecerão separadas ou se, no futuro, convergirão em novos projetos industriais é uma questão que merece ser acompanhada de perto.
Porque, no novo cenário geopolítico, quem controla minerais críticos, tecnologia e capacidade de defesa controla uma parcela crescente do poder econômico e estratégico do século XXI.
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