Em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, uma das mais importantes manifestações da cultura afro-brasileira reúne religiosidade, memória, gastronomia e tradição em uma celebração conduzida por mulheres negras
As ruas históricas de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, voltam a ser cenário de uma das manifestações religiosas e culturais mais emblemáticas da Bahia. A Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, realizada anualmente pela Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, chega a 2026 preservando uma tradição com mais de dois séculos de história.
Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2010, por meio do Decreto Estadual nº 12.227/2010, a celebração reúne elementos do catolicismo e das religiões de matriz africana em uma expressão singular da religiosidade popular baiana.
A edição de 2026 teve início em 12 de agosto e segue até esta segunda-feira (17), reunindo missas, procissões, cortejos, alvoradas, samba de roda, manifestações culturais e a tradicional culinária do Recôncavo.
Uma tradição conduzida por mulheres negras

No centro da celebração está a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, uma confraria afro-católica formada por mulheres negras.
A história da irmandade remonta ao século XIX. Segundo o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), há registros da devoção a Nossa Senhora da Boa Morte em Salvador desde aquele período, quando uma irmandade exclusivamente feminina foi criada na Igreja da Barroquinha.
A tradição oral aponta que a irmandade teria sido transferida para Cachoeira por volta de 1820. Desde então, a cidade tornou-se o principal território de preservação dessa manifestação religiosa e cultural.
A trajetória dessas mulheres também está relacionada à resistência negra durante o período escravista. Registros históricos apontam que irmandades negras funcionavam como espaços de solidariedade, organização e auxílio, inclusive na busca pela liberdade de pessoas escravizadas.
Por isso, a Boa Morte não pode ser compreendida apenas como uma festa religiosa. Ela também carrega uma memória de resistência, ancestralidade e protagonismo feminino negro.
Catolicismo e religiões de matriz africana

Um dos aspectos que tornam a celebração singular é o encontro entre diferentes tradições religiosas.
A devoção católica a Nossa Senhora da Boa Morte se desenvolveu, na Bahia, em contato com práticas e símbolos das religiões de matriz africana. O resultado é uma manifestação de forte caráter afro-católica, na qual elementos aparentemente distintos convivem dentro de uma mesma tradição.
O próprio calendário da festa expressa essa combinação.
Nos primeiros dias, predominam os ritos religiosos ligados à morte e à passagem de Nossa Senhora. Depois, a celebração se transforma gradualmente em uma grande manifestação comunitária de música, comida e cultura popular.
A chamada Ceia Branca, por exemplo, integra esse universo simbólico. Realizada tradicionalmente durante os primeiros dias da festa, reúne alimentos de coloração clara e está associada a referências religiosas afro-brasileiras, incluindo elementos relacionados a Oxalá.
O sincretismo, nesse contexto, não significa simplesmente a mistura de religiões. Ele revela a maneira encontrada por diferentes gerações de mulheres negras para preservar suas crenças, suas memórias e seus vínculos ancestrais em um ambiente historicamente marcado pela imposição religiosa.
O significado da “Boa Morte”
A própria expressão que dá nome à irmandade carrega um significado profundo.
A celebração acompanha simbolicamente a passagem de Nossa Senhora pela morte, sua dormição e, posteriormente, sua glorificação.
Por isso, os principais momentos da festa são organizados em torno dessa narrativa religiosa: a lembrança das irmãs falecidas, a representação da morte de Nossa Senhora e, posteriormente, a celebração de Nossa Senhora da Glória.
É justamente essa passagem que ajuda a explicar a estrutura tradicional dos festejos.
Primeiro, o silêncio, a memória e o luto.
Depois, a celebração da vida, da fé e da comunidade.
A programação de 2026
A edição deste ano começou na quarta-feira (12), com a Romaria da Casa da Provedora, conduzindo o nicho de Nossa Senhora da Boa Morte até a sede da irmandade.
No mesmo dia, foi reinaugurado o Memorial da Irmandade da Boa Morte, que recebeu a exposição Senhoras da Liberdade, reunindo fotografias de Pierre Verger e outros elementos relacionados à trajetória da confraria.
Na quinta-feira (13), ocorreu o translado da esquife de Nossa Senhora da Boa Morte, seguido pela Missa de Réquiem das ancestrais, dedicada às irmãs falecidas, e pela tradicional Ceia Branca.
Na sexta-feira (14), Dia de Nossa Senhora da Boa Morte, foi realizada a Missa Solene, seguida pela tradicional procissão do enterro. As irmãs percorreram as ruas do Centro Histórico carregando velas e acompanhando os ritos que marcam a representação da morte e da dormição de Nossa Senhora.
O sábado (15) foi dedicado a Nossa Senhora da Glória. A programação começou com alvorada festiva, seguida pelo cortejo da irmandade até a Igreja Matriz do Rosário e pela missa solene. Após a celebração religiosa, ocorreu a procissão pelas ruas do Centro Histórico, a tradicional Valsa das Irmãs da Boa Morte, a distribuição de feijoada e apresentações culturais.
Entre as atrações culturais previstas estão manifestações de samba de roda, o Samba de Roda de Dona Dalva, o Grupo Afro Barroco Jejê Nagô, além de apresentações de Gerônimo Santana e de Ana Paula Albuquerque, que presta homenagem aos Tincoãs.
No domingo (16), a programação continuou com a distribuição do tradicional cozido e novas manifestações culturais.
Nesta segunda-feira (17), último dia dos festejos, a tradição chega ao encerramento com caruru e samba de roda, mantendo a dimensão comunitária que marca a parte final da celebração.
Quando a comida também conta história
Na Boa Morte, a gastronomia não aparece apenas como complemento da festa.
A comida faz parte da própria linguagem cultural da celebração.
Feijoada, cozido, caruru e outros pratos tradicionais do Recôncavo são compartilhados durante os festejos, transformando a alimentação em espaço de convivência e transmissão de saberes.
O calendário culinário também acompanha a transformação da atmosfera da festa: dos momentos mais reservados e religiosos dos primeiros dias para a celebração coletiva dos últimos dias, quando o samba de roda ganha ainda mais espaço.
É uma característica que revela uma das maiores riquezas da Boa Morte: o sagrado e o cotidiano não aparecem separados, mas dialogam dentro de uma mesma tradição.
Cachoeira como território de memória
Durante os dias da festa, Cachoeira se transforma.
O Centro Histórico, com suas igrejas, casarões e ruas estreitas, passa a receber moradores, devotos, pesquisadores, fotógrafos e visitantes interessados em conhecer uma tradição que ultrapassou gerações.
A celebração também possui importância para o turismo cultural e religioso do Recôncavo Baiano. Sua dimensão ultrapassa os limites de Cachoeira e tornou a cidade referência nacional quando o assunto é patrimônio afro-brasileiro.
Em 2026, a realização da Feira Artesanato da Bahia, entre os dias 14 e 16 de agosto, também integrou a programação cultural associada aos festejos, reunindo artesãos e artesãs da região no Centro Histórico.
Uma tradição que permanece viva
Mais de dois séculos depois de sua formação, a Festa da Boa Morte continua sendo conduzida pelas mulheres da irmandade e transmitida entre gerações.
Sua força está justamente na capacidade de preservar o passado sem deixar de dialogar com o presente.
Entre velas e procissões, missas e cânticos, roupas tradicionais, samba de roda, feijoada, caruru e manifestações culturais, a celebração mantém viva uma parte fundamental da história da Bahia.
A Festa da Boa Morte é, ao mesmo tempo, religião, memória, ancestralidade, cultura, resistência e identidade.
E talvez seja essa combinação que explique por que, todos os anos, milhares de pessoas atravessam diferentes caminhos para chegar a Cachoeira e testemunhar uma tradição que não ficou presa ao passado.
Ela continua acontecendo.
Continua sendo praticada.
E, sobretudo, continua sendo transmitida pelas mulheres que mantêm viva a memória da Boa Morte.
