
Entre o crime, a rua e o sofrimento psíquico, a história de Lusimar expõe uma pergunta que o Brasil ainda evita: quando uma pessoa deixa de ser apenas caso de polícia e passa a ser também caso de cuidado?
Por Thiago Viana Borges
Ela aparece nas redes sociais falando sozinha, abordando desconhecidos, fazendo acusações, proferindo ofensas e construindo uma realidade própria diante das câmeras.
Para milhões de brasileiros, virou personagem.
Para outros, virou meme.
Para algumas das pessoas que cruzaram seu caminho, tornou-se vítima de ofensas e ameaças.
Mas existe uma mulher por trás do personagem.
O nome dela é Lusimar Augustinho da Silva.
Aos 53 anos, ela ficou conhecida nacionalmente como “A Menina do Ministério Etrom”, uma figura que passou a circular pelas ruas de diferentes cidades brasileiras e ganhou enorme repercussão nas redes sociais. Seus vídeos acumulam visualizações, seguidores e compartilhamentos, enquanto sua trajetória pessoal revela uma história muito mais complexa do que aquilo que cabe em alguns segundos de vídeo.
Lusimar não surgiu na internet como um fenômeno.
Antes da fama, houve uma vida.
E é justamente essa parte da história que merece ser conhecida.
Antes da personagem, existia Lusimar
Segundo levantamento publicado pelo Metrópoles, Lusimar nasceu em Montes Claros de Goiás e perdeu a mãe no parto. O pai morreu quando ela ainda era criança. Criada pelos avós em Goiânia, teve uma juventude descrita como discreta e chegou a trabalhar em uma ótica.
Com o passar dos anos, porém, sua trajetória sofreu uma ruptura.
Documentos relacionados a processos judiciais apontam que, em 2007, Lusimar deixou o Hospital Psiquiátrico Casa de Eurípedes, em Goiânia, onde estava internada. Posteriormente, passou a viver nas ruas.
Um ano depois, criou o chamado Blog Neutro, no qual publicou milhares de textos ao longo dos anos.
O conteúdo, segundo a reportagem do Metrópoles, foi progressivamente adquirindo características desconexas, com referências religiosas, acusações, perseguições e teorias envolvendo pessoas públicas.
É uma informação importante.
Não porque permita ao jornalismo diagnosticar Lusimar.
Não permite.
Mas porque mostra que o comportamento que hoje viraliza não nasceu ontem, nem começou com o TikTok.
Há uma história anterior às câmeras.
E essa história deveria importar.
Quando a rua virou palco
Lusimar passou a circular por diferentes cidades brasileiras e a produzir vídeos nos quais aborda pessoas desconhecidas, acusa indivíduos de crimes, faz ameaças e profere ofensas.
Ela também passou a utilizar a expressão “Ministério Etrom” — “Etrom” seria “morte” escrito ao contrário — como referência à estrutura religiosa que aparece em seus discursos.
O fenômeno cresceu.
E a internet fez aquilo que sabe fazer melhor: transformou uma situação humana extremamente complexa em entretenimento.
Quanto mais controversa a cena, maior a audiência.
Quanto maior a audiência, maior o número de compartilhamentos.
E quanto mais compartilhada, mais a mulher real desaparece atrás da personagem virtual.
É preciso reconhecer, entretanto, que existem vítimas reais.
Em 2024, Lusimar foi investigada no Distrito Federal após publicar um vídeo com ameaças dirigidas à então primeira-dama do DF, Mayara Noronha. O caso foi registrado na Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos e ela foi conduzida à delegacia. Segundo informações divulgadas à época, acabou liberada após prestar depoimento e assinar termo de comparecimento.
No mesmo ano, em Santos, um segurança de shopping foi alvo de uma série de ofensas de caráter racial gravadas pela própria Lusimar e posteriormente divulgadas nas redes sociais. O episódio provocou nova onda de repercussão nacional.
Em janeiro de 2025, outro vídeo chamou atenção no Distrito Federal. Lusimar aparece abordando um jovem e fazendo referências ofensivas à sua aparência e origem africana. Na ocasião, o Metrópoles informou que a Polícia Civil não havia localizado ocorrência registrada relacionada especificamente àquele episódio.
Esses fatos não podem ser relativizados.
Uma pessoa em sofrimento psíquico não recebe autorização para humilhar, ameaçar ou discriminar outra pessoa.
As vítimas também precisam de proteção.
Mas existe uma segunda verdade que não deveria ser apagada pela primeira.
Punir resolve tudo?
Essa talvez seja a pergunta mais incômoda de toda essa história.
Se Lusimar cometeu crimes, deve responder por eles dentro do devido processo legal.
Mas, se existe um quadro de sofrimento psíquico grave por trás de sua trajetória, o que acontece depois da abordagem policial?
Ela volta para a rua?
Volta a circular sem acompanhamento?
Volta às redes sociais?
Volta a produzir vídeos?
Volta a abordar desconhecidos?
E, principalmente:
quem efetivamente cuida dela?
Essa pergunta não significa retirar responsabilidade de Lusimar.
Significa perguntar se o Estado está conseguindo cumprir as duas funções que a sociedade espera dele: proteger as vítimas e cuidar das pessoas em situação de vulnerabilidade.
A rua não pode ser consultório, prisão ou palco
A situação de Lusimar também precisa ser compreendida dentro de outro problema brasileiro: a população em situação de rua.
O próprio Ministério da Saúde reconhece que essa população é marcada, entre outros fatores, por pobreza extrema, vínculos familiares fragilizados ou interrompidos e ausência de moradia convencional. A política pública brasileira prevê atenção específica para essas pessoas.
E saúde mental não é favor.
É direito.
O Ministério da Saúde afirma expressamente que a garantia constitucional do direito à saúde inclui o cuidado em saúde mental e que cabe ao Estado oferecer condições dignas de cuidado à população.
Existe uma estrutura pública criada exatamente para situações dessa natureza.
A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) reúne serviços destinados ao atendimento de pessoas em sofrimento mental e prevê articulação entre saúde, assistência social, urgência, atenção básica e outros equipamentos públicos.
Entre esses serviços estão os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem atendimento multiprofissional e acompanhamento contínuo.
No Distrito Federal, a própria Secretaria de Saúde informa que os CAPS atendem pessoas com sofrimento mental grave, inclusive em situações de crise, e funcionam em modelo de porta aberta. Para pessoas em situação de rua, a secretaria informa que documentos de identificação não são exigidos para o acolhimento.
Existe ainda o Consultório na Rua, previsto na RAPS justamente para ampliar o acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde.
Ou seja: o problema não é simplesmente não existir nenhuma política pública.
A questão é saber se essa política está chegando até pessoas como Lusimar.
Entre o abandono e a internação, existe um caminho
Há um erro perigoso no debate sobre saúde mental.
Muita gente imagina apenas dois extremos: deixar a pessoa completamente abandonada ou interná-la.
A política brasileira de saúde mental trabalha com uma lógica muito mais complexa.
A RAPS prevê cuidado comunitário, acompanhamento multiprofissional, acolhimento de crises e reinserção social. Em situações específicas, também existem leitos de saúde mental em hospitais gerais e outros dispositivos de cuidado.
Isso é fundamental porque cuidar não significa necessariamente internar.
E proteger a sociedade também não significa simplesmente abandonar alguém na rua depois de uma passagem pela delegacia.
O verdadeiro desafio está em construir uma rede capaz de acompanhar aquela pessoa antes, durante e depois da crise.
A internet também tem responsabilidade
Existe ainda um personagem que quase nunca aparece nessa história: nós.
Cada vez que um vídeo de Lusimar é compartilhado como piada, cada vez que alguém grava sua abordagem para obter visualizações, cada vez que uma situação de aparente desorganização psíquica é transformada em espetáculo, há uma pergunta ética que deveria ser feita:
estamos informando ou estamos explorando?
Ela possui responsabilidade sobre aquilo que diz e faz.
Mas a sociedade também possui responsabilidade sobre aquilo que transforma em entretenimento.
A mulher que aparentemente precisa de cuidado não deveria ser convertida em uma espécie de atração ambulante.
O sofrimento humano não deveria ser monetizado pela lógica do algoritmo.
Lusimar não é apenas “A Menina”
Talvez esse seja o ponto central desta reportagem.
Lusimar não deveria ser reduzida ao apelido que a internet lhe deu.
Ela não é apenas o vídeo que viralizou.
Não é apenas a mulher acusada de racismo.
Não é apenas a pessoa que teria ameaçado autoridades.
Não é apenas a personagem dos discursos desconexos.
E também não deve ser apresentada como vítima absoluta de tudo aquilo que aconteceu.
Ela é uma pessoa.
Uma pessoa que precisa responder pelos próprios atos quando a lei assim determinar.
Mas que também pode precisar de cuidado.
E essas duas coisas podem existir simultaneamente.
É possível defender uma vítima de racismo e, ao mesmo tempo, defender que a pessoa que praticou a ofensa tenha acesso à saúde mental.
É possível defender a responsabilização criminal e, simultaneamente, exigir que o Estado investigue se existe uma condição de saúde que precisa ser tratada.
É possível não concordar com absolutamente nada do que Lusimar diz e ainda assim reconhecer sua dignidade humana.
Isso não é passar pano.
É civilização.
A pergunta que fica para o Estado
A história de Lusimar deveria provocar muito mais do que indignação nas redes sociais.
Deveria provocar uma investigação pública sobre a capacidade do Estado brasileiro de identificar, acompanhar e proteger pessoas em situação de rua que apresentam sinais de intenso sofrimento psíquico.
Quantas vezes ela foi abordada?
Quantas vezes foi conduzida?
Quantas vezes foi denunciada?
Quantas vezes alguém percebeu que havia uma pessoa por trás do comportamento?
Quantas vezes houve encaminhamento para atendimento de saúde?
Quantas vezes assistência social, saúde, Justiça e segurança pública conversaram entre si?
E, principalmente:
o que foi feito para impedir que uma mulher aparentemente vulnerável chegasse ao ponto em que sua vida passou a ser consumida pela internet?
Não cabe ao jornalista responder essas perguntas sozinho.
Cabe ao poder público.
Não é preciso concordar com Lusimar para enxergá-la
Talvez a maior lição dessa história seja justamente essa.
Empatia não significa concordância.
Compaixão não significa impunidade.
Tratamento não significa absolvição.
E responsabilização não deveria significar abandono.
Se Lusimar cometeu racismo, que seja responsabilizada nos termos da lei.
Se ameaçou alguém, que responda por isso.
Se existem vítimas, que sejam protegidas e ouvidas.
Mas se existe sofrimento psíquico, que seja investigado.
Se existe vulnerabilidade social, que seja enfrentada.
Se existe ausência de vínculos familiares, que a rede de proteção seja acionada.
Se existe necessidade de tratamento, que ele seja oferecido.
E se a rua se tornou sua moradia, que o Estado não aceite essa condição como destino inevitável.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja “quem é a Menina do Ministério Etrom?”
Talvez seja:
quem era Lusimar antes de virar personagem — e por que ninguém conseguiu alcançá-la a tempo?
Essa pergunta não serve para apagar os erros dela.
Serve para lembrar que, antes de qualquer rótulo, existe uma vida humana.
E uma sociedade verdadeiramente civilizada é aquela capaz de proteger quem sofreu uma agressão sem deixar de enxergar quem também precisa ser protegido de si próprio e do abandono.
Lusimar precisa responder por seus atos, quando assim determinar a Justiça.
Mas, se os sinais de sofrimento psíquico e vulnerabilidade relatados ao longo de sua trajetória forem confirmados por avaliação profissional, ela precisa de algo que nenhuma delegacia, nenhuma rede social e nenhum tribunal pode oferecer sozinho:
uma rede de cuidado.
E essa responsabilidade não é da internet.
É do Estado.
Thiago Viana BorgesGestor Público Aposentado • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator • Consultor Político
OLHAR PÚBLICO
“Onde a informação encontra a reflexão.”