Disputa global por minerais estratégicos transforma o subsolo brasileiro em ativo geopolítico; americanos avançam sobre cadeia considerada essencial para tecnologia, energia e defesa
O Brasil entrou definitivamente no mapa da disputa mundial por terras raras. Detentor da segunda maior reserva conhecida desses minerais no mundo, atrás apenas da China, o país passou a atrair uma quantidade crescente de empresas estrangeiras interessadas em pesquisar e explorar um conjunto de 17 elementos químicos considerados estratégicos para a indústria tecnológica, a transição energética e o setor de defesa.
Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam que empresas sediadas fora do Brasil estão por trás de aproximadamente 42% dos pedidos de exploração de terras raras registrados no país. A corrida ganhou velocidade nos últimos anos: mais de 86% dos requerimentos foram apresentados desde 2023, em um movimento que acompanha o aumento da disputa internacional pelo controle das cadeias de minerais críticos.
O interesse estrangeiro não acontece por acaso. Terras raras são utilizadas na fabricação de ímãs permanentes de alta potência, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e diversas tecnologias avançadas. Alguns desses elementos também possuem aplicações relacionadas à indústria de defesa.
A própria ANM classifica terras raras, ao lado de minerais como lítio, níquel, cobalto, manganês, grafita e cobre, como insumos críticos e estratégicos para a economia e para a transição energética.
A corrida contra a dependência da China
O movimento brasileiro precisa ser observado dentro de uma disputa geopolítica maior. A China domina grande parte da cadeia mundial de terras raras, especialmente as etapas de processamento e refino. Segundo a Corporação Financeira Internacional dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (DFC), Pequim chegou a controlar cerca de 90% da capacidade mundial de produção de terras raras em determinados períodos.
Para Washington, diversificar fornecedores deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a ser tratada como questão de segurança nacional. A estratégia americana busca construir cadeias de fornecimento de minerais críticos fora da dependência chinesa.
É nesse cenário que o Brasil ganha importância.
O país possui uma das maiores concentrações de terras raras do planeta, mas ainda produz pouco e possui uma deficiência justamente nas etapas que mais agregam valor ao minério: separação, refino, produção de metais e fabricação dos ímãs.
Segundo pesquisadores vinculados ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), o Brasil ainda precisa desenvolver infraestrutura tecnológica para dominar essas etapas e transformar sua vantagem geológica em uma cadeia industrial competitiva.
O movimento americano já chegou a uma mina brasileira
Um dos exemplos mais claros dessa aproximação está em Goiás.
A Serra Verde, localizada em Minaçu, é atualmente o principal projeto brasileiro de terras raras em operação comercial. A empresa iniciou a produção em 2024 e trabalha principalmente com terras raras pesadas.
Em abril de 2026, a companhia anunciou uma combinação de negócios com a americana USA Rare Earth. O objetivo declarado é formar uma estrutura multinacional capaz de atuar em diferentes etapas da cadeia, da mineração à produção de ímãs.
O envolvimento americano também ultrapassa o capital privado.
A DFC aprovou um financiamento de US$ 565 milhões para a expansão da mina da Serra Verde. O próprio órgão americano classifica o investimento como uma forma de desenvolver uma fonte de terras raras alinhada ao Ocidente e fortalecer cadeias alternativas de fornecimento.
Além disso, a Serra Verde assinou um contrato de fornecimento de 15 anos para entregar 100% da produção de sua primeira fase a uma estrutura financeira capitalizada por diversas agências do governo dos Estados Unidos e por investidores privados, com preço mínimo garantido para as terras raras magnéticas. O acordo está sendo analisado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Isso significa que o interesse americano não está restrito à compra eventual de minério. Existe uma movimentação para participar de diferentes elos da cadeia de produção e garantir fornecimento de longo prazo.
Brasil tem o minério, mas ainda não domina a tecnologia
É justamente nesse ponto que está um dos maiores desafios brasileiros.
Ter reservas gigantescas não significa, automaticamente, ter controle econômico sobre elas. O maior valor de uma cadeia de terras raras não está necessariamente na retirada do minério do solo, mas nas etapas posteriores de processamento e transformação.
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) destaca que o Brasil possui grande potencial mineral, mas ainda tem participação pequena na produção mundial e encontra-se em estágio inicial em etapas de maior valor agregado, especialmente na separação química dos elementos.
O governo federal reconhece esse problema.
Em documento publicado em 2026, o Ministério de Minas e Energia afirma que pretende atrair investimentos estrangeiros tanto para exploração quanto para transformação mineral, mas também defende o aumento da agregação de valor dos minerais estratégicos dentro do país.
A questão, portanto, não é simplesmente permitir ou impedir a entrada de capital estrangeiro.
O verdadeiro desafio é determinar quanto valor econômico, tecnológico e industrial permanecerá no Brasil depois que o minério for retirado do subsolo.
Uma estratégia americana silenciosa?
É nesse ponto que a movimentação dos Estados Unidos ganha dimensão estratégica.
Washington não precisa necessariamente controlar diretamente todas as reservas brasileiras para ampliar sua segurança mineral. Investimentos, contratos de fornecimento de longo prazo, participação em empresas, financiamento de projetos e acesso às etapas de processamento podem produzir um resultado semelhante: garantir que uma parcela relevante da produção brasileira esteja integrada a uma cadeia de fornecimento alinhada aos interesses americanos.
O próprio governo dos Estados Unidos apresenta seus investimentos em minerais críticos como instrumentos para diversificar cadeias de suprimento e reduzir vulnerabilidades geopolíticas. No caso da Serra Verde, essa lógica está explicitamente registrada nos documentos da DFC.
Isso não significa que o Brasil esteja “perdendo” suas reservas ou que exista uma operação secreta americana para tomar o controle do subsolo brasileiro. As concessões minerais continuam submetidas à legislação nacional e à fiscalização dos órgãos brasileiros.
Mas os números mostram uma realidade que merece atenção: enquanto o Brasil ainda constrói sua estratégia para transformar reservas em indústria, empresas e instituições estrangeiras já estão se posicionando para participar da futura cadeia global de terras raras.
A oportunidade brasileira
O governo brasileiro tenta transformar essa corrida internacional em oportunidade de industrialização.
O Ministério de Minas e Energia afirma que pretende criar condições para atrair capital estrangeiro sem abrir mão da soberania e do interesse nacional. Em maio, o ministro Alexandre Silveira afirmou que o objetivo é evitar que o país permaneça apenas como exportador de commodities e avançar para etapas industriais de maior valor agregado.
A disputa pode representar uma oportunidade econômica de grandes proporções. Estudo divulgado pela Amcham estimou que a expansão dos investimentos em minerais críticos e terras raras poderia acrescentar cerca de R$ 192,1 bilhões ao PIB brasileiro até 2050.
O problema é que o relógio geopolítico está correndo.
Estados Unidos, União Europeia, Japão e outros países procuram fornecedores alternativos à China. O Brasil possui o recurso que todos procuram, mas ainda precisa construir a capacidade tecnológica para transformar essa riqueza subterrânea em produtos industriais de alto valor.
A grande disputa, portanto, não será apenas sobre quem retira as terras raras do Brasil.
Será sobre quem controla a tecnologia, o processamento, os contratos, os mercados e a indústria que transforma esses minerais em produtos estratégicos.
E é justamente aí que a silenciosa corrida internacional pelo subsolo brasileiro começa a ficar mais evidente.
