Decisão de reduzir exercícios militares conjuntos com Washington expõe uma mudança de estratégia de Trump e acende o alerta em Seul: até onde os Estados Unidos estão dispostos a flexibilizar sua aliança para conquistar a aproximação com Pyongyang?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar Kim Jong-un no centro de sua estratégia para a Península Coreana. Neste domingo (16), Trump determinou ao Pentágono que reduza substancialmente os exercícios militares conjuntos entre Estados Unidos e Coreia do Sul, justamente quando começava o exercício Ulchi Freedom Shield, uma das principais operações de preparação militar dos dois aliados.
A decisão não ocorreu isoladamente. Trump justificou sua posição citando sua “muito boa relação” com Kim Jong-un e classificou os exercícios como caros e como um sinal inadequado e hostil à Coreia do Norte. Ao mesmo tempo, afirmou que Pyongyang tem sido “inofensiva e respeitosa” durante seu atual mandato.
O contraste chama atenção.
Enquanto a Coreia do Norte continua desenvolvendo seu arsenal militar e nuclear, Washington decide diminuir justamente uma das ferramentas utilizadas para manter a prontidão das forças americanas e sul-coreanas.
O exercício deste ano envolveria aproximadamente 18 mil militares sul-coreanos, além de forças americanas e integrantes do Comando das Nações Unidas. A atividade foi mantida, mas Trump determinou que sua participação militar fosse substancialmente reduzida.
O que Trump realmente pretende?
É possível interpretar a decisão como parte de uma estratégia de negociação.
Trump já utilizou a redução de exercícios militares como instrumento diplomático durante seu primeiro mandato. Depois do encontro com Kim em 2018, exercícios conjuntos foram cancelados ou reduzidos na tentativa de criar um ambiente favorável às negociações entre Washington e Pyongyang.
Agora, Trump parece tentar repetir a fórmula mas em circunstâncias muito diferentes.
A Coreia do Norte de 2026 não é exatamente a mesma de 2018. O país ampliou suas capacidades militares e nucleares e aprofundou sua relação estratégica com a Rússia. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que a experiência adquirida por militares norte-coreanos envolvidos no conflito da Ucrânia também aumenta a preocupação sobre a evolução das capacidades de Pyongyang.
Por isso, a pergunta que começa a surgir em Washington e Seul é incômoda:
Trump está reduzindo a pressão militar para abrir espaço para a diplomacia ou está oferecendo uma concessão antecipada a Kim Jong-un sem receber nada concreto em troca?
Ainda não existe resposta definitiva.
Mas existe um movimento claro de aproximação.
No sábado, Trump chegou a publicar uma fotografia antiga ao lado de Kim Jong-un e voltou a destacar a relação pessoal entre os dois líderes. A iniciativa alimentou especulações sobre uma possível retomada das negociações ou até de um novo encontro entre eles.
E a Coreia do Sul?
É justamente aqui que a decisão de Trump se torna mais delicada.
A aliança militar entre Washington e Seul existe desde o fim da Guerra da Coreia e representa um dos principais pilares da estratégia de dissuasão contra Pyongyang.
Para a Coreia do Sul, exercícios conjuntos não são apenas demonstrações militares. Eles servem para treinar comandos, testar comunicação, integrar sistemas de armas, aperfeiçoar respostas a ataques e manter tropas preparadas para uma eventual crise.
Reduzir essas atividades pode, portanto, representar uma perda de interoperabilidade e prontidão militar, ainda que não signifique o fim da aliança.
O governo sul-coreano afirmou que continuará coordenando sua postura de defesa com Washington e manifestou esperança de que a relação entre Trump e Kim possa abrir espaço para um diálogo capaz de produzir estabilidade na península.
Mas a oposição sul-coreana e parlamentares americanos já demonstraram preocupação.
O temor é que Pyongyang interprete a redução dos exercícios como sinal de enfraquecimento da disposição americana de defender seu aliado.
E esse é o verdadeiro risco.
O paradoxo de Trump
Trump afirma que a aliança com a Coreia do Sul continua sendo “extremamente importante”, mas, ao mesmo tempo, defende que Seul assuma maior responsabilidade por sua própria defesa e até menciona a possibilidade de uma maior autonomia nuclear sul-coreana.
É uma mudança importante de lógica.
Durante décadas, a mensagem americana foi essencialmente:
“Estamos aqui para garantir que a Coreia do Sul não precise enfrentar a Coreia do Norte sozinha.”
A mensagem que começa a emergir na era Trump é diferente:
“A Coreia do Sul precisa assumir uma parcela cada vez maior da própria segurança.”
Isso pode representar, a longo prazo, uma oportunidade para Seul desenvolver maior autonomia estratégica.
Mas, no curto prazo, também pode produzir insegurança.
Quem ganha com a mudança?
Kim Jong-un pode ganhar espaço diplomático.
Ao reduzir os exercícios que Pyongyang tradicionalmente classifica como preparação para uma invasão, Trump diminui uma das principais fontes de tensão imediata e cria condições para uma eventual negociação.
Trump também pode ganhar politicamente se conseguir apresentar uma eventual aproximação com Kim como uma vitória diplomática.
A Coreia do Sul, entretanto, assume parte do risco.
Se a aproximação entre Washington e Pyongyang não produzir compromissos verificáveis sobre armas nucleares, mísseis ou segurança regional, Seul poderá ter cedido parte de sua capacidade de dissuasão sem receber uma contrapartida equivalente.
A grande incógnita: Kim vai aceitar?
Esse talvez seja o maior ponto cego da estratégia americana.
A experiência anterior mostra que a relação pessoal entre Trump e Kim não foi suficiente para produzir um acordo de desnuclearização. As negociações de 2019, em Hanói, terminaram sem acordo.
E a Coreia do Norte chega a este novo momento com uma posição militar mais fortalecida.
Analistas citados pela imprensa internacional avaliam que Kim pode não ter pressa para voltar à mesa de negociação, justamente porque Pyongyang hoje possui mais capacidade militar e relações estratégicas mais fortes com Rússia e China.
Isso cria uma situação curiosa:
Trump pode estar oferecendo uma abertura diplomática a Kim justamente quando Kim tem menos motivos para fazer concessões.
O que está realmente em jogo
Mais do que um exercício militar, o episódio representa um teste para a credibilidade das alianças americanas na Ásia.
Se Washington reduz sua presença militar para obter aproximação com Pyongyang, outros aliados americanos especialmente Japão e Taiwan também observarão atentamente o comportamento de Trump.
A questão não é apenas o que Kim Jong-un fará.
É o que os aliados dos Estados Unidos passarão a acreditar sobre a disposição de Washington de permanecer ao lado deles quando os interesses americanos mudarem.
Para a Coreia do Sul, portanto, a perda potencial não está apenas no número de exercícios militares realizados.
Está na certeza estratégica.
E confiança, em política internacional, é um ativo que pode levar décadas para ser construído e poucos movimentos para ser colocado em dúvida.
O OLHAR PÚBLICO
A aproximação de Trump com Kim Jong-un pode ser uma tentativa legítima de substituir a lógica da confrontação pela diplomacia. Seria irresponsável afirmar, neste momento, que a estratégia necessariamente fracassará.
Mas também seria ingênuo ignorar o preço de negociar a partir da redução unilateral da capacidade de dissuasão de um aliado.
Se Trump conseguir transformar a aproximação pessoal com Kim em um acordo concreto, poderá reivindicar uma vitória diplomática histórica.
Se Kim apenas utilizar a abertura americana para ganhar tempo, ampliar seu poder militar e enfraquecer a confiança entre Washington e Seul, a história poderá registrar a estratégia de outra maneira.
É essa diferença entre uma concessão tática e um enfraquecimento estratégico que o mundo começa a observar.
Thiago Viana Borges
Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político
OLHAR PÚBLICO Onde a informação encontra a reflexão.
