A eleição baiana começa a desenhar uma disputa em que a força nacional de Lula pode não ser suficiente para garantir a reeleição de Jerônimo, enquanto ACM Neto procura atravessar a polarização presidencial para alcançar um eleitorado mais amplo
OLHAR PÚBLICO | Thiago Viana Borges
A eleição para o Governo da Bahia começa a assumir contornos mais complexos do que a simples repetição da disputa de 2022. Naquele ano, a força eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva foi um componente decisivo para a vitória de Jerônimo Rodrigues, enquanto ACM Neto, apesar de ter liderado pesquisas durante boa parte da campanha, acabou derrotado no segundo turno. Quatro anos depois, entretanto, o ambiente político é diferente. Lula continua sendo uma força eleitoral relevante na Bahia, mas chega à disputa nacional enfrentando desgaste político, uma eleição mais competitiva e uma sucessão de episódios envolvendo integrantes de seu entorno político e familiar. Paralelamente, o governo Jerônimo precisa apresentar ao eleitor resultados concretos de sua própria administração, enquanto ACM Neto tenta fazer da amplitude política — e não necessariamente da identificação com um presidenciável — o principal instrumento de sua candidatura.
É nesse ponto que a leitura de Levi Vasconcelos, de A TARDE, sobre Jerônimo entrar em campo com Lula e ACM Neto procurar conversar com diferentes forças políticas ganha uma dimensão maior. A estratégia não significa necessariamente que ACM Neto esteja “em cima do muro”. Pode significar exatamente o contrário: uma decisão deliberada de não transformar a eleição estadual em uma extensão automática da disputa presidencial. Em uma Bahia historicamente favorável a Lula, assumir antecipadamente uma candidatura presidencial poderia limitar o espaço de crescimento de Neto entre eleitores que aprovam Lula, mas desejam mudança no governo estadual. A existência desse eleitorado é uma hipótese eleitoral plausível e já foi observada em diferentes eleições brasileiras por meio do chamado voto cruzado, mas sua dimensão real somente poderá ser conhecida pelas pesquisas e, posteriormente, pelas urnas.
O raciocínio é simples: se Lula possui uma base eleitoral relevante na Bahia, mas parte desse eleitorado estiver disposta a escolher outro nome para governador, seria eleitoralmente pouco racional para um candidato oposicionista fechar essa porta antes mesmo do início da campanha. Ao não declarar preferência presidencial, ACM Neto mantém abertas conversas com eleitores de Lula, de candidatos de centro, da direita e até com setores que simplesmente desejam alternância no comando do estado. A consequência é previsível: a estratégia desagrada os eleitores mais ideologicamente radicalizados dos diferentes campos. Mas justamente por isso ela pode ampliar o espaço disponível no centro e entre os eleitores menos identificados com a polarização nacional.
Essa estratégia também explica por que a eleição baiana não deve ser analisada apenas pela lógica “Lula contra Bolsonaro”. O eleitor escolhe presidente, governador, senador e deputados em votações distintas. Não existe obrigação constitucional, eleitoral ou política de reproduzir a mesma preferência em todas as urnas. O eleitor pode votar em Lula para presidente e em ACM Neto para governador, assim como pode escolher um candidato diferente para o Senado. O chamado voto casado é uma possibilidade, não uma regra. E quanto mais competitiva fica uma eleição, maior tende a ser o interesse dos candidatos em conquistar o eleitor que faz escolhas diferentes para cargos diferentes.
O PT, entretanto, tem uma vantagem que não pode ser ignorada: governa a Bahia há duas décadas. Desde a eleição de Jaques Wagner em 2006, o grupo político petista permaneceu no Palácio de Ondina, passando por Wagner, Rui Costa e, posteriormente, Jerônimo Rodrigues. Essa continuidade produziu uma estrutura política extraordinariamente capilarizada, com prefeitos, deputados, vereadores, secretários, lideranças municipais e uma relação consolidada com Brasília. Não se trata, portanto, de uma máquina política que possa ser desmontada simplesmente pela apresentação de um candidato competitivo.
Mas a mesma longevidade que produz estrutura também pode produzir desgaste. Depois de aproximadamente 20 anos de governos do mesmo campo político, a eleição naturalmente passa a incorporar a pergunta sobre continuidade ou mudança. Não significa que o eleitor necessariamente queira alternância, mas significa que a oposição dispõe de um argumento eleitoral que não existia com a mesma força no início do ciclo petista: a ideia de que a Bahia precisa experimentar outro projeto administrativo depois de duas décadas de uma mesma força política no comando estadual.
Esse argumento ganha força quando confrontado com a percepção sobre a execução de promessas. O levantamento do projeto “Promessas dos Políticos”, do G1, publicado em julho de 2026, apontou compromissos assumidos por Jerônimo que permaneciam sem conclusão ou execução integral até junho deste ano, incluindo projetos relacionados a infraestrutura, saúde, abastecimento de água e outras áreas. Entre os exemplos citados estão a Ponte Salvador-Itaparica, o VLT do Subúrbio, o Hospital Regional de Valença e metas relacionadas à implantação de sistemas de abastecimento. A própria campanha de ACM Neto utiliza esses dados para sustentar a crítica de que o governo estadual prometeu mais do que conseguiu entregar.
Aqui, contudo, é necessário separar propaganda eleitoral de avaliação independente. A página “Jero Lero”, mantida pela campanha de ACM Neto, utiliza o levantamento do G1 como referência, mas apresenta a interpretação política da oposição sobre o cumprimento das promessas. O dado jornalístico e a interpretação partidária não são a mesma coisa. O ponto objetivo é que existem compromissos de campanha cuja execução permanece incompleta; a conclusão sobre o peso eleitoral disso pertence ao eleitor.
Jerônimo também enfrenta outra dificuldade: precisa disputar a eleição defendendo sua própria administração, e não apenas apresentando Lula como avalista. A associação com o presidente pode ser uma poderosa ferramenta eleitoral, especialmente na Bahia, mas também pode funcionar como uma armadilha caso a disputa estadual passe a ser dominada por problemas nacionais. Um candidato à reeleição precisa responder por aquilo que está sob sua responsabilidade direta: segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, mobilidade, emprego, investimentos e execução orçamentária. Lula pode ajudar Jerônimo eleitoralmente, mas não pode inaugurar uma obra estadual que não foi concluída nem explicar uma promessa estadual que não saiu do papel.
É justamente por isso que o governador precisará encontrar equilíbrio entre duas imagens: a de aliado de Lula e a de gestor da Bahia. Quanto mais a campanha depender da transferência automática da popularidade presidencial, maior será o risco de a avaliação do governo federal contaminar a avaliação do governo estadual. A estratégia mais eficiente para o governador, nesse sentido, passa necessariamente por apresentar resultados próprios e transformar realizações administrativas em argumentos eleitorais concretos.
O desgaste de Rui Costa acrescenta outra camada à equação. O ex-governador, atual ministro da Casa Civil e candidato ao Senado, construiu durante seus oito anos de governo uma imagem associada à gestão, investimentos em infraestrutura e expansão da rede pública. Essa imagem ajudou a consolidar a continuidade do grupo político. Em diferentes momentos, inclusive, Rui conseguiu atrair votos de eleitores que não necessariamente estavam alinhados ao PT em nível nacional. A força dessa memória administrativa ainda é um ativo político para o grupo governista.
Mas Rui chega à eleição de 2026 sob pressão decorrente de episódios que voltaram ao debate público. O mais concreto neste momento é a auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia que apontou erros administrativos considerados grosseiros na compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste durante a pandemia e recomendou a rejeição das contas relativas à gestão de 2020. O processo ainda não foi definitivamente julgado: o relatório será submetido ao colegiado do TCE-BA e, posteriormente, a Assembleia Legislativa terá a palavra final sobre as contas. Rui e sua defesa sustentam que a compra ocorreu em um contexto extraordinário de emergência sanitária e negam a existência de dolo ou erro grosseiro.
O caso Credcesta também voltou ao debate político por sua conexão com o universo empresarial do Banco Master. Reportagens apontam que Augusto Lima, ex-sócio do banco, tinha relações políticas com Rui Costa e Jaques Wagner desde o período em que o cartão consignado Credcesta foi criado na Bahia, quando Rui era governador e Wagner secretário estadual de Desenvolvimento Econômico. Essas conexões, porém, precisam ser tratadas como relações políticas e empresariais documentadas, e não como prova de participação de Rui Costa ou Wagner em eventuais crimes investigados no caso Master.
O próprio caso Master tornou-se um problema nacional para diferentes grupos políticos. O senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, foi alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades relacionadas ao Banco Master. Ser alvo de uma medida investigativa, entretanto, não equivale a condenação nem comprova participação em ilícitos. O episódio, contudo, possui inevitável dimensão política porque Wagner ocupa posição central na articulação do governo Lula no Congresso.
Além disso, investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltaram a colocar o tema da corrupção no ambiente eleitoral nacional. Segundo reportagens recentes, ele é alvo de inquéritos no STF relacionados a suspeitas de intermediação com uma lobista; sua defesa nega irregularidades. O episódio não estabelece responsabilidade de Lula pelos fatos investigados, mas cria um problema político para uma campanha que pretende apresentar o presidente como símbolo de experiência e capacidade administrativa.
É nesse ambiente que aparece a questão central da eleição baiana: até que ponto Lula conseguirá transferir sua força eleitoral para Jerônimo em 2026?
Não existe resposta objetiva neste momento. O eleitorado de Lula na Bahia continua sendo expressivo, mas não é possível assumir que ele repetirá automaticamente o desempenho obtido em 2022. A eleição presidencial de 2026 possui outros candidatos, outro contexto econômico, novas denúncias, novos conflitos políticos e uma disputa diferente. Além disso, a transferência de votos entre presidente e governador não é mecânica.
Se uma parcela do eleitorado baiano continuar votando em Lula para presidente, mas estiver disposta a votar em ACM Neto para governador, a estratégia de não assumir uma preferência presidencial poderá se transformar em um ativo para o candidato do União Brasil. Se, ao contrário, a identidade entre Lula e Jerônimo permanecer suficientemente forte para que o eleitor considere inseparáveis os dois votos, a neutralidade de Neto poderá ter pouco efeito sobre a base lulista.
Essa é uma das principais incógnitas da eleição.
E há um segundo elemento: rejeição. Uma eleição majoritária não é vencida apenas pelo candidato que consegue maior entusiasmo, mas também pelo que consegue impedir que a maioria se forme contra ele. Depois de 20 anos de PT no governo estadual, ACM Neto pode explorar o sentimento de fadiga política de uma parcela do eleitorado. Mas essa estratégia também possui limites: o fato de um grupo governar há muito tempo não significa, por si só, que o eleitor deseje substituí-lo. A oposição precisa transformar a ideia abstrata de “mudança” em uma alternativa concreta de governo.
É aí que a candidatura de ACM Neto se torna mais fluida. Ao não se prender antecipadamente a um presidenciável, ele pode construir uma narrativa exclusivamente baiana: mudança de governo, avaliação da administração estadual, segurança pública, saúde, infraestrutura, geração de empregos e relação com os municípios. Pode conversar simultaneamente com o eleitor de Lula, com o eleitor de centro e com o eleitor de direita. O custo dessa estratégia é evidente: setores mais ideológicos poderão interpretar a postura como falta de posicionamento.
Mas eleições majoritárias não são disputadas apenas por militâncias. São disputadas pelo conjunto do eleitorado.
A fotografia atual confirma que existe competitividade. Pesquisa RealTime Big Data realizada entre 6 e 10 de agosto, com 1.600 eleitores, encontrou empate técnico entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto nas simulações para o governo baiano, dentro de margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento foi registrado no TSE sob o número BA-00277/2026.
Esse dado é importante porque impede qualquer conclusão precipitada. Nem Jerônimo pode tratar a força de Lula como garantia de reeleição, nem ACM Neto pode considerar a tese de mudança como vitória antecipada. A eleição ainda precisa atravessar debates, propaganda, alianças, ataques, respostas, avaliação administrativa e, principalmente, a capacidade de cada candidatura de reduzir sua rejeição.
O cenário, portanto, é menos simples do que “Jerônimo com Lula contra Neto”. O que está em jogo é uma disputa entre duas estratégias eleitorais diferentes. Jerônimo precisa transformar a força de Lula em votos sem permitir que sua candidatura se torne dependente exclusivamente do presidente. Precisa defender oito décadas? Não: duas décadas de um mesmo campo político no poder e, ao mesmo tempo, convencer que a continuidade ainda representa renovação suficiente para os próximos quatro anos. Neto, por sua vez, precisa transformar a promessa de mudança em proposta de governo e provar que sua amplitude política não é apenas uma soma de partidos, mas uma capacidade real de governar.
O presidente Lula, por sua vez, também possui interesse direto nessa equação. Manter o governo da Bahia alinhado ao Palácio do Planalto significa preservar um dos principais territórios eleitorais do PT e uma estrutura política importante no Nordeste. Para isso, não basta apenas repetir a votação de 2022: será necessário transferir sua força presidencial para um governador que precisa ser avaliado pelo desempenho estadual. Quanto mais competitiva for a disputa baiana, maior será o valor estratégico de cada voto que Lula conseguir transferir para Jerônimo.
E é justamente nesse ponto que a estratégia de ACM Neto pode incomodar o campo governista: se o eleitor puder votar em Lula sem necessariamente votar em Jerônimo, a principal vantagem estrutural do PT deixa de funcionar automaticamente.
A eleição de 2026, portanto, poderá ser decidida não pelo eleitor mais apaixonado, mas pelo eleitor que faz escolhas diferentes para cargos diferentes. Esse eleitor não necessariamente está interessado em preservar a polarização nacional dentro da política baiana. Pode querer Lula em Brasília e mudança em Salvador; pode querer continuidade no estado e mudança no governo federal; pode escolher candidatos diferentes simplesmente porque avalia cada cargo individualmente.
Nenhuma dessas possibilidades está determinada.
O que está determinado é que a Bahia chega à eleição de 2026 diante de uma equação política diferente daquela de 2022. Lula continua sendo uma força, mas enfrenta uma conjuntura nacional mais desgastada e uma disputa presidencial própria. Jerônimo carrega os resultados — e também as pendências — de seu governo. Rui Costa continua sendo um ativo importante da estrutura petista, mas enfrenta novos questionamentos políticos e institucionais. E ACM Neto chega com a vantagem estratégica de poder conversar com eleitores que não necessariamente desejam reproduzir no governo estadual a escolha que farão para presidente.
No fim, a grande pergunta não será simplesmente “quem está com Lula?”. Será outra, muito mais decisiva: quantos eleitores baianos estarão dispostos a votar em Lula para presidente e, ainda assim, escolher outro projeto para governar a Bahia?
A resposta a essa pergunta poderá definir o tamanho real da força de Jerônimo e o limite da estratégia de ACM Neto.
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Thiago Viana Borges
Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político
