Bastidores do Supremo revelam preocupação de ministros com a atuação de André Mendonça no Tribunal Superior Eleitoral; comparação com Alexandre de Moraes expõe visões distintas sobre a atuação da Justiça Eleitoral
O ambiente dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou uma nova camada de tensão com a aproximação das eleições de 2026. Nos bastidores da Corte, ministros passaram a comparar a atuação do ministro André Mendonça com a de Alexandre de Moraes, especialmente diante da responsabilidade que Mendonça passou a exercer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A comparação, revelada pela colunista Bela Megale, de O Globo, não representa uma posição formal do Supremo, mas traduz uma preocupação existente entre integrantes da Corte sobre como a Justiça Eleitoral deverá enfrentar os desafios do próximo pleito.
Mendonça ocupa atualmente a vice-presidência do TSE, ao lado do ministro Kassio Nunes Marques, que assumiu a presidência da Corte Eleitoral. A composição ganhou relevância política porque ambos foram indicados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A posse ocorreu em maio de 2026.
De Moraes a Mendonça: duas formas de enxergar a atuação do Judiciário
Alexandre de Moraes presidiu o TSE durante as eleições de 2022 e ficou marcado por uma atuação considerada rigorosa diante da disseminação de desinformação, ataques às instituições e utilização das redes sociais para interferência no processo eleitoral.
Mendonça, por sua vez, construiu no Supremo uma trajetória marcada por posições frequentemente mais cautelosas em determinados temas políticos e constitucionais.
Essa diferença de perfil passou a alimentar comparações internas.
A questão que preocupa parte dos ministros não é simplesmente a personalidade de Mendonça, mas se o TSE terá a mesma disposição demonstrada em 2022 para reagir rapidamente a situações envolvendo propaganda irregular, desinformação e manipulação de conteúdo digital.
O cenário de 2026, entretanto, é ainda mais complexo.
A expansão da inteligência artificial permite produzir vídeos, áudios e imagens falsos com nível de realismo muito superior ao observado na eleição anterior, aumentando o potencial de impacto de conteúdos manipulados durante a campanha.
Supremo admite possibilidade de atuar mais diretamente
Segundo relatos divulgados a partir dos bastidores do STF, ministros avaliam que a Corte poderá ser chamada a atuar de maneira mais direta caso entendam que o TSE não esteja respondendo com a rapidez considerada necessária a determinadas situações.
A possibilidade representa um ponto delicado.
O TSE é o tribunal responsável pela condução da Justiça Eleitoral e possui competência própria para fiscalizar o processo eleitoral, julgar ações e regulamentar diversos aspectos das eleições.
O STF, por sua vez, é a mais alta instância do Poder Judiciário e pode analisar questões constitucionais e recursos dentro de suas competências.
Na prática, uma atuação mais frequente do Supremo em questões eleitorais poderia provocar uma sobreposição institucional e alimentar discussões sobre os limites entre as duas Cortes.
É justamente aí que a comparação entre Mendonça e Moraes ganha importância.
O caso Flávio Bolsonaro acendeu o alerta
Um dos episódios que aumentaram a atenção dentro do Supremo foi uma decisão de Nunes Marques envolvendo uma pesquisa eleitoral que mostrava queda nas intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro.
O presidente do TSE determinou a suspensão da divulgação da pesquisa após apontar problemas relacionados à metodologia e à possibilidade de indução dos entrevistados. A decisão provocou repercussão política, mas foi posteriormente defendida sob o argumento de que a Justiça Eleitoral deve impedir a divulgação de pesquisas consideradas irregulares.
O episódio, contudo, serviu para alimentar uma discussão dentro do STF sobre o comportamento da atual direção do TSE. Relatos publicados na imprensa apontam que alguns ministros avaliam que a Corte Suprema precisa estar preparada para atuar caso ocorram situações consideradas graves durante a campanha.
Mendonça e Moraes já protagonizaram embates
A comparação também chama atenção porque os dois ministros já tiveram divergências públicas durante julgamentos no Supremo.
Em setembro de 2023, durante o julgamento de um dos réus dos atos de 8 de janeiro, Mendonça e Moraes protagonizaram um dos momentos mais tensos entre integrantes da Corte.
Mendonça questionou aspectos relacionados à atuação do governo federal e à segurança dos prédios públicos durante os ataques. Moraes rebateu os argumentos e defendeu a responsabilização dos envolvidos nos atos antidemocráticos.
Desde então, os dois ministros representam, aos olhos de diferentes setores políticos, estilos bastante distintos dentro do Supremo.
Mas transformar essa diferença de visão em uma simples disputa entre “Mendonça contra Moraes” seria uma simplificação.
Os ministros continuam integrantes da mesma Corte e participam conjuntamente de julgamentos. Registros oficiais do STF mostram, inclusive, que ambos participaram de julgamentos colegiados recentes em matérias de repercussão geral.
Uma questão maior que os dois ministros
O verdadeiro debate, portanto, vai além da personalidade de André Mendonça ou Alexandre de Moraes.
A questão central é qual deve ser o limite da atuação do Judiciário durante uma eleição.
De um lado, existe a preocupação de impedir que campanhas de desinformação, inteligência artificial e propaganda irregular contaminem a disputa eleitoral.
De outro, existe o risco de uma Justiça Eleitoral excessivamente intervencionista, capaz de produzir decisões que sejam interpretadas como restrições à liberdade de expressão ou interferência indevida na disputa política.
O equilíbrio entre esses dois extremos será um dos grandes desafios das eleições de 2026.
O fantasma de 2022
A eleição presidencial de 2022 estabeleceu um precedente importante sobre o papel da Justiça Eleitoral no enfrentamento da desinformação.
Sob a presidência de Moraes, o TSE adotou medidas duras e ampliou mecanismos de resposta rápida contra conteúdos considerados fraudulentos ou capazes de comprometer a integridade do processo eleitoral.
Quatro anos depois, a pergunta nos bastidores do Supremo é se a atual composição do TSE adotará a mesma estratégia.
E essa não é uma questão meramente política.
É institucional.
Se o TSE agir de maneira mais moderada, poderá ser acusado por setores do sistema político de tolerar irregularidades.
Se agir de maneira extremamente rigorosa, poderá enfrentar acusações de excesso de poder.
E, caso o STF passe a revisar com frequência as decisões da Corte Eleitoral, poderá surgir um problema ainda maior: até onde deve ir a intervenção de uma Corte sobre a outra?
O que está em jogo
A comparação entre André Mendonça e Alexandre de Moraes revela, portanto, uma disputa mais profunda sobre modelos de atuação judicial.
Moraes se tornou símbolo de uma Justiça Eleitoral que assumiu papel extremamente ativo na defesa das instituições e no combate à desinformação.
Mendonça representa um perfil jurídico diferente, associado por seus críticos e apoiadores a uma postura mais cautelosa e menos expansiva em determinadas questões.
Nenhum desses estilos, entretanto, garante por si só uma eleição mais segura.
O desafio de 2026 será encontrar o ponto de equilíbrio entre proteger a integridade das eleições e preservar as liberdades que sustentam o próprio processo democrático.
E, diante da atual composição do TSE, uma coisa parece certa: o desempenho de André Mendonça e Kassio Nunes Marques será acompanhado de perto não apenas pelos partidos e candidatos, mas também pelos próprios ministros do Supremo.
A eleição de 2026 poderá, assim, produzir não apenas uma disputa entre candidatos.
Poderá também colocar em teste a relação entre STF e TSE e definir qual será o espaço do Judiciário na próxima grande batalha política do país.
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Fontes consultadas: Supremo Tribunal Federal (STF), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e informações publicadas pela jornalista Bela Megale, de O Globo.
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