
Um estudo global recente mostra que a doença renal crônica vem crescendo rapidamente e, em 2023, passou a figurar como a nona principal causa de morte no mundo, responsável por cerca de 1,48 milhão de óbitos naquele ano. Ao mesmo tempo, o número de pessoas com alguma redução da função renal subiu de 378 milhões em 1990 para aproximadamente 788 milhões em 2023, um salto impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela maior prevalência de fatores de risco como diabetes e hipertensão.
Por que isso está acontecendo
O crescimento da doença renal crônica está ligado a três forças principais. Primeiro, o aumento das doenças crônicas que a causam, especialmente diabetes tipo 2 e hipertensão arterial. Segundo, a obesidade e o envelhecimento da população ampliam o risco populacional. Terceiro, em muitos países não há diagnóstico precoce por falta de triagem sistemática e acessibilidade aos exames básicos como creatinina sérica e urocultura. Essas falhas fazem com que a doença seja detectada tardiamente, quando já existem danos renais avançados.
Impacto além dos rins
A perda da função renal não mata só pela própria falência. A disfunção renal eleva muito o risco cardiovascular. Estimativas recentes apontam que a insuficiência renal contribui de forma significativa para mortes por doenças cardíacas e acidentes vasculares. Em 2023, disfunção renal esteve ligada a quase 12% das mortes cardiovasculares globais, o que deixa claro que a crise renal está integrada à crise das doenças não transmissíveis.
Distribuição geográfica e desigualdades
A carga da doença não é igual entre países. China e Índia concentram grande parte dos casos absolutos devido ao tamanho populacional e à transição epidemiológica. Mas a mortalidade e a progressão para necessidade de terapia renal substitutiva são piores em regiões com menos acesso a cuidados, medicamentos e diálise. Em suma, as disparidades de acesso ampliam o impacto da doença em populações vulneráveis.
Detecção precoce e prevenção o que funciona
Identificar a doença cedo muda o jogo. Triagens simples e baratas exame de urina para proteinúria e dosagem de creatinina para estimar a taxa de filtração glomerular permitem classificar risco e iniciar intervenções. Controle rigoroso da pressão arterial, manejo glicêmico em diabéticos, perda de peso, cessação do tabagismo e uso racional de antipiréticos e AINEs reduzem risco de progressão. Em pacientes de alto risco, medicações como inibidores de SGLT2 e bloqueadores do sistema renina-angiotensina mostraram proteger a função renal e reduzir eventos.
Desafios do tratamento e custos
Quando a doença progride para estágio final, as opções são diálise e transplante. Ambas demandam infraestrutura, profissionais e recursos caros. Muitos países de baixa e média renda não conseguem ofertar diálise universal, o que leva a mortes evitáveis. Investir em prevenção, triagem e tratamentos ambulatoriais é mais custo-efetivo do que ampliar só a rede de diálise.
O que autoridades e gestores precisam fazer agora
Políticas públicas precisam priorizar: 1) inclusão da triagem renal em programas de atenção primária; 2) acesso a medicamentos comprovadamente protetores do rim; 3) programas de redução de fatores de risco (controle da hipertensão, diabetes e obesidade); 4) fortalecimento de sistemas de dados para monitorar a doença. Sem ação coordenada, a projeção é de que a carga continue aumentando nas próximas décadas.
O que você pode fazer já
Peça ao seu médico exames simples se tiver fatores de risco: pressão alta, diabetes, histórico familiar de doença renal, idade avançada, uso crônico de anti-inflamatórios. Pequenas mudanças no estilo de vida e o controle adequado de pressão e glicemia reduzem muito a chance de progressão.
Fontes principais consultadas
Estudo global publicado na Lancet sobre carga de CKD 2023.
NYU Langone resumo e implicações do estudo.
Relatórios e análises sobre políticas de saúde e dados da WHO.
Cobertura jornalística especializada e análises médicas (MedicalXpress / News-Medical).
Dados do CDC sobre prevalência e grupos de risco (EUA).