Movimento reúne eleitores que podem votar em Lula para presidente e ACM Neto para governador; fenômeno já apareceu de forma explícita na eleição de 2022 e agora ganha nova dimensão diante do equilíbrio entre Neto e Jerônimo
A eleição de 2026 começa a revelar uma particularidade da política baiana que pode ganhar peso à medida que a campanha avança: a possibilidade de o eleitor separar a escolha para presidente da República daquela feita para governador. O chamado “LuNeto”, expressão usada para identificar o voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o Palácio do Planalto e em ACM Neto (União Brasil) para o Governo da Bahia, voltou ao debate político estadual e encontra terreno para se expandir em uma disputa marcada pelo equilíbrio entre o ex-prefeito de Salvador e o governador Jerônimo Rodrigues (PT).
O fenômeno não é novo. Em 2022, quando Lula e ACM Neto estavam em campos distintos na disputa nacional e estadual, respectivamente, o voto cruzado já havia sido identificado entre integrantes do grupo político do então candidato ao Governo da Bahia. Naquele ano, Neto não declarou apoio formal a nenhum dos dois candidatos que disputavam a Presidência no segundo turno, enquanto alguns de seus aliados anunciaram voto em Lula. Entre os exemplos registrados na época estavam Léo Prates, Félix Mendonça Júnior, Soraia Cabral, Léo Kret, Marcelo Maia e Isabela Sousa, classificados à época como integrantes do grupo “LuNeto”.
O contexto de 2026, entretanto, apresenta uma diferença relevante. Desta vez, a possibilidade de voto cruzado não aparece apenas como uma característica individual de determinados eleitores, mas também como consequência da própria configuração das alianças estaduais. ACM Neto decidiu não impor uma candidatura presidencial única a todos os partidos que integram sua aliança na Bahia. Em julho, ao oficializar sua candidatura ao governo estadual, afirmou que as legendas aliadas terão liberdade para defender seus respectivos candidatos à Presidência.
A posição cria um palanque estadual deliberadamente plural. Neto declarou pessoalmente apoio a Ronaldo Caiado (PSD), justificando a escolha pela relação política e pessoal construída com o ex-governador de Goiás. Ao mesmo tempo, o PL baiano mantém sua estrutura em torno de Flávio Bolsonaro, enquanto outras lideranças da aliança possuem posições diferentes na eleição presidencial. A própria composição da chapa, portanto, não reproduz automaticamente a polarização nacional dentro da disputa pelo Palácio de Ondina.
É justamente nesse espaço que o “LuNeto” encontra possibilidade de crescimento.
Um eleitor, duas escolhas

O voto cruzado ocorre quando o eleitor escolhe candidatos de diferentes partidos ou campos políticos para cargos distintos na mesma eleição. Não há, necessariamente, contradição nessa decisão. O eleitor pode avaliar a disputa presidencial a partir de questões nacionais — economia, programas sociais, relações internacionais, identificação ideológica ou avaliação do governo federal — e, simultaneamente, escolher um candidato a governador levando em consideração problemas e propostas relacionados diretamente ao estado.
Na Bahia, essa separação ganha especial relevância porque Lula mantém uma posição eleitoral muito forte. Nas eleições de 2022, o petista recebeu 6.097.815 votos no estado, equivalentes a 72,12% dos votos válidos no segundo turno presidencial. Na mesma eleição, porém, Jerônimo Rodrigues não alcançou o mesmo percentual obtido por Lula: no segundo turno estadual, o petista recebeu 4.480.464 votos, contra 4.007.023 de ACM Neto.
Os números não permitem determinar quantos eleitores de Lula votaram em Neto, porque o voto é secreto e os resultados agregados não permitem identificar individualmente a combinação escolhida por cada eleitor. Eles demonstram, contudo, que as votações presidencial e estadual apresentaram comportamentos diferentes, abrindo espaço para a análise do voto cruzado.
Um exemplo municipal ajuda a visualizar essa dinâmica. Em Camaçari, no primeiro turno de 2022, Lula recebeu 64,77% dos votos para presidente, enquanto ACM Neto alcançou 50,25% na disputa pelo Governo da Bahia. O resultado mostra que uma parcela expressiva do eleitorado poderia escolher candidatos diferentes para os dois cargos.
Não se trata, portanto, de uma invenção eleitoral de 2026. A novidade está na forma como as forças políticas estão estruturando seus palanques.
Neto abre o palanque; Lula mantém vínculo com Jerônimo

ACM Neto percebeu que sua aliança estadual reúne eleitores com preferências nacionais distintas. Ao declarar que cada partido terá liberdade para apoiar seu candidato presidencial, o ex-prefeito evita transformar a eleição para governador em uma simples extensão da disputa pelo Palácio do Planalto. A prioridade declarada é a eleição estadual.
A estratégia permite que integrantes do mesmo grupo político dialoguem com segmentos diferentes do eleitorado. O PL pode fazer campanha para Flávio Bolsonaro; aliados de Neto podem defender Caiado; outras lideranças podem apoiar diferentes nomes — e o candidato ao governo continua sendo o ponto de convergência dessa estrutura.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis, explicitou essa lógica ao afirmar que o grupo respeita as escolhas individuais no pleito nacional. Em julho, ao ser questionado sobre a composição presidencial, declarou que o grupo estava com diferentes nomes — incluindo Flávio Bolsonaro, Caiado, Renan Santos, Augusto Cury e Lula — e que respeitava o posicionamento individual dos eleitores. Na mesma declaração, destacou que a prioridade política do grupo era vencer a eleição para o Governo da Bahia e reafirmou seu apoio a ACM Neto.
A declaração é particularmente relevante porque demonstra que o voto presidencial não é tratado necessariamente como requisito para o voto estadual dentro da aliança oposicionista.
É nesse ambiente que o “LuNeto” pode deixar de ser apenas uma expressão utilizada para classificar determinados eleitores e passar a funcionar como uma possibilidade eleitoral concreta.
Carlos Muniz expõe a separação entre as duas disputas
Um dos exemplos mais claros surgiu ainda antes da campanha oficial. O presidente da Câmara Municipal de Salvador, Carlos Muniz (PSDB), declarou em junho que, se a eleição presidencial fosse naquele momento, votaria em Lula, classificando o presidente como a melhor opção no cenário que então avaliava. Muniz, entretanto, é integrante do campo político ligado a Bruno Reis e ACM Neto.
A posição ganhou repercussão justamente porque expôs aquilo que as alianças partidárias frequentemente procuram administrar nos bastidores: um mesmo grupo político pode reunir eleitores que farão escolhas diferentes para presidente e governador.
Há, contudo, uma cautela jornalística necessária. A posição pessoal de Muniz não deve ser automaticamente apresentada como prova de que ele tenha formalizado voto em ACM Neto para governador em 2026. O próprio vereador não havia cravado publicamente seu apoio ao ex-prefeito em julho, apesar de integrar o campo político que apoia Neto.
O episódio é importante, portanto, não como comprovação de uma chapa informal “Lula-Neto”, mas como demonstração de que a separação entre as duas escolhas existe dentro do próprio ambiente político que sustenta a candidatura oposicionista ao governo.
O antecedente de 2022
A história recente da Bahia reforça essa possibilidade.
Em 2022, ACM Neto chegou ao segundo turno contra Jerônimo Rodrigues enquanto Lula disputava a Presidência contra Jair Bolsonaro. O então candidato ao governo baiano adotou uma posição de neutralidade no segundo turno presidencial. O resultado estadual mostrou uma disputa muito mais equilibrada do que a corrida presidencial.
Lula venceu na Bahia com 72,12% dos votos válidos. Jerônimo, entretanto, terminou o segundo turno estadual com 52,79%, enquanto ACM Neto alcançou 47,21%.
A diferença entre os desempenhos dos candidatos em suas respectivas disputas ajudou a alimentar, naquele momento, o debate sobre o voto cruzado. O termo “LuNeto” foi utilizado publicamente para identificar políticos e eleitores que combinavam a preferência por Lula com o voto em Neto.
Quatro anos depois, a fórmula reaparece em condições diferentes.
O cálculo político por trás do silêncio e do confronto
A política eleitoral também trabalha com aquilo que os candidatos não dizem.
Em julho, Lula chegou a fazer críticas diretas a ACM Neto. Durante uma agenda na Bahia, chamou o ex-prefeito de Salvador de “mentiroso”, o que provocou reação de Bruno Reis e elevou a temperatura da disputa.
Pouco depois, entretanto, o ambiente político passou a registrar novamente movimentos de contenção. A estratégia não significa necessariamente um acordo entre Lula e Neto — e não há evidência pública suficiente para afirmar que exista uma articulação conjunta entre os dois. Mas revela que ambos possuem motivos para evitar transformar todas as diferenças nacionais em uma guerra política estadual permanente.
Para Neto, nacionalizar excessivamente a eleição pode aproximá-lo de segmentos da direita mais identificados com o bolsonarismo e, simultaneamente, dificultar sua aproximação com eleitores que aprovam Lula. Para o presidente, uma confrontação permanente com Neto pode fortalecer a percepção de que a eleição estadual é uma disputa entre Lula e o ex-prefeito, quando o candidato oficial do campo governista é Jerônimo Rodrigues.
Essa distinção é fundamental.
Lula precisa eleger um presidente; Jerônimo precisa ser reeleito governador. Neto precisa vencer o Governo da Bahia; Caiado, Flávio Bolsonaro e os demais presidenciáveis precisam disputar o eleitorado nacional. Os objetivos podem convergir em alguns momentos, mas não são idênticos.
A estratégia de estadualizar a eleição
A campanha de ACM Neto tem adotado justamente a tentativa de colocar o debate estadual no centro da disputa. A própria liberdade concedida aos partidos aliados para escolher seus candidatos presidenciais é uma forma de preservar essa separação.
A estratégia também encontra respaldo em pesquisas. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 29 de julho, ACM Neto apareceu com 39% das intenções de voto para governador, contra 38% de Jerônimo Rodrigues. No segundo turno, Neto tinha 43%, ante 39% de Jerônimo. Em ambos os casos, a diferença estava dentro da margem de erro de três pontos percentuais.
Outro dado do levantamento ajuda a compreender a complexidade do cenário: 47% dos entrevistados disseram preferir eleger um governador aliado do presidente Lula, enquanto 14% optaram pela preferência por um governador aliado de Jair Bolsonaro e 34% disseram preferir um candidato independente.
Isso significa que a associação nacional pode influenciar a disputa, mas não determina sozinha o comportamento de todo o eleitorado.
Para ACM Neto, apresentar-se como candidato estadual, mesmo estando inserido em uma aliança que reúne diferentes segmentos da direita, pode ser uma maneira de alcançar eleitores que não necessariamente compartilham da mesma escolha presidencial.
Lula também precisa administrar a força de sua própria marca
O movimento é igualmente relevante para Lula.
A Bahia permanece entre os estados onde o presidente possui uma das bases eleitorais mais fortes. Na eleição de 2022, sua votação estadual foi superior a sete em cada dez votos válidos.
Esse patrimônio eleitoral pode ser utilizado em favor de Jerônimo, como o PT naturalmente pretende fazer. A convenção realizada em 1º de agosto no Parque de Exposições, em Salvador, reuniu Lula, Jerônimo, Rui Costa, Jaques Wagner e uma ampla base partidária para oficializar a chapa governista. O ato, que reuniu público estimado pelo partido em mais de 30 mil pessoas, reforçou publicamente a associação entre Lula e o projeto de reeleição do governador.
Ao mesmo tempo, o tamanho da preferência por Lula na Bahia cria uma questão estratégica para a oposição: quanto mais nacionalizada for a eleição, maior tende a ser a exposição de Neto à força eleitoral do presidente; quanto mais estadualizada for, maior é o espaço para que o eleitor avalie separadamente a administração e os candidatos ao governo.
É nesse intervalo que o “LuNeto” se torna politicamente relevante.
Não é uma aliança entre Lula e Neto
Apesar do nome sugerir uma composição, “LuNeto” não significa que Lula e ACM Neto estejam politicamente aliados. O termo descreve uma combinação de votos feita pelo eleitor, e não uma coligação entre os candidatos.
Essa distinção será importante durante a campanha porque a disputa presidencial continuará sendo polarizada por questões nacionais, enquanto a eleição baiana terá seus próprios temas: segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, emprego, transporte, investimentos federais e estaduais e avaliação dos governos.
A própria história recente demonstra que o eleitor baiano não necessariamente transfere integralmente sua preferência presidencial para a disputa estadual.
Em 2022, Lula foi amplamente vitorioso na Bahia, mas Jerônimo precisou disputar voto a voto contra ACM Neto no segundo turno. O atual governador venceu por uma diferença de 473.441 votos — vantagem significativa em números absolutos, mas muito inferior à distância obtida por Lula na eleição presidencial.
Uma eleição que pode ser decidida fora da polarização nacional
O “LuNeto”, portanto, representa menos uma aliança formal do que um sintoma de uma eleição em que as fronteiras partidárias nacionais podem não coincidir perfeitamente com as escolhas estaduais.
ACM Neto optou por um palanque presidencial aberto. Lula mantém apoio explícito a Jerônimo. Aliados de Neto defendem diferentes candidatos ao Planalto. Há políticos ligados à oposição estadual que manifestam preferência por Lula. E há eleitores que podem considerar natural votar em um candidato para presidente e em outro para governador.
A eleição de 2026 poderá mostrar até que ponto essa independência do voto se transforma em força eleitoral efetiva.
A questão central não será apenas saber quantos baianos se identificam com Lula ou com Neto separadamente, mas quantos estarão dispostos a separar as duas escolhas diante da urna.
Se essa parcela crescer, a eleição para o Governo da Bahia poderá escapar parcialmente da lógica de uma simples disputa entre os dois grandes campos nacionais. Nesse cenário, o voto “LuNeto” deixaria de ser apenas uma expressão política resgatada de 2022 e passaria a representar uma das possíveis chaves de leitura da eleição estadual de 2026.
E há uma característica especialmente relevante nesse movimento: ele não depende de que Lula e ACM Neto façam campanha juntos, nem de que retirem suas diferenças. Depende apenas de uma decisão individual do eleitor — a de considerar que o melhor presidente pode ser um candidato e o melhor governador, outro.
É justamente essa possibilidade que transforma o voto cruzado em um elemento estratégico da disputa pelo Palácio de Ondina.

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