O sul da Bahia viveu, neste mês de junho, dois cenários completamente distintos.
Enquanto Itabuna celebrou o sucesso de mais uma edição do ItaPedro, consolidando o evento como um dos maiores festejos juninos do Brasil e, na avaliação de muitos, já superando em projeção o tradicional Pedrão de Eunápolis, Ilhéus assistiu ao cancelamento do “Meu São João Amado”, uma decisão difícil, mas justificada pela atual realidade financeira e administrativa do município.
O contraste é inevitável.
De um lado, Itabuna colhe os frutos de anos de planejamento. O prefeito Augusto Castro (PSD), aliado político do governador Jerônimo Rodrigues, conseguiu transformar o ItaPedro em um patrimônio cultural da cidade e em uma referência no calendário oficial da Bahia. A parceria com o Governo do Estado garantiu investimentos robustos, grandes atrações nacionais, infraestrutura, segurança e ampla divulgação.
A presença do governador Jerônimo Rodrigues, do ex-governador e ex-ministro Rui Costa e de diversas lideranças estaduais durante os festejos simboliza muito mais do que prestígio político. Representa uma convergência institucional capaz de transformar cultura em desenvolvimento econômico.
Não por acaso, hotéis e pousadas lotadas, comércio aquecido, bares, restaurantes, ambulantes, motoristas de aplicativo e o setor de serviços comemoram os resultados.
Itabuna compreendeu que investir em grandes eventos é investir na economia local.
Enquanto isso, Ilhéus atravessa um dos momentos mais delicados de sua história recente.
Pela primeira vez em muitos anos, o município deixou de realizar seu tradicional São João. A Prefeitura optou por cancelar os festejos, alegando responsabilidade fiscal, necessidade de priorizar serviços essenciais e cautela diante de um ambiente de forte fiscalização sobre gastos públicos, inclusive em meio a investigações relacionadas a contratos da administração municipal.
A decisão pode frustrar quem aguardava a festa.
Mas revela uma postura de prudência diante de um cenário em que diversas prefeituras brasileiras passaram a responder por denúncias de superfaturamento em contratações de artistas e estruturas para eventos juninos.
Ainda assim, não se pode ignorar outro aspecto dessa realidade.
Após as eleições municipais, em que o grupo político apoiado pelo Governo do Estado foi derrotado em Ilhéus, a relação institucional entre o Palácio de Ondina e a Prefeitura tornou-se visivelmente mais distante. Na avaliação de diversos analistas políticos e de lideranças locais, essa falta de sintonia tem dificultado a construção de parcerias que poderiam beneficiar diretamente a população ilheense.
O Governo da Bahia afirma tratar os municípios de forma republicana e mantém programas de apoio aos festejos juninos em diversas cidades. Contudo, é impossível deixar de observar a diferença entre o volume de investimentos destinados a alguns municípios e a realidade enfrentada por Ilhéus neste momento.
E quem paga essa conta não é o prefeito.
Nem o governador.
É a população.
Ilhéus já foi protagonista dos grandes eventos da Bahia.
Foi palco do maior Carnaval Antecipado do Brasil. Realizou o Carnaval Cultural, o “Aleluia Ilhéus Festival” durante a Semana Santa, grandes réveillons, consolidou o Festival Internacional do Chocolate e promoveu, durante anos, o Viva Ilhéus, em comemoração ao aniversário da cidade.
Esses eventos movimentavam hotéis, pousadas, restaurantes, táxis, comércio, artistas locais e milhares de trabalhadores informais.
Hoje, muitos deles pertencem apenas à memória dos ilheenses.
Não se trata de defender governos ou atacar adversários.
Trata-se de reconhecer uma realidade.
Quando existe planejamento, articulação política e cooperação entre os entes públicos, quem ganha é a economia e quem ganha é a população.
O sucesso do “ItaPedro” merece aplausos.
Não apenas pela grandiosidade da festa, mas por mostrar que cultura também é investimento, geração de emprego, renda e fortalecimento da identidade regional.
Ao mesmo tempo, o cancelamento do São João em Ilhéus deve servir como um alerta.
Uma cidade com a importância histórica, turística e cultural de Ilhéus não pode depender exclusivamente das circunstâncias políticas para manter vivas suas tradições.
Independentemente das diferenças partidárias, o desenvolvimento regional exige diálogo, cooperação institucional e maturidade política.
Porque festas passam.
Mas os impactos econômicos que elas deixam permanecem por muitos meses.
E é justamente por isso que a Bahia precisa celebrar o sucesso de Itabuna, sem deixar de refletir sobre o silêncio das praças de Ilhéus.

OLHAR PÚBLICO
“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges é Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
