Ato de 21 de agosto em Ilhéus, compromissos previamente construídos e lideranças que reclamam de falta de integração colocam em evidência um desafio para a coordenação da oposição; em eleição apertada, disputa por protagonismo pode custar caro
Há momentos em uma campanha eleitoral em que a política deixa de ser apenas uma disputa de votos e passa a ser uma disputa de organização. É exatamente nesse ponto que a candidatura de ACM Neto parece precisar acender uma luz de alerta no Sul da Bahia.
Informações de bastidores apontam para crescente insatisfação entre lideranças que integram o campo oposicionista diante da forma como algumas agendas vêm sendo conduzidas na região. O episódio mais recente envolve Ilhéus e Ibicaraí e revela um problema que, se não for rapidamente administrado, pode deixar de ser uma simples questão de calendário para se transformar em desgaste político dentro da própria base.
Segundo informações obtidas pela reportagem, uma agenda previamente organizada em Ibicaraí, sob articulação da prefeita Monalisa Tavares, do União Brasil, precisou ser cancelada após a definição de uma nova programação em Ilhéus, articulada pelo grupo político do prefeito Valderico Júnior. A questão não está no direito de Ilhéus promover um evento ou de o prefeito organizar sua própria agenda. O ponto politicamente sensível é outro: havia mobilização anterior, reuniões, compromissos e expectativas construídas por aliados que também integram o projeto de ACM Neto.
Quando uma programação previamente articulada é alterada de última hora para acomodar outra, sem que os grupos envolvidos sejam adequadamente integrados, a consequência é previsível: surgem desconforto, sensação de desprestígio e questionamentos sobre quais critérios estão sendo utilizados para definir as prioridades da campanha.
E uma eleição majoritária não pode se dar ao luxo de transformar aliados em espectadores das decisões tomadas por outros.
O ato de 21 de agosto coloca a questão em evidência

ACM Neto estará em Ilhéus nesta sexta-feira, 21 de agosto, para um ato político na Avenida Soares Lopes, a partir das 17h44, promovido pelo União Brasil. A programação reúne também o senador Angelo Coronel, candidato à reeleição, e João Roma, candidato ao Senado pelo PL. A presença dos dois nomes reforça o caráter estadual da agenda e a composição da chapa oposicionista, oficialmente formada em julho.
O evento, portanto, não é uma agenda meramente municipal. Trata-se de uma atividade política que reúne integrantes da chapa majoritária e diferentes forças da oposição.
E justamente por isso a coordenação precisa ter ainda mais cuidado para que uma agenda estadual não produza, involuntariamente, a sensação de que determinados grupos estão sendo colocados à frente de outros.
A questão não é impedir que o União Brasil realize seu ato. É absolutamente legítimo que o partido organize a atividade. O problema político surge quando outras forças da mesma aliança possuem compromissos previamente construídos e passam a perceber que não estão sendo adequadamente integradas ao planejamento.
Em campanha majoritária, o candidato precisa ser de todos os aliados, e não apenas daqueles que estão mais próximos da agenda do dia.
Valderico Júnior também possui sua própria agenda política
Valderico Júnior tem legitimidade para construir sua agenda política e defender seus candidatos. Dias atrás, inclusive, realizou no Boca do Mar uma grande mobilização política relacionada às candidaturas de Leur Lomanto Júnior e Pedro Tavares, nomes com os quais mantém proximidade política.
O próprio histórico recente demonstra a força dessa relação: em 2024, durante sua campanha para a Prefeitura de Ilhéus, Valderico reuniu no mesmo espaço ACM Neto, Leur Lomanto Júnior e Pedro Tavares em sua convenção.
Não há, portanto, qualquer problema em o prefeito possuir sua própria estrutura e seus próprios candidatos.
O problema começa quando essa estrutura passa a disputar protagonismo com outras forças que deveriam estar trabalhando pelo mesmo projeto majoritário.
É aí que a diferença entre liderança e centralização se torna fundamental. Liderança reúne, distribui espaço e administra interesses. Centralização concentra decisões e pode produzir a sensação de que determinados grupos possuem prioridade sobre os demais.
Se essa percepção começar a se consolidar, o prejuízo não será apenas de um partido ou de uma liderança. Será da própria candidatura de ACM Neto.
Progressistas mantém compromisso previamente marcado
O Progressistas de Ilhéus mantém a programação marcada para o dia 22, no Boca do Mar. O encontro vem sendo preparado com antecedência e envolve Cacá Leão, Igor Dominguez, o secretário-geral do partido, Jabes Ribeiro, além de lideranças políticas e representantes da legenda.

A manutenção da agenda demonstra que o partido segue mobilizado e cumprindo o planejamento que vinha sendo construído há dias.
Esse detalhe é politicamente relevante. Um partido não organiza um encontro dessa natureza de um dia para o outro. Existe mobilização, comunicação com lideranças, reuniões preparatórias e articulação política.
Quando diferentes grupos de uma mesma base constroem agendas sem que haja uma coordenação capaz de compatibilizá-las, o problema deixa de ser apenas logístico e passa a ser político.
É justamente para evitar esse tipo de situação que uma candidatura majoritária precisa ter uma coordenação atuante, capaz de conversar previamente com os diferentes partidos e lideranças antes da definição de compromissos que envolvam o candidato.
Ibicaraí é um sinal que não deveria ser ignorado

O episódio envolvendo Monalisa Tavares torna o caso ainda mais delicado. A prefeita de Ibicaraí, também integrante do União Brasil, tinha uma programação previamente organizada e acabou precisando cancelá-la diante da nova configuração da agenda regional.
Isso não deveria ser tratado como um detalhe operacional.
Quando uma prefeita mobiliza sua estrutura, reúne lideranças e prepara uma recepção para um candidato majoritário e, posteriormente, precisa desfazer todo o planejamento, existe um custo político. Não apenas financeiro ou logístico, mas principalmente de confiança.
A coordenação de uma candidatura estadual existe exatamente para impedir que situações assim aconteçam.
E é aqui que o problema deixa de ser exclusivamente municipal.
O precedente de 2022 deveria estar na mesa

ACM Neto já conhece uma eleição em que a margem entre vitória e derrota foi pequena. Em 2022, quando disputou o Governo da Bahia contra Jerônimo Rodrigues, Carlos Gaban esteve à frente da coordenação da campanha de Neto no Sul da Bahia. Naquele pleito, a disputa terminou no segundo turno, com Jerônimo obtendo 52,79% dos votos válidos contra 47,21% de ACM Neto.
Não é correto afirmar que os problemas atuais sejam uma repetição automática dos de 2022. Mas seria igualmente imprudente ignorar as experiências daquela campanha.
Uma candidatura que volta a enfrentar Jerônimo quatro anos depois precisa compreender que organização, articulação e unidade não são detalhes de campanha; são instrumentos eleitorais.
É justamente para isso que existe uma coordenação estadual

Nelson Leal assumiu a coordenação da campanha de ACM Neto para o Governo da Bahia e decidiu não disputar a reeleição para se dedicar ao projeto eleitoral.
É uma função que exige mais do que organizar compromissos do candidato. Exige administrar uma coalizão política.
Progressistas, União Brasil, PL e demais forças que integram ou dialogam com o campo oposicionista possuem interesses próprios, lideranças próprias e estruturas próprias. Uma coordenação eficiente não precisa eliminar essas diferenças; precisa impedir que elas se transformem em competição destrutiva.
E aqui existe um ponto que merece atenção especial.
Em Ilhéus, o PL possui como presidente municipal Thiago Martins, liderança que também integra o campo político da oposição. Martins já se manifestou publicamente sobre a necessidade de diálogo com a administração municipal, em episódio que revelou justamente a importância da interlocução entre diferentes grupos da base.
Em Itabuna, o PL também possui sua estrutura própria, liderada por Chico França, presidente do diretório municipal.
São lideranças que, juntamente com outras forças partidárias da região, precisam estar inseridas na construção da agenda estadual.
Não basta convocar aliados para a fotografia. É necessário incluí-los na construção do palanque.
Nelsinho precisa coordenar a base antes que a base comece a se descoordenar sozinha.
É preciso reunir os aliados, estabelecer critérios claros para as agendas, comunicar previamente os compromissos e, sobretudo, evitar que prefeitos, presidentes partidários e lideranças regionais sejam surpreendidos por decisões tomadas de última hora.
Se a candidatura pretende governar a Bahia, precisa primeiro demonstrar capacidade de administrar sua própria aliança.
O Sul da Bahia não pode ser tratado como território de uma única liderança
Ilhéus possui peso político e eleitoral, mas não é uma ilha. Uruçuca, Itabuna, Ibicaraí e os demais municípios da região possuem suas próprias forças e lideranças.
ACM Neto conta, no entorno regional, com grupos políticos distintos. Em Uruçuca, há o apoio do ex-prefeito Moacyr Leite. Em Itabuna, lideranças como Enderson Guinho — ex-vereador e ex-vice-prefeito — integram o campo oposicionista, ao lado de outras forças políticas. Em Ilhéus, além de Thiago Martins e do grupo do PL, há lideranças de diferentes partidos que também precisam ser incorporadas à construção regional.
O que essas lideranças têm em comum é justamente aquilo que uma campanha majoritária mais precisa: capacidade de mobilização.
Por isso, não faz sentido transformar a agenda de ACM Neto em uma espécie de troféu disputado por diferentes grupos.
O candidato precisa estar onde a estratégia eleitoral determinar que ele esteja, mas os critérios precisam ser construídos com aqueles que estão ajudando a construir o palanque.
A guerra de egos pode ser mais perigosa que o adversário
O maior risco de uma disputa interna não é necessariamente um rompimento público.
É o desgaste silencioso.
Um aliado que se sente preterido pode continuar formalmente apoiando o candidato, mas diminuir sua mobilização. Um partido pode continuar no palanque, mas reduzir sua participação. Uma liderança pode não romper, mas simplesmente deixar de trabalhar com a mesma disposição.
É assim que uma coalizão começa a perder força sem necessariamente produzir uma crise imediata.
E esse desgaste é especialmente perigoso em uma eleição competitiva.
Jerônimo Rodrigues não precisa criar uma crise na oposição se a própria oposição permitir que disputas por protagonismo ocupem o lugar da estratégia eleitoral.
Cada evento não precisa ser uma disputa sobre quem demonstra mais força. Cada agenda não precisa ser uma competição por quem consegue levar ACM Neto. Cada fotografia não precisa estabelecer quem manda mais.
A candidatura precisa ser maior do que os grupos que a compõem.
O relógio eleitoral não espera a acomodação dos egos
O cenário ainda está em construção, mas a disputa entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues já demonstra competitividade. Pesquisas recentes mostram os dois em situação próxima, embora os números variem de acordo com metodologia e período.
É justamente nesse cenário que a oposição precisa evitar desperdícios.
Cada prefeito importa. Cada vereador importa. Cada presidente partidário importa. Cada liderança regional importa. E cada aliado que deixa de mobilizar sua estrutura porque se sentiu desprestigiado representa uma perda que nenhuma pesquisa consegue captar imediatamente.
Não se trata de dramatizar uma disputa de agenda.
Trata-se de reconhecer que campanhas majoritárias são construídas muito antes do voto e podem ser enfraquecidas muito antes da urna.
A candidatura precisa governar a própria aliança antes de pedir para governar a Bahia
Valderico Júnior tem uma oportunidade de demonstrar que sua força política em Ilhéus pode servir à construção de uma frente mais ampla, e não à concentração do protagonismo em torno de um único grupo. Demonstrar força é legítimo; saber utilizá-la para reunir aliados é o verdadeiro teste de liderança.
Da mesma forma, a coordenação de ACM Neto precisa deixar claro que nenhuma liderança local está acima do projeto estadual e que nenhum grupo deve ser colocado em posição de disputar espaço com outro.
O que aconteceu em Ibicaraí e o conflito em torno da agenda de Ilhéus ainda podem ser tratados como episódios pontuais. Mas, se novos casos semelhantes surgirem, a interpretação deixará de ser sobre calendário e passará a ser sobre método.
E método de campanha importa.
Em 2022, ACM Neto chegou ao segundo turno e perdeu a eleição por uma diferença que, em termos políticos, mostrou o quanto uma disputa pode ser apertada. Em 2026, o adversário é o mesmo, o ambiente político é novamente competitivo e a oposição não pode desperdiçar energia disputando internamente aquilo que deveria ser utilizado para enfrentar o adversário.
Ainda há tempo para corrigir a rota. Há tempo para reunir os aliados, estabelecer regras claras de agenda e garantir que Progressistas, União Brasil, PL e demais forças da oposição sejam tratados como partes de um mesmo projeto.
Mas o tempo também corre contra quem demora a perceber o problema.
Porque uma eleição não costuma ser perdida por um único evento.
Ela pode começar a ser perdida quando os aliados deixam de acreditar que estão construindo juntos o mesmo projeto.
O alerta está dado. Agora, resta observar se a oposição baiana saberá transformar força individual em força coletiva — antes que a disputa por protagonismo faça o que nenhum adversário externo conseguiu fazer: abrir fissuras dentro da própria base.
